22/01/2009

O maior testemunho de que “O Curioso Caso de Benjamin Button” merece suas 13 indicações ao Oscar é o silêncio de quem sai da sala depois de sua exibição. Um silêncio marcado por movimentos lentos, por uma vontade de falar presa na garganta, e por um olhar diferente sobre o que é o nascer, o envelhecer, o morrer e, principalmente, sobre o viver.
O Curioso Caso de Benjamin Button é classificado como “drama”. É um erro, digamos assim. O filme é uma fábula. Uma, com o perdão do trocadilho, fabulosa fábula sobre a condição humana. Sobre o eterno correr atrás de um tempo que não, senhores, não existe mais. “Benjamim” é uma fabula que se dá ao direito de mostrar Benjamin como portador de uma doença, mas em nenhum momento revelar qual é a doença, ou tentar explicar nada. Não é preciso explicar nada. É preciso entender.
É um filme sobre perdas. Sobre a eterna impossibilidade de se ter isso e aquilo: ou se tem isso, ou aquilo. Todos os personagens ganham uma coisa, mas perdem outra. Benjamin tem cabeça e alma de criança, mas corpo de velho. É adolescente, mas cinquentão. É quarentão, mas adolescente. É velho, mas criança. Nasce. E, nascendo, morre. Não é isso mesmo, a vida? Não é isso mesmo o que acontece todos os dias?
Benjamin é infeliz. Apenas em um momento no filme ele parece realizado, completo, feliz, vivo: quando encontra física e amorosamente a mulher que sempre quis. Não à toa é o momento propositadamente mais clichê do filme, com pintura de apartamento pelo casal, sexo no colchão na sala, música dos Beatles. Porque a felicidade está no clichê. E é fugaz. Logo o clima onírico dá lugar à sombra e à realidade, fantasiada de realismo fantástico: Benjamin rejuvenesce fisicamente, e envelhece por dentro. E aquele momento único se transforma em saudade, lembrança, impossibilidade.
O Curioso Caso de Benjamin Button é uma aula de cinema. David Fincher e Brad Pitt formam uma dupla como poucas, hoje em dia. Como Johnny Depp e Tim Burton, talvez. Eric Roth, o mesmo roteirista de Forrest Gump, repete fórmulas usadas (como mostra vídeo que rola por aí na Internet). Mas há uma diferença entre fórmulas repetidas e fórmulas gastas. Roth acerta em cheio de novo e propõe uma diferença fundamental entre Gump e Button: Gump é o idiota que dá certo, e que corre atrás de algo que nem sabe o que é. O que lembra um pouco de nós. Mas Button é cada um de nós por inteiro. Corre atrás de uma felicidade impossível. Corre atrás do encontro entre ele e ele mesmo, entre o que ele sente e o que ele é. Se ele encontra, é coisa para você assistir e pensar e chegar à sua conclusão.
O certo é que nem interessa se “O Curioso Caso de Benjamin Button”, ou David Fincher, ou Brad Pitt ou alguém vai ganhar um Oscar com essa história, uma das mais delicadas obras sobre o tempo e a existência humana. Interessa é que quem o assiste leva para casa um sentimento peculiar e uma missão: a de se aventurar mais pela vida, na maior de todas as aventuras. A aventura de conhecer a si mesmo, de aceitar as coisas como elas são e de entender que não se pode ganhar a corrida contra o tempo.
Podemos, no máximo, usá-lo melhor.

7 comentários:

Biani Luna disse...

quero um tempo pra vê-lo. não se fala em outra coisa!
beijos

Alline disse...

Chorei três vezes durante o filme.
É preciso saborear cada momento da vida.
Beeeijo

Pri Rezende disse...

Já assisti 2 vezes. Fabuloso. Mas com essa sua resenha, achei mais fabuloso ainda, porque o vi com seus olhos. Já assistiu "Sete Vidas"?

Pri Rezende disse...

Vou roubar seu texto.

"Monica Mamede" disse...

Tive três prazeres com Button: a indicação do filme, que aguçou minha curiosidade; apreciá-lo no cinema - sim, dá aquela sensação de nó na garganta e no pensamento...; e o seu escrito sobre o filme. Sem dúvida, um clássico.

Voltarei mais vezes por aqui.
Gostei...

Abraços,

Marcélio Lima disse...

Sensacional.
O filme remeteu minhas lembranças a escrito de Charles Chaplin sobre reflexões acerca da cronologia da vida e de como deveria-se aproveitá-la melhor.
Todo ser humano, para se autodescobrir humano, deveria ter oportunidade de conhecer Chaplin e assistir "O Curioso Caso de Benjamin Button" e, porque não dizer, ler seu escrito.

Segue o texto chapliniano:
"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina.
Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente.
Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo.
Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar.
Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.
Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando.
E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"
Um abraço.

Ceci disse...

André

Recente descobri essa diversão em passear por blogs... mais um caminho para mim, que sou apaixonada por leitura. E essa sua sensibilidade, perspicácia, doçura e intimidade com as palavras me fascinaram... Acho que você arrumou mais uma farinheira...