04/03/2008

Menina de Eldorado dos Carajás - Pará
Foto: André Gonçalves.
Mais aqui.

03/03/2008

Novo

O que você faria se tivesse que enfiar dois dedos na garganta?
Nós, (eu, Pedro Jansen, Juliana Alves e Edson Costa) fizemos isso.

01/03/2008

As Várias faces de Jackie S. - Face 8 - A Colombina

Jackie vestiu os olhos de alegria e espalha pelo salão o cheiro de quem tem as asas tremidas pelo vento. “Engole, Jackie, engole o medo, que por quatro dias o mar é inteirinho seu, e o sal se fará leve e a dor só vai chegar quando desabar o cinza em sua cor”. Jackie enxuga a lágrima de um certo Pierrot, e ambos rodam pela noite flertando com o amor. “Samba, samba, coração! Explode dentro do peito, e deixa que a vida cuida das feridas e do sangue que escorre pelas frestas da tristeza”. Eis que surge o Arlequim, fantasiado de arco-íris. Pierrot vê que no olhar de Jackie o amarelo se assanhou, mas, pobre palhaço distraído, não entende que Jackie nasceu dividida em mil pedaços e que é ele, o amarelo, que desalinha o seu andar. Arlequim, o audaz, dispara flechas em forma de sorriso, que cortam o ar e arranham todos os sentidos de Jackie, que sente o mar se remexendo entre suas pernas como o mar costuma se remexer quando o horizonte desce para ser lambido pelas ondas. “Traz o céu, Pierrot, traz de novo o céu do seu olhar que o chão está se abrindo e o mundo está caindo e o desejo me coça a língua”. E fez-se assim o triângulo que usa máscaras para esconder a lealdade, e divide o sonho para não ter que descolorir o mundo como pede a realidade. Mas Jackie deixou tudo se acabar na quarta-feira, calçou de novo as velhas pantufas cor de rosa e despiu dos olhos a alegria, já rôta da folia. Arlequim, dizem, todas as noites dorme abraçado à lágrima que roubou de Pierrot. E o Pierrot, apaixonado, que vivia só cantando, por causa de uma Colombina acabou descobrindo que amor é amor, que dor é dor, que cor é cor, e a cada 365 dias arranca quatro do calendário e transforma saudade em confete e serpentina.

21/02/2008

Quando fui Morto em Cuba

Difícil imaginar o que teria acontecido se Che não tivesse morrido. Ou se Fidel tivesse morrido antes de Che. Talvez a barba de Fidel, fotografada por Alberto Korda, fosse hoje um ícone estampado em camisetas mundo afora, símbolo de luta pela liberdade. Talvez Che se tornasse um ditador. Talvez nem um, nem outro. Talvez Che e Fidel tivessem brigado, e Che arrebanhasse e treinasse guerrilheiros de toda a América Latina para derrubar o Castrismo em Cuba e recuperar a liberdade aos cubanos. Talvez Che vestisse a farda e, velho, com seus longos cabelos brancos, barba desalinhada e grisalha e boina estrelada, dividisse periodicamente o palanque com Fidel em Havana, e fizesse discursos de 4, 5 horas, deixando as outras 4 ou 5 horas para o breve pronunciamento de Fidel. Talvez Che fosse preso e fuzilado no paredón, como inimigo “de la revolución”. E se os dois houvessem morrido em um confronto com os partidários de Fulgêncio? Quem sabe? Cuba teria virado o quê? Uma Cancun com charutos de primeira?
O fato é que Ernesto Che Guevara e Fidel Castro derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista e Fidel se tornou o comandante em chefe da ilha, em janeiro de 1959. E a história dos dois se divide. De uma maneira peculiar e inusitada, Fidel e Che, revolucionários que inspiraram sonhos de liberdade mundo afora, se tornaram, 50 anos depois, dois lados de uma mesma moeda.
Ernesto Rafael Guevara de la Serna, El Che, a despeito de sua incompetência guerrilheira pós-revolução cubana (tentativas revolucionárias frustradas na Argentina, Congo e Bolívia), é um mito e um exemplo de coerência política. Sua morte em La Higuera, em 1967, em plena luta contra o poder desmedido do general Barrientos, transformou sua vida em martírio, em benefício do sonho do mundo mais igualitário. Morto, Che teve a oportunidade de ser lembrado só pelo lado heróico e idílico de seus atos. Está no coração de cada cidadão do mundo que acredita no fim do imperialismo e da supremacia do poder econômico sobre os direitos individuais.
Fidel acaba de pendurar a farda. E corre sério risco de entrar para a história como um traidor do sonho, um ditador de republiqueta, um fanfarrão. No panteão de Pol Pot, Stalin, Ceausecu. Mas pode ser endeusado pelas conquistas de seu país em meio a um criminoso e desumano embargo econômico americano e de seus satélites. Fidel deu motivos para gerar essa dúvida. Fez, da Ilha, um lugar muito curioso. Um lugar onde a expectativa de vida, em 2007, era de mais de 77 anos. No Brasil, 71 anos. Em 2004, pela ONU, Cuba era o sexto país menos pobre, entre 102 pesquisados. Mas as pessoas não conseguem comprar papel higiênico, refrigerantes ou sapatos. Cuba tem uma taxa de mortalidade infantil de 6,2 para cada mil nascimentos. O Brasil tem o alarmante índice de 28,6 em mil. Mais de 98% das residências cubanas têm instalações sanitárias adequadas. No Brasil, menos de 78%. O analfabetismo em Cuba atinge apenas 0,02% da população. No Brasil, oficialmente, 13,7 em cada 100 cidadãos não sabem nem assinar o nome.
Fidel pode ser ditador ou sonhador. Fidel pode ser déspota ou libertador. Fidel pode ser um tirano ou um “padre de los pobres”. Pode ser um generalzinho de republiqueta ou último bastião do orgulho de ser latino-americano. Pode ser levado para a posteridade como assassino de intelectuais contestadores ou mentor e herdeiro de Che.
Só o tempo vai dizer o que vai acontecer com Cuba. Se Cuba vai preferir o jeito revolucionário de viver ou se encantar pelas maravilhas do consumo. Resta esperar e pensar, bem direitinho, se é verdade que democracia e liberdade são isso que está por aqui e nos dando, de presente, Rocinhas e PCCs e mensalões. Se é verdade que o preço da liberdade é a eterna vigilância, como foi mostrado em seu maior extremo em Havana. Se é verdade que o capitalismo dá oportunidades a todos, obviamente que mais oportunidades a quem tem mais dinheiro e menos oportunidades ainda para quem nunca teve oportunidade. Se é verdade que o sonho dos cubanos de tomar coca-cola e comer Big Macs é mais valioso que o nosso sonho de um país onde todos saibam ler, escrever e ter o mínimo de possibilidades de sair vivo de um hospital público. Se é verdade que liberdade de expressão é ver Big Brother e Jornal Nacional e concordar. Se é verdade que o mundo ideal seria uma mistura de Havana com Nova York ou Londres. E se Che era um Fidel que morreu antes de ser Fidel, ou se Fidel Castro é um Che Guevara que morreu engolido pela realidade.

