08/05/2008

Autobiografia não autorizada de Maria Quem – Tiro 5

Quando minha mãe acordou, deu de cara com o mar. Era um mar verde, que refletia o sol e tinha lá no fundo uns barquinhos de velas brancas que levaram minha mãe pra longe, longe. Era o mar dos olhos do meu pai. Meu pai arreganhou de novo o sorriso, e dessa vez minha mãe não desmaiou mais. O que ela fez foi segurar o pescoço dele e antes que ele pudesse desfazer o sorriso ela puxou o mar pra bem pertinho dela e fechou os olhos e descobriu que tem beijos que fazem estourar muito mais foguetes do que trepar. Minha mãe naquele dia descobriu que é por isso que puta de verdade não beija na boca. E nunca mais beijou ninguém que não fosse meu pai. Minha mãe e meu pai começaram a namorar. Meu pai ia toda noite na Passarinha. Só que nunca comia minha mãe. Porque ela era puta mas era uma puta direita, e disse que com ele só depois de casar. Porque era puta por profissão, não por amar. E meu pai e minha mãe ficaram assim: minha mãe trepava não sei quantas vezes por dia pra pagar a morada na Passarinha, mas se guardava pro meu pai e dizia que ia casar virgem com ele porque a virgindade não fica no meio das pernas mas num cantinho do coração. E meu pai comia todo dia uma mulher da Passarinha mas dizia que trepar é uma coisa, amar é outra coisa e que ele amava ela como se ela fosse um pedaço dele , como se ela fosse o ar que ele respirava, como se ela fosse a única mulher na face da Terra. E assim foi por oito meses, seis dias, quatro horas, trinta e dois minutos e dezenove segundos a partir do momento em que minha mãe, Edilene, mergulhou pela primeira vez no mar dos olhos do meu pai, Onofre.
Pra nunca mais voltar.

25/04/2008

Coisas de Amor Largadas na Noite

No dia em que este blog "comemora" 15 mil visitas, comunico que Coisas de Amor Largadas na Noite, meu primeiro livro, dará entrada na gráfica para impressão na próxima semana.
O lançamento está previsto para o dia 29 de maio, com "reprise" durante o Salipi - Salão do Livro do Piauí, entre os dias 1 e 7 de junho. Mais informações nos próximos dias e, em breve, fotos dele por aqui.
Perdão pela demora em colocar novos posts. É que, sinceramente, editar um livro é quase um parto.
E novos posts a partir de segunda-feira, com mais um capítulo da fabulosa saga de Maria Quem.

post post scriptum: Coisas de Amor Largadas na Noite é uma compilação de vários textos escritos por mim, publicados em blogs ou não. Sempre giram em torno do amor, do desamor, do não amor ou afins. São 54 textos, vários deles inéditos. Curtos, longos, cartas, versos, sem forma definida. Como o amor, que nunca tem uma forma só.
O livro não será colado: as páginas são soltas, sem ordem estabelecida, podendo ser lidas de trás pra frente, de frente pra trás, de cima pra baixo. Você pode ler na cama, em pé, no banheiro, na fila do Mc Donalds, no ônibus, onde quiser. Pode dar as páginas de presente, escrever no verso delas, fazer quadrinhos, ou deixar mesmo dentro da capa, que terá formato especial, tipo pasta, para caber tudo direitinho. É como no amor: as páginas são livres, e se você não cuidar, pode perdê-las. Mas pode também dar a alguém que você goste, pode guardar, e deve cuidar sempre direitinho.
O livro é todo em papel reciclado, para lembrar que o amor deve ser sempre reciclado, revisto, arrumado, todos os dias e, mesmo amarrotado aqui e ali, dá para fazer coisas lindas com ele.
Coisas de Amor Largadas na Noite tem a direção de arte belíssima, gostosa, leve. Porque todo amor deve ser leve, bonito, agradável. Aliás, a Direção de Arte é de Josélia Neves, amiga e colega e, a partir de agora, leiauteira oficial das coisas minhas. Porque fidelidade, se para algumas pessoas pode não ser essencial, é sempre muito, muito, muito bacana.
Coisas de Amor Largadas na Noite é uma co-edição da Fundação Quixote, Gráfica e Editora Halley e Idéias Inc. - Fazedora de Coisas. Porque não existe história de amor de uma pessoa só.
Sempre é preciso mais de um pra ser amor.

