16/03/2006

My Name is Bond

Quando eu era menino, tive um vizinho chamado André. Ficamos amigos. Mas ir à casa dele e pedir para que o chamassem era uma coisa muito estranha. Parecia que estava pedindo para chamarem a mim mesmo. Conversar com ele era engraçado.Toda vez que eu dizia o nome dele, imaginava que estava conversando com meu espelho e, volta e meia, nem lembrava mais do que ia dizer.Nunca gostei assim, por demais, do meu nome. Mas também nunca o achei ruim. Na verdade, não suporto é ser chamado de André Luiz. Na escola eu tinha calafrios por causa disso. Por favor, se você me encontrar na rua, não me chame de André Luiz, ou não me responsabilizo pelo que pode acontecer. Detesto André Luiz. Aliás, odeio nomes compostos. Com raras exceções. Tem gente que acha lindo. Rodrigo Ricardo. Otávio Roberto. Onofre Eduardo. Eu acho o fim. Parece coisa de novela mexicana. Pior só mesmo aqueles nomes enormes, cheios de sobrenomes. Supostamente, algo com ar aristocrático. Para mim, de uma breguice ímpar. Volta e meia meu nome aparece em um personagem na televisão. E sempre sobra pra mim. Já fui André Cajarana durante não sei quantos anos. Até hoje aparece algum engraçadinho metido a piadista que me chama de André Cajarana. Que eu nem lembro mais quem era, só que era um personagem do Tony Ramos. Eu acho. Agora, esse tal de André, de Belíssima. O sem-vergonha, safado e picareta que roubou tudo da Júlia. É, eu vejo novela também. Por quê, vai encarar? Pois bem... Agora, quase todo dia sou obrigado a ouvir as piadinhas: "Ah, André, mas não é igual ao da novela, né?". Um saco. Ainda mais que o cara, além de sacana, é mais feio do que eu. A fase não anda boa. Além de me chamar André e ser obrigado a ouvir esses gracejos sem graça, ainda sou publicitário, mineiro e careca. Aí, sempre tem outro engraçadinho que diz: "Mineiro, publicitário, careca... Sei, sei, igual ao Marcos Valério...".
No meu caso, ainda mais um agravante. Tenho o mesmo nome do ator da Globo, aquele, que quis dar um beijo no Pelé. Conhecido por, volta e meia, aparecer mal na fita por aí. Mais uma vez, as gracinhas. Enquanto tive um blog, dezenas, centenas de vezes, entrou gente lá e deixou comentários pensando que eu fosse ele. Teve gente que xingou, teve gente que elogiou, teve gente propondo casamento. Até uma macacas de auditório do fã-clube do rapaz andaram aparecendo, e dizendo que eu não devia usar o nome do talzinho para aparecer às custas dele. Pode, uma coisa dessas?De qualquer modo, não desgosto do meu nome. Se pudesse, tiraria o Luiz, e seria só André. Teve uma época em que eu queria me chamar Zé. Só Zé. Zé de nada. Zé. Mas passou. Hoje eu até gosto do nome que tenho. E mesmo do nome "artístico". André vem do grego, e significa "forte, viril". Isso deve ser bom. E deve haver um motivo para eu ter esse nome. Hoje entendo que há motivos para tudo nessa vida. Agora, eu só peço aos engraçadinhos de plantão que parem com essa chatice de fazer piada com o André da Júlia. E com o Marcos Valério. É muito chato.Mas, pensando bem, podia ser pior. Eu podia me chamar Bráulio.
Aí, era o fim da picada.