02/02/2008

Duas fotos minhas no Intacta Retina.
Se puder, espie .

29/01/2008

Autobiografia não autorizada de Maria Quem – Tiro 3

Minha mãe, que chamava Edilene e era puta, chegou na Passarinha aos quinze. Olho roxo, trouxa nas costas, sandália havaiana e arrastando um farrapo que, dizia Meire Elen, a dona da Passarinha, era o que sobrava da vida dela. Um farrapo cor de rosa, manchado de azul e com cheiro de naftalina. Meu avô, pai da minha mãe, era crente da boca pra fora e filho da puta igualzinho ao meu pai da boca pra dentro. Ele descobriu que ela perdeu o cabaço e meteu a mão na cara dela, o pé na bunda dela e a boca no mundo, gritando da janela pro bairro inteiro ouvir “essa cadela é uma ímpia e só faço a vontade do Senhor: se queres cair na vida, que a vida caia sobre Vós”. Meu avô, pai da minha mãe, inventava coisas e dizia que elas estavam na Bíblia, só que ninguém nunca achava. E era tão filho da puta, tem dias que penso até que mais filho da puta que meu pai, que quem contou pra ele que minha mãe tinha perdido o cabaço foi a Gorete. Gorete era casada com o Gonçalo do Peixe, mas tinha um caso com meu avô, o pai da minha mãe. E quem comeu minha mãe foi o marido dela, o Gonçalo, e ela, pra se vingar, contou pra ele, meu avô, que primeiro quis matar o Gonçalo mas lembrou que o Gonçalo já tinha puxado cana por ter matado um outro amante da Gorete e preferiu descontar na minha mãe. Meu avô, além de crente da boca pra fora e filho da puta da boca pra dentro, era covarde. Mas minha mãe não. Minha mãe tinha coragem. E se era pra sair pra vida, ela saiu. Minha mãe, que chamava Edilene e era puta, chegou na Passarinha. Aos quinze. Olho roxo. Trouxa nas costas. Sandália havaiana. E arrastando um farrapo. Que, pensando bem, Meire Elen tinha razão: o farrapo era o que sobrava da vida dela. Um farrapo cor de rosa, manchado de azul e com cheiro de naftalina.

24/01/2008

Finalmente, tem post no Cine Pathé

É sobre P.S. Eu Te Amo.
Passa .

