15/12/2008

Phyllipe e ela falaram que tinham certo medo de que eu assistisse “Na Natureza Selvagem”. Porque podia ser que, sem mais nem menos, meu lado Alex Supertramp se manifestasse e eu a esta altura estaria por aí fodendo o sistema de algum jeito pouco ortodoxo. Mas cá estou eu. Buscando a maneira de, sim, conciliar a fodeção do sistema com o pagamento das pensões alimentícias de minhas filhas. O que é um dilema atroz, já que as pimpolhas precisam comer, vestir, usar aparelho nos dentes, fazer faculdade e não têm nada a ver com essa minha missão foderosa. Então, toda segunda-feira eu sucumbo à tentação e troco a vontade de invadir as casas alheias e trocar os móveis de lugar, fodendo as certezas e convicções da classe-média-ascendente-e-com-vontade-de-ter-um-honda-civic, por cento e doze suspiros matinais de impaciência e resignação. Aos 40 anos, talvez seja mesmo o mais sensato. E é engraçado a gente falar em sensatez enquanto o mundo vive a era da arquitetura da estupidez. Quer dizer, não sei se todo o mundo, mas pelo menos uma parte significativa dele e, muitas vezes creio eu, a parte que manda. Há no planeta todo um movimento surdo e manipulado em prol da idiotice. Tenho certeza disso. Alguma mente superior e doentia promove movimentos subreptícios que elevam a imbecilidade ao status de cult, de pop, de movimento de massa. Nem sei. Nem sei se é algo assim tão recente, vide tantos exemplos em eras e eras e eras passadas. O problema é que, em eras passadas, não havia televisão, nem internet, e a estupidez poderia levar meses, quem sabe anos, para atravessar o oceano, ou dias para ir de uma rua a outra na mesma cidade. A arquitetura da estupidez faz, por exemplo, que famílias inteiras comemorem a “vitória” de uma criança em uma eliminatória para participar de um concurso de soletrar no programa do Luciano Huck. Eu vi na tv. Lágrimas pela vitória de uma menina em uma eliminatória regional. A criança acerta meia dúzia de palavras e ganha cem mil reais. Eu tinha Ditado, na escola. Acertava quarenta, cinqüenta, sessenta palavras por dia. E hoje um menino acerta vinte palavras, na tv, e ganha cem mil reais. O Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, paga 30 mil reais. O Prêmio Nobel, que Saramago ganhou, paga aí dois milhões de reais. Quer dizer: o menino soletra vinte palavras e ganha 5% do que um Prêmio Nobel de Literatura ganha. Soletrando. E assim vai. Se a gente for dar exemplos, não faz mais nada na vida. Aos amigos e a ela, digo que continuo aqui, balançando a cabeça e suspirando, nas manhãs de segunda-feira. Mas lembro que a paciência vai acabando, e que as meninas vão ficar adultas. Sensatez tem limite. O sistema que se cuide. Quem quiser participar, que se cadastre no guichê ao lado e aguarde.

3 comentários:

Phylippe Moura disse...

Mais difícil que suportar a constante burrice é escrever meu nome.

P-H-Y-L-I-P-P-E

Não sou um mente brilhante, mas me sinto um oasis no meio disso tudo.

Pri Rezende disse...

Eu quero me cadastrar.

[dea] disse...

vale cadastro atrasado?