09/03/2006

Metendo o pé na lama

Pense num homem feio. Enfeie mais. Pense que ele tem vitiligo. Corte uns 15 centímetros das pernas dele. Coloque nele os dentes do Ronaldinho Gaúcho, o cabelo do Ronnie Von e o jeito de andar de um pingüim manco. Pronto. Esse era o Rossi.
Rossi era o técnico da gloriosa Portuguesa, time de várzea de Belo Horizonte onde, como já contei aqui, comecei e encerrei minha espetacular carreira de jogador de futebol, na adolescência. Outro dia, comecei a lembrar do Rossi e das aventuras que todo domingo ele nos fazia enfrentar para bater uma bolinha.
Rossi era detetive aposentado, se não me falha a memória. Não sei bem porque, mas se aposentou cedo. E, depois de perder um filho, morto por um traficante, resolveu fazer, no bairro dele, um time de futebol, para ajudar a meninada a ficar longe das drogas e sonhar com um futuro melhor. Cheguei à Portuguesa através de um amigo, um pouco mais velho do que eu, e que jogava no time adulto, mesmo tendo 17 anos. Eu tinha uns 15. Era um mundo completamente diferente do meu. Cheguei lá com minhas chuteiras novinhas, short importado e meiões branco-Omo, um dos mais de 10 que eu tinha. Rossi olhou pra mim de cima a baixo, balançou a cabeça e disse: "já jogou bola descalço, branquelinho?". Respondi que não, e ele disparou: "pois tire aí as meinhas que mamãe lavou e o sapatinho de princesa, e mete o pé na lama, pra criar uns calos". Esse era o Rossi. Em trinta segundos me situou naquele espaço novo, e me deu várias lições. Em duas frases. Passei mais de um ano jogando na Portuguesa, antes de me mudar para o Rio. E descobri que Rossi era um amigo, acima de tudo. Quase um pai. E meio herói. Ele mesmo lavava os uniformes da Portuguesa, camisas verdes que, de tão velhas, eram quase brancas. Depois de um tempo, me colocou pra jogar também no time adulto, mesmo sendo eu um menino. Me entregou a camisa 7, com um rasgo quilométrico debaixo do braço esquerdo, e deu a ordem: "entra sem medo. Se alguém machucar você, a gente cobre de porrada". Entrei, fiz um gol, e, como não podia deixar de ser, perdemos. Mas Rossi me abraçou no final e deu um sorriso enorme, sem uns três dentes da frente, repetindo "é isso aí, branco-azedo, é isso aí".
E, nesse clima de família, com as piadas sem graça do Rossi e a sensação de que éramos o maior time de futebol de todos os tempos, rodávamos a periferia de Belo Horizonte. Uma turma de meninos e rapazes, uns vinte, subindo e descendo morros, em campinhos no meio da favela, onde fosse. Rossi pagava as passagens de todos. E, depois de cada jogo, aparecia com um saco de laranjas, que a gente era obrigado a chupar. Dizia ele que laranja era melhor que água, para reidratar e repor os sais minerais. O resultado dos jogos não importava. O que valia era a confusão e a aventura. Mas, vendo a gente meio chateado por nunca ganhar de ninguém, ele dizia: "esquenta não, moçada. Semana que vem tem mais. O jogo que vocês têm que vencer de verdade fica fora do campo".
Rossi perdeu o jogo contra um câncer, e eu só soube disso muito, muito tempo depois. Mas deixou gravada em mim aquela primeira frase.
E, hoje, todos os dias, eu tento fazer o mesmo que fiz naquele primeiro dia: meter o pé na lama e criar mais calos. O Rossi era gênio, e eu nem sabia.