17/01/2008

Autobiografia não autorizada de Maria Quem – Tiro 2

Minha mãe chamava Edilene. Meu pai chamava Onofre. Minha mãe era puta. Meu pai, filho da puta. Minha mãe era uma puta linda, crioula poderosa, bunda grande, sempre rindo pra vida e pra todo mundo com aqueles dentes que iluminavam a noite, como se fosse um sol com vontade de boemia. Meu pai, o filho da puta, era bonito. Branco, enorme, olho verde, peito peludo. Tinha uma verruga no dedo mindinho esquerdo, usava uma pulseira de prata e ria alto. Parecia ator de filme. Não sei qual ator porque quase não vi filme, mas se ele fosse ator ia ser galã. Meu pai era casado. A mulher dele era uma puta doceira. Fazia brigadeiro, quindim e rissoles pra festinha de aniversário. Pobre adora rissole. Principalmente de goiabada. A mulher de meu pai chamava Beth. Gorda. Muito gorda. Beth do Rissole. Parecia nome de princesa francesa, mas era só nome de doceira: Beth do Rissole. A melhor doceira da Zona Norte inteira. Alguém falou por aí que puta no Brasil se apaixona. Minha mãe se apaixonou pelo meu pai. Meu pai, além de filho da puta, era motorista de ônibus. Fazia a linha 431 Centro-Norte, via Passarinha. Passarinha era onde ficava a boate onde minha mãe atendia a clientela. Passarinha virou lugar porque era o nome da boate, que era o puteiro mais conhecido da cidade. De Boate Passarinha virou a zona da Passarinha, que virou o bairro Passarinha. E era lá que meu pai passava todas as noites, depois de deixar na garagem o carro 0321 da Linha 431 Centro-Norte via Passarinha: na Boate Passarinha. Pra encontrar a Edilene, minha mãe, que era puta. Filho da puta.

16/01/2008

Autobiografia não autorizada de Maria Quem – Tiro 1

Meu nome é Maria. Maria Antônia Almeida de Bragança Fernandes Oliveira Melo Da Silva e Silva. Isso, Silva duas vezes. Silva é nome de pobre. Vai ver é por isso que eu tenho dois Silvas. Nasci pobre. Muito pobre. Silva de pai e Silva de mãe. O resto, Antônia de Almeida de Bragança Fernandes Oliveira Melo, não é de ninguém. Minha mãe que inventou pro meu nome ficar grande. Pobre adora nome grande. E colocar letras dobradas. Dois dáblius. Dois ípsilones. Mas meu nome não tem nenhum dábliu ou ípsilone. João, Maria, José, Pedro, sempre foi nome de pobre. Mas rico hoje em dia chama os filhos de João ou de Maria pra parecer humilde. Eles enchem o peito e falam cheios de orgulho: viu como nós somos humildes? Quanto mais simples, mais rico. Quanto mais enrolado, como Weston, Winston, Eulanajra, Margilaine, Westinghouse, mais pobre. Mas Silva não, é mesmo sobrenome de pobre. Meu nome é Maria. E eu tenho dois Silva.

15/01/2008

As Várias faces de Jackie S. - Face 7 - A Aniversariante

Hoje é desaniversário de Jackie. E Jackie esfrega as mãozinhas com dedinhos de pontas verdes, e olha para o Altíssimo e faz uma prece: “papai do céu, me dá um dia de sol na escuridão do meu meio-dia”. E desaba a chuva que desmancha o dia que brilhava nos olhinhos cinza-ontem, e desaba o mundo, e desaba a fé, e desaba a cor, e desaba tudo que Jackie conseguira colocar no bolsinho traseiro de seu jeans: três conchinhas de tamanhos variados, dois pirulitos mal-lambidos (o vermelho com uma rachadura transversal), quatro estrelas, um punhado de pó de arco-íris, três beijos
congelados e um par de olhos azuis de tamanho maior que suas órbitas, com recibo e certificado de garantia, o que garante sua troca. Mas Jackie enxuga o sonho e dá três saltinhos e solta a voz: “tenho pressa, tenho pressa”, enquanto sopra um mar de velinhas que dançam pelo ar e mostram o caminho que, dizem, leva ao Reino dos Brigadeiros. Com quem será, com quem será, com quem será não interessa a ninguém porque será só e se e quando e como tiver de ser, e vai ser assim, com docinhos e bolo e borbulhinhas nos narizes de bolota. E ele, o “mister com quem será que Jackie vai”, vai descobrir que desde muito cedo a voz de Jackie escorre pelas pernas a cada 28 dias e, por isso, nunca, nunca, nunca para sempre vai deixar Jackie dormir com
um olho aberto e o outro semi-fechado. Rataplam, rataplam, Jackie bate palminhas e sorri, como naquele um dia qualquer aí pra trás em que surgiu para o mundo, e decide: “vou me enroscar, vou me encolher, vou voltar pra lá que é bem quentinho, e só vou sair quando a vida clarear”.