Ângela Diniz levou quatro tiros em 30 de dezembro de 1976. Seu crime: ser bonita, desejada, sentir desejo, expressar desejo, ir contra a moral vigente, ser “a Pantera de Minas”. Doca Street disparou quatro tiros na imoral que pediu a ele que fosse embora, que a deixasse viver a vida da maneira que quisesse. E que morreu porque queria ser livre. Doca Street foi inocentado, em 1979, e saiu aplaudido do fórum. Sua defesa, um clássico: “legítima defesa da honra”. Desancando Ângela Diniz, afirmando que ela era uma mulher que “vivia na horizontal”, Evandro Lins e Silva, advogado de Doca Street, convenceu o júri de que Ângela Diniz “pediu” para ser assassinada. A vítima, mulher, linda, sensual, vivia de modo incompatível com a “moral e os bons costumes”, e isso legitimou o ato de Doca Street. Que defendia a honra, a moral, paladino do comportamento “natural” do homem. Menos mal que, dois anos depois, por pressão dos movimentos feministas, das esquerdas e dos “rebeldes imorais”, o mesmo Doca Street voltou a julgamento e foi condenado a 15 anos de prisão.
Mas assusta estarmos em 2009 e uma moça ser expulsa de uma Universidade por atentar contra a “moral e os bons costumes”. Assusta perceber que alunos, universitários, jovens, possam ter cercado uma mulher de minissaia, minivestido ou o que seja, e chamá-la de “puta”. E assusta ainda mais ouvir e ler os “manifestantes” afirmando que foi ela “quem pediu”.
Como assim, “ela pediu”? Como assim, usava roupa curta demais? Como assim, levantou o vestido? Estratégia antiga, das mais torpes, machistas, fascistas, inaceitáveis: transformar a vítima em réu. Desabonar a conduta da vítima para justificar um crime. Transformar um crime em inevitável defesa da ordem e dos bons costumes. Desde quando uma turba de universitários chamando uma mulher de vinte anos de “puta” é defender a instituição Universidade? Qual é a régua que mede o tamanho da moral? A moral está cinco centímetros abaixo do joelho? Ou três centímetros acima do umbigo? Quem vai punir os verdadeiros agressores, os que agrediram verbalmente Geisy, a humilharam e transformaram seu vestido cor de rosa em escândalo nacional, no país da Mulher-Melancia? Como assim, foi expulsa porque era preciso manter a “honra” da Universidade?
Ângela Diniz está morta. E dá medo perceber que, trinta anos depois, quem acreditava que ela mereceu morrer “porque pediu” continua vivo, e espalhando sua imbecilidade em um dos lugares que mais exigem liberdade, debate, respeito, divergência, convergência, tolerância: a Universidade. Isso explica porque tantas Ângelas anônimas continuam sendo mortas e agredidas Brasil afora. Outras deverão vir por aí. Em nome da moral e dos bons costumes. Na legítima defesa da honra.
Sim, dá muito medo. E vergonha.
Update: vale ler o que Lola escreveu sobre a suspensão da expulsão e a manifestação de hoje.
09/11/09
02/11/09
28/10/09
Saramago e Padre Carreira das Neves debateram na tv portuguesa. Carreira das Neves disse que Saramago estava usando as palavras da Bíblia de forma literal, e que ela (a Bíblia) deve ser lida como um romance, com suas metáforas e mensagens indiretas. Saramago disse que não há como o leitor médio compreender as metáforas da Bíblia, a não ser que lá esteja um teólogo a explicar o significado. Carreira das Neves disse que Saramago está sendo literalista, e que o assassinato de Abel, o sofrimento de Jó, o sacrifício de Abraão, a aniquilação de Sodoma e Gomorra, são metáforas. Símbolos. Poesia. Literatura. Não haveria nesses casos nada além de mensagens destinadas ao público da época. Não disse sobre a ressureição, a crucificação, o Cristo nascido da virgem, a última ceia, o inferno, o purgatório. Também são metáforas? Quando é para ser metáfora e quando não é?
26/10/09
Beira o cinismo isso de dizer que ir a inaugurações com candidata a tiracolo não é campanha eleitoral.
15/10/09
Em São Paulo, uma exposição “Como a Indústria do Fumo Enganou Você”. Mas o assunto é outro. Ou, nem. O curioso: não há nenhuma cena sendo exibida nos telejornais e nem uma foto que mostre os integrantes do MST depredando tratores. Aliás, todas as vezes que aparece um trator supostamente depredado pelos sem-terra na Cutrale aparece um trator velho e visivelmente parado há algum tempo. Intrigante pensar como os integrantes do MST conseguiram furtar 15 mil litros de combustível sem serem filmados pela polícia, que usava um helicóptero Águia, inclusive, para filmar a derrubada dos pés de laranja. Além disso, 15 mil litros de qualquer coisa ocupam um volume considerável, e os “invasores” saíram das terras, que o Incra diz que são da União e destinadas à reforma agrária e não da Cutrale, em cima de dois caminhões da própria Cutrale e cercados pela polícia. Onde esconderam o “produto do roubo”? Dizem ter sido 12 mil pés de laranja derrubados. Mas só vemos uma cena, dez, doze, treze segundos, de um trator derrubando meia dúzia. Onde estão os outros 11.994? Quem contou? Curioso também dizer que o MST não quer diálogo. São uns bobos, os MSTs. Afinal, latifundiários e ricos, em geral, são ótimos em dialogar com pobres, empregados, subalternos. Até chamam empregados de colaboradores, veja só. E é ótimo para os sem-terra dialogarem com os ruralistas. Morreram 1.086, salvo engano, nos últimos anos, nesses diálogos. Mas isso não gera CPI nem matéria no JN. E, a Cutrale, detém 30% da produção intergalática de bláblábláblá de laranja. Claro que pode usar as terras da União. Os sem-terra, não. Vândalos, eles. Então. Em São Paulo, uma exposição: “Como a Indústria do Fumo Enganou Você”. Mas o assunto é outro. Ou, nem.