02/03/2006

O maior jogo de todos os milênios

Semana passada contei aqui algumas peripécias do meu passado. Parece que fez sucesso. Recebi vários e-mails: um com alguém dizendo não acreditar que eu já fui cabeludo, outro pedindo que eu suba novamente aos palcos pra desbancar Mick Jagger, outro criticando porque chamei nosso astronauta de tomate espacial. Pelo visto, falar sobre a gente dá ibope, mesmo. Bem, depois desse sucesso, resolvi escancarar e contar mais alguma coisa lá de trás da minha vida. E, olha, essa eu contei pra pouquíssimas pessoas. Que não acreditaram em uma só palavra, o que me fez resguardar ainda mais esse pedacinho heróico de minha existência. Mas aí vai.
Eu já joguei vôlei. Certo, sou um tampinha, mas joguei, numa época em que minha altura ainda era compatível com os demais da minha idade. Fui descoberto, e isso é um orgulho que trago comigo, pelo professor Adolfo Guilherme, que, bem antes de me descobrir, chegou a ser treinador da Seleção Brasileira Feminina. Jogando uma pelada nas quadras do Minas Tênis, em BH, seu Adolfo me viu, me chamou num canto e disparou: "Menino, você leva jeito. Quer treinar comigo"? Eu tinha 13, 14 anos. E foi aí mais de um ano com "seu" Adolfo, divertidíssimo, treinando e sonhando em crescer mais alguns centímetros e ser um novo William. Mas, peraí, essa não é a estória, é a introdução. Feita, aí vai o "causo".
Então, jogava vôlei. Mas acabou que fui morar no Rio de Janeiro. E fiz dupla de vôlei de praia com um amigo, o Ibinha. O Ibinha tinha um nome pomposo, aristocrático: Eduardo João Henrique Haas Gonçalves Júnior. Mas era duro, ferrado, e combinava mais com Ibinha, mesmo. Era meu amigo, colega de escola e dupla na praia. Inseparáveis. Éramos da mesma turma na oitava série. E, um dia, se na praia não ganhávamos de ninguém, tivemos nosso nome inscrito na galeria dos heróis mundiais do esporte, apesar de ninguém saber disso.
Nossa turma, a 802, chegou à final do torneio de vôlei da escola contra a 801. Eu de levantador, o Ibinha na entrada e o Zé Ricardo, que na época treinava no Fluminense, na saída de rede. Dos outros, confesso, não lembro. Mas o trio era quase imbatível. Só que, sabe-se lá porque, no dia da final nosso time não foi. Fomos só eu e Ibinha. Os dois e mais a torcida, o outro time, a diretoria da escola e meio mundo. Mas cadê o time? Íamos perder por WO. Mas, conversando com o professor de educação física e, no caso, juiz do jogo, ele permitiu que entrássemos em quadra, eu e Ibinha. Perder por WO era muito feio. Claro que todo mundo previa um massacre, mas entramos em quadra aplaudidíssimos pela iniciativa. Até que, dentro da quadra, eu e Ibinha começamos a dar um show. Ninguém acreditava. Eu e ele, sem reservas, sem mais ninguém, começamos perdendo o jogo, mas equilibramos ainda no primeiro set, que ganhamos de virada. A torcida, em êxtase, começou a gritar nosso nome. Pouco me importava, pelo menos a Carol gritava meu nome, e isso me bastava. A 801 mudou o time todo, entrou gente, saiu gente, e eu e Ibinha firmes, gigantes (eu nem tanto, mas entenda meu entusiasmo). A cada lance, um joelho esfolado, uma cabeça dolorida, mas ponto para a dupla da 802. Nós, claro. Que, acredite você ou não, ganhamos a partida. Eu e Ibinha derrotamos um time inteiro, com seis titulares e seis reservas. É verdade! Olha, to dizendo! Tenho centenas de testemunhas!
Tá bem, tá bem... Não precisa acreditar. Ninguém acredita mesmo. Mas vou procurar o Ibinha pela net e trago ele aqui pra você ver. Pode esperar.