16/04/2008

Salão de Fotografia de Teresina premia vencedores

"Enquanto Isso, no Bar da Boa" (foto de Brito Júnior)
Vencedora categoria Foto Publicada

Do Portal Az:

Na noite de ontem, 15, em solenidade reunindo fotógrafos e artistas na Casa da Cultura, foram conhecidos os vencedores do 14º Salão Municipal de Fotografia, promovido pela Prefeitura de Teresina, através da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Na ocasião, foi aberta a exposição com as melhores imagens que participaram do concurso, que deve permanecer na Galeria Lucídio Albuquerque até o mês de maio.

Veja a matéria e as fotos vencedoras AQUI.

14/04/2008

Publicação nacional de fotografia vai ter imagens de Teresina.


No dia 17 de junho acontece o lançamento do livro Brazil by Night, na nave central da Livraria Cultura, na avenida Paulista, em São Paulo.
Em Brazil by Night serão publicadas 200 imagens noturnas das capitais e de outras cidades brasileiras, sempre com uma visão diferente do tradicional cartão postal.
Entre os 69 fotógrafos convidados, mestres da fotografia brasileira, como Walter Firmo, Araquém Alcântara e Tetsuo Segui e boas surpresas, como o publicitário piauiense André Gonçalves, que participa com duas fotografias em preto e branco de Teresina, com seu olhar peculiar.
Brazil by Night é considerado o lançamento do ano na fotografia brasileira.

(divulgação)

31/03/2008

Shout

Dois dedos na garganta.
Tem texto novo lá.

18/03/2008

Autobiografia não autorizada de Maria Quem – Tiro 4

Meu pai, que chamava Onofre, era motorista de ônibus, branco, enorme e lindo, com cara de ator de novela que eu nem sei o nome, e era filho de motorista de ônibus e neto de motorista de caminhão. Ele gostava de ser motorista, e desde criança falava que ia ser igualzinho ao pai dele, meu avô, quando crescesse. Meu pai não gostava de estudar quando era menino, por isso não aprendeu muita coisa. Mas aprendeu a ser filho da puta desde cedo. Começou que foi pai pela primeira vez aos quatorze anos, quando embuchou uma tal de Mariah, mulher casada com o Tonico do bar. Era uma coisa de carregar caixa de cerveja pra lá e pra cá e meu pai, que sempre foi bonito como o diabo, conheceu as coisas da Mariah no meio das garrafas de cerveja. Meu avô, o pai do meu pai, só fez foi achar muita graça nessa história e foi conversar com o Tonico, que tinha dito que ia matar a Mariah. Meu avô, pai do meu pai, convenceu o Tonico de não matar ninguém, e Tonico, Mariah e Alecsandro, o primeiro filho do meu pai, viveram juntos até que o Alecsandro morreu num tiroteio com a polícia, ano passado. Mau elemento. Meu pai gostava dele, mas Tonico fez dele um bandido, de tanto bater no menino. Ele queria bater mesmo era no meu pai, mas meu pai era enorme, e o Tonico parece um toco de amarrar jegue. Meu pai cresceu aprontando e conhecendo todas as moças do bairro por dentro e por fora, de cima até os lá embaixo todos. Meu pai disse que nunca ia casar na vida porque casamento era coisa de homem feio ou burro, e ele nem era uma coisa nem outra. Aí um dia meu pai soube que na Passarinha tinha uma menininha novinha que não devia ter quinze anos. E ele foi lá, na Passarinha. E conheceu Edilene, minha mãe. Minha mãe, que começava a ser puta, se apaixonou na mesma horinha pelo meu pai, que já era filho da puta há muito tempo. E meu pai, que era filho da puta mas era lindo, arreganhou um sorriso do tamanho do céu e quase mata minha mãe, que desmaiou e caiu diretinho nos braços dele.
Teresina
(foto: André Gonçalves)