(leia entrevista de João Pedro Stedile à Folha, de 12 de outubro)
(leia entrevista de João Pedro Stedile à Folha, de 12 de outubro)
14/10/09
09/10/09
Ainda não consegui assimilar o termo “orkutização”. É fácil perceber o tom de crítica ou desagrado, mas ainda não tenho certeza se consegui saber exatamente a quê se referem quando usam essa palavra para, por exemplo, reclamar do Twitter: “estão orkutizando o Twitter”; “o Twitter irá resistir à orkutização?”. Popularização? Vulgarização? O que é, mesmo, essa “orkutização”? Sinto uma contradição, pois boa parte dos que se dizem contrários à tal “orkutização” enchem a boca para falar das redes sociais como a panacéia dos problemas globais. Mas quanto mais as redes sociais se tornam sociais reaparece, nos moderninhos de plantão, o mesmo ranço de sempre. De sempre. De sempre. E que se disfarça de várias maneiras, mas reaparece em pequenas atitudes. Como no ser contra a “orkutização” do Twitter. Nada, ou praticamente nada, no último milênio, é tão democrático quanto a web. Com ares de anarquia, graças a nós. Claro, a publicidade quer monetizar. Quer monetizar tudo. É da sua essência. Monetizar. Ô, palavra. Quer monetizar qualquer pedaço de parede. Claro que quer monetizar a web. Se eu pudesse, não queria nada monetizado na web. Pública e gratuita e sem publicidade, já! Porém. É isso aí. Mas vamos nos dar por satisfeitos se tudo for “orkutizado”, se é que entendi o reverso do termo. Tomara que todos possam usar o Twitter, o Orkut, as redes sociais, e entupam tudo com fotos, vídeos, textos e péssimo gosto para música. E tudo isso fique lado a lado com o que de melhor o conhecimento humano pode produzir. Tomara que todos em Mulundú do Norte possam ter um blog. E possam acessar o que quiserem. Quem dera o mundo todo “orkutizado” onde você possa optar, simplesmente, por acompanhar ou não o que alguém pensa ou diz, sem criar guetos ou points para os bem-nascidos ou lugares exclusivos para minorias-dominantes-esclarecidas-brancas-caucasianas-de-nível-superior-gênios-do-novo-mundo-ungidos-pela-sabedoria. Evidente. Evidente que haverá, sempre, o melhor e o pior. O cult e o popularesco. O esteticamente belo e o grotesco. Mas quem decide isso? Você? Você decide onde os diferentes, os menores, os menos privilegiados, podem ou não estar? Sou eu quem decido? Isso tem outro nome. Aliás, vários. Mas você não vai gostar de saber quais. Fique na sua. Deixe o outro existir. Deixe o mundo se “orkutizar”. Isso dá caldo. “O” caldo. É isso que importa. Vamos engrossar o caldo. Agradecemos.
Muitos perguntando e se perguntando o que Barack fez para merecer o Nobel da Paz.
O Nobel talvez seja mais um recado e um pedido a Obama do que exatamente um prêmio. Afeganistão, Iraque, Guantânamo, Irã, Cuba, meio-ambiente, economia mundial. O planeta espera tanto de Barack que deu a ele este fardo.
Agora, todos os dias, o Nobel da Paz de 2009 deverá lembrar de sua láurea e pensar mais de uma vez em cada decisão tomada, em cada discurso proferido.
O mundo deu a Obama o status de pop star.
Agora, o Nobel dá a Obama uma responsabilidade maior do que ele mesmo deve ter imaginado.
Good luck.
O Nobel talvez seja mais um recado e um pedido a Obama do que exatamente um prêmio. Afeganistão, Iraque, Guantânamo, Irã, Cuba, meio-ambiente, economia mundial. O planeta espera tanto de Barack que deu a ele este fardo.
Agora, todos os dias, o Nobel da Paz de 2009 deverá lembrar de sua láurea e pensar mais de uma vez em cada decisão tomada, em cada discurso proferido.
O mundo deu a Obama o status de pop star.
Agora, o Nobel dá a Obama uma responsabilidade maior do que ele mesmo deve ter imaginado.
Good luck.
07/10/09
Pequeno Guia das Mínimas Certezas
Para ter a certeza de uma boa noite de sono, acenda o abajour. Com uma régua, meça a distância entre as pantufas ao pé da cama. A distância mínima é de 11,04 centímetros e, a máxima, 41,17 centímetros. Se dentro dos parâmetros indicados, a noite tende a ter cheiro de eucalipto rosa com listras azuis. Recomenda-se que o interessado não beba café 4 horas antes do procedimento.
Para ter a certeza de uma boa noite de sono, acenda o abajour. Com uma régua, meça a distância entre as pantufas ao pé da cama. A distância mínima é de 11,04 centímetros e, a máxima, 41,17 centímetros. Se dentro dos parâmetros indicados, a noite tende a ter cheiro de eucalipto rosa com listras azuis. Recomenda-se que o interessado não beba café 4 horas antes do procedimento.
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