03/06/2008

Carol Dunlop e Julio Cortázar



"Em princípios de 1977, Cortázar viajou ao Canadá para dar conferências sobre literatura latino-americana na universidade de Montreal. Um dia um dos professores se aproximou e o convidou para jantar. Quando entrou no chalé, a primeira coisa que notou foi um belo rosto juvenil, de cabelo curto e bonitos olhos claros. O anfitrião se apressou a apresentá-los: “Carol Dunlop, minha ex-mulher”. Cortázar a olhou e conteve a respiração. Ela estendeu a mão que ele tomou timidamente".

"Cortázar soube que Carol havia nascido nos Estados Unidos, mas havia se mudado para o Canadá depois de ativa participação contra a guerra do Vietnã. Cortázar sorriu com admiração e lhe perguntou em francês o que achava da revolução cubana. Outras pessoas estavam ali, mas ninguém mais existiu para ele naquele jantar".

"De volta a Paris (...) tomou uma folha de papel e escreveu: “Querida Carol: Talvez esta carta lhe surpreenda, mas creio que contém uma idéia interessante e queria que me dissesse com toda franqueza seu ponto de vista (perdão pelo meu espantoso francês, mas sei que não conhece o espanhol). (...)Tenho a impressão de que há em nossas buscas semelhanças quando menos perturbadoras, e me pergunto se uma exploração em comum desse território – em que cada um conservaria, desde logo, uma liberdade total de criação e de língua original – não daria frutos inesperados”".

"Meses depois, Carol deixou Stéphan aos cuidados de seu ex-marido e viajou para Paris. Do aeroporto foi diretamente para o apartamento de Julio. Aos sessenta e cinco anos, e em companhia de uma mulher trinta e dois anos mais nova, começou para ele uma nova vida. Abandonou para sempre suas aventuras extra-conjugais e se entregou a essa união".

"Em 1981 Cortázar recebe a cidadania francesa e com a tranqüilidade da situação legal, Cortázar e Carol viajaram para passar o verão em Aix-en-Provençe. Todas as manhãs davam um passeio pelo bosque onde recolhiam frutos silvestres. Depois, a leitura sob o sol na varanda e mais tarde responder algumas das dezenas de cartas que cada semana se acumulavam sobre a mesa. Apenas uma leve angina molestava a Cortázar que, hipocondríaco, tomava muitas aspirinas".

"Certa madrugada, Carol acordou e não o encontrou na cama. Correu pela casa buscando-o, até que o viu: Julio estava desmaiado, em um mar de sangue, os olhos fechados e a barba arroxeada. Em poucos minutos, foi levado ao hospital".

"O diagnóstico do médico foi definitivo: Cortázar sofria de leucemia mielóide crônica. Começa assim, sem o saber, o lento caminho até o fim. Ela nunca falou a ele de sua doença. De volta a Paris, em dezembro de 1981 acontece o casamento Dunlop-Cortázar".

"Apesar de ter quase sessenta e oito anos, o espírito infantil de Cortázar era constante. (...) às vezes se disfarçava com os caninos vampirescos e as unhas pintadas de negro. Então corria atrás de Carol pela casa e não se contentava até que a tinha entre seus braços e podia morder-lhe o pescoço"

"Outro jogo aconteceu em 1982 quando organizaram uma viagem cuja única finalidade era escrever um livro sobre a experiência. Estabelecendo uma série de regras, se propuseram a embarcar em uma kombi e fazer a viagem Paris-Marselha através da Autopista do Sul, parando cada dia em duas estações de serviço, do total de setenta. Se deteriam para escrever, desenhar, ler ou descansar, procurando encontrar nas estações de serviço aquilo que costuma passar despercebido para o turista comum. (...)Nenhum dos dois sabia que o que havia começado como um jogo, teria tempos depois o significado de uma despedida".

"Apenas finalizada a experiência da viagem, Carol e Cortázar foram à Nicarágua para retomar a ajuda a esse país. Iriam se instalar por dois meses em Manágua, escrevendo artigos e depoimentos que alertassem a comunidade internacional para a situação nicaragüense".

"Umas semanas antes de completar os dois meses, Carol começou a sentir uma forte dor nos ossos que os obrigaram a trocar de planos".

"No hospital descobriram que um vírus estava afetando a produção de glóbulos brancos e plaquetas. Carol foi internada e iniciou-se um longo tratamento que se estendeu por 70 dias".

"Apesar das esperanças que mantiveram, em 2 de novembro de 1982, Carol “se me foi como um fiozinho entre os dedos. (...) Se foi docemente, como ela era, e eu estive ao seu lado até o fim, os dois sozinhos na sala do hospital onde passou dois meses, onde tudo resultou inútil. Até o final esteve segura de que melhoraria (...) a acompanhei como se nada tivesse mudado, e nas últimas horas consegui que ninguém entrasse para molestá-la e fiquei ao seu lado, cuidando, até que o último calmante que lhe haviam dado foi adormecendo-a pouco a pouco”.

"O amigo Tomasello construiu a tumba no cemitério de Montparnasse, Silva desenhou a escultura que a adorna: um círculo sobre outro, flores ou talvez cronópios subindo uma escada"

"Cortázar passava horas no cemitério, e levava flores amarelas de que tanto gostava Carol, e se sentava junto a ela. Mas em 12 de fevereiro de 1984, no hospital, Cortázar murmurou um último desejo. Voltou a cabeça em direção à janela e fechou os olhos. Junto a ele estavam Aurora e Tomasello; no ar, tal como havia pedido, flutuava Mozart. Foi sepultado dois dias depois, no cemitério de Montparnasse. Aurora jogou rosas vermelhas sobre a tumba. Ali, debaixo de uma mesma lápide, descansam Carol Dunlop e Julio Florêncio Cortázar, enormíssimo cronópio".


(trechos extraidos do artigo "Um cronópio apaixonado: as mulheres de Cortázar", em http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=1314, escrito por Susan Blum Pessôa de Moura, formada em Psicologia (PUC-Pr, 86) e formada em Letras (UFPR, 2003). Mestre em estudos literários (UFPR, 2004) e doutoranda na USP pesquisando sobre o espaço e o autor Julio Cortázar)
(link do vídeo do You Tube, linkado do blog de João Paulo Cuenca - http://oglobo.globo.com/blogs/cuenca)

Um comentário:

Diz disse...

Que história de amor e morte impressionante!
Estou sofrendo um luto agora. Tudo me toca em excesso.
Belo blog o seu.
Abs,
Laura