15/03/2008

Macarronária

É tarefa masculina prover o alimento da fêmea, especialmente quando a fêmea faz morada no quarto principal do peito do macho. É tarefa do homem caçar o ex-vivo animalzinho ou tubérculo ou sorrateira raiz, ou usar o cartão de crédito ou a capacidade de realizar o escambo (ou, em último caso, a invasão armada de um depósito de um supermercado qualquer) para transformá-lo em fondues de peito de morango ao chocolate, bife de lontras a escarola, pato com laranjas da Albânia e molho de catupiry ou salada Scafollesi Tontti enfeitada com fios de ovos de crocodilos albinos da Malásia. Ou até mesmo num simples molho a bolonhesa. Mas os tempos modernos fazem crer aos menos ponderados que, pelo fato de todos terem os direitos iguais, homens, mulheres e suas variantes e adjacências, tal fato (o prover da fêmea pelo macho) esteja em desuso. Evidentemente, é de uma grande parvoíce tal assertiva, pois a confecção de pratos coloridos, saborosos e, evidentemente, nutritivos, do homem para a mulher é, no mínimo, sinônimo de boa educação, além, é claro, de servir a objetivos tão nobres quanto o de alimentar, que sejam o de enamorar, de seduzir, de encantar e o de evitar que seres tão encantadores tenham suas delicadas extremidades superiores, vulgarmente chamadas de dedos, cheirando a alho ou com bolhas liquosas causadas pelos inevitáveis acidentes com o calor das panelas. Enfim, está escrito nas Tábuas de Abdalel, no item 14, alínea c: “faz o alimento para o corpo de sua amada, que dela receberás o alimento de sua alma”.
Assim, procede que o homem deverá ter como conhecimento essencial ao menos uma receita que provoque, em seu objeto de adoração: aumento dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas, discreto inchaço ao sul do continente, elevação da temperatura corporal, aumento da salivação e vontade de rodopiar pelo ar ao som do Bolero de Ravel. Evidentemente, a dança varia conforme a música, mas tem-se como parâmetro de qualidade gustativa o NRPS, ou número de rodopios por solfejo. O índice ideal, segundo estudos apuradíssimos do Instituto de Ciências Gastronômicas de Valverdianne, Escolávia, é de 52,876 rodopios por solfejo. Mas houve um caso no ano de 1937, no sul da Lituânia, em que uma jovem donzela se encantou tanto por um singelo bife ao molho preparado pela sua metade da laranja que rodopiou à incrível marca de 682 rodopios por solfejo, marca considerada imbatível e que recebeu a impressionante média de 10,6 pontos no levantamento das placas de pontuação pelos jurados, ainda mais impressionante pelo fato da maior nota possível a cada um ser 10, o que, apesar de certo estranhamento inicial, não obteve maior repercussão diante do espetáculo dos rodopios da jovem em questão.
Dá-se, então, que é preciso ter nas mangas não apenas abotoaduras mas, principalmente, uma receita. Simples que seja, como a obtida a duras penas por meu tataravô durante expedição às ilhas geladas da Rondívia, no século 18, e guardada debaixo de sete chaves no baú da memória da família e que será posta, na próxima quarta-feira, à disposição do mundo em nome da liberdade, da igualdade, da fraternidade e do bom andamento das relações entre os sexos e entre todos os povos

14/03/2008

07/03/2008

Minidicionário das Pequenas Grandes Coisas

Mulher: 1. fábrica de gente; 2. motivo da existência dos poetas; 3. melhor amiga dos sapatos; 4. indivíduo portador do sexto, do sétimo e do oitavo sentidos; 5. antônimo de fragilidade; 6. pequeno animal que se alimenta de sonhos; 7. melhor abrigo contra tempestades; 8. segundo a ciência, prova inequívoca da existência de um ser superior; 9. sinônimo de porto seguro; 10. o outro nome de alicerce; 11. maior ídolo das flores; 12. enigma que anda; 13. astro celeste que emite luz; 14. corporação internacional que domina o mundo, criada a partir de uma costela; 15. sorriso cercado de admiração por todos os lados; 16. inimiga mortal das bielas e rebimbocas; 17. inspiração de Graham Bell na invenção do telefone; 18. tribo caracterizada por pintar a boca de vermelho, camuflar freqüentemente os cabelos e guerrear valentemente sobre altos saltos; 19. talento na forma humana; 20. a mais adorável das coisas que ninguém entende. (Ex.: “Não é que eu seja menor, amor. É que você é mais, é que você é sonho, é que você é gesto, é que você é cor, é que você é pluma, é que você é céu. É que você é mulher, e isso basta para que seja mais.” - in Coisas de amor Largadas na Noite, A. Gonçalves).