10/02/2006

A Idade do Lobo

Envelhecer é bom. Pode parecer estranho alguém dizer isso, e são poucos os que já ouvi, mesmo, fazerem essa afirmação. Pelo contrário. Quase todo mundo diz que envelhecer é uma lástima. Uma praga. Um castigo. Pois acho esse tipo de visão de uma tolice constrangedora. Você aí, que tem seus vinte e poucos anos, cabelinho de príncipe chato de conto de fadas e quase nenhuma ruga nos olhos, pode acreditar. Envelhecer é bom. Mesmo. Está certo que o corpo já não responde a certos comandos cerebrais. E é evidente que isso incomoda um pouco. Aqui e ali um e outro desgaste nas peças vitais nos dão a certeza de que é impossível viver com tranqüilidade sem um bom plano de saúde, e que é bom pensar em fazer amizade na mesa de um bar com um geriatra, pra tentar algum privilégio na fila de espera. Mas, em compensação, a vida nos dá outras habilidades. Muitas, mais do que se pode imaginar. Aliás, falei em privilégio e fiz a conexão: acho, sinceramente, que envelhecer é um privilégio. Um privilégio que é dado a todos, indistintamente, no momento da concepção. A vida, em si, é envelhecer. No segundo milésimo de segundo depois de concebidos já somos mais velhos do que antes. E isso não pára. O problema, portanto, já que todos somos envelhecedores contumazes durante toda a vida, não parece estar no “envelhecer”. É bem provável que esteja no não compreender o que pode se tornar esse envelhecer.Não sei os outros. Mas, para mim, é gostoso sentir que, se na parte externa de minha cabeça tem alguns fios de cabelo a menos, na parte interna existe, todo dia, um pouco mais de compreensão das coisas, do mundo, das pessoas. Hoje, sou capaz de saber muito mais do que se passa com alguém apenas olhando nos olhos desse alguém e buscando no meu arquivo pessoal da memória coisas, fatos e sensações, do que saberia 20 anos atrás lendo milhares de relatórios ou ouvindo horas de explicações. Isso não tem preço, e isso só vem com o tempo, e esse é um prazer que não se tem aos 20 anos. O prazer de ler o que está por trás das palavras, de ver o que está atrás do visível, de ouvir o que está por trás do que se escuta. Sem fazer força. Sem agonias, nem angústias, nem pressas, nem aflições. Apenas, sabendo o que é e o que não é. E optando: acredito, finjo acreditar ou dane-se? Gosto, finjo gostar, ou dane-se? Envelhecer é saber, na maioria das vezes, as opções que se tem, e optar pela que se quer. Sem medo de ser feliz.Todos os dias venho aprendendo a ter um pouco mais de paciência com a vida, com quem me cerca. Com as coisas que são imutáveis, imexíveis, imprevisíveis. E tendo menos paciência com as coisas e gentes fúteis, fugazes, ilusórias, falsas. Envelhecer é saber que a vida é uma grande incerteza atrás de outra grande incerteza, e que só duas certezas podem ser tidas como absolutas: uma, que a gente envelhece. Outra, que a gente morre. Nem mesmo nascer é uma certeza, já que há quem não nasça. Mas não há quem não envelheça. Nem quem não se vá. É bom pensar nisso.

03/02/2006

Chocolate, dedos dos pés e alguma verdade

Essa semana fiz uma coisa que gosto de fazer desde criança: comi leite condensado com chocolate em pó. É assim que se faz: três quartos de xícara de leite condensado, 4 colheres (de chá) cheias de chocolate. Misture bem. É preciso mexer com certa velocidade, e é preciso fazer o barulhinho da colher na xícara. Mas não se pode deixar dissolver muito o chocolate: o bom são os carocinhos que ficam fazendo cócegas na língua. Explico, já que amadores podem começar a repetir essa situação e não achar graça nenhuma, pela inexperiência. É que é errado encher a colher e colocá-la na boca. Para sentir os carocinhos de chocolate que se formam coçarem a língua e explodirem dentro da gente, é preciso mergulhar a colher na pasta de chocolate e lambê-la aos poucos. Devagar. Aproveitando cada lambida como se fosse a última. Com carinho, com desejo e com calma. Como quem lambe os dedos dos pés da mulher amada. Ou, no caso das senhoras, como gostariam de ter seus dedos lambidos. Desculpem, talvez a expressão tenha sido forte. É que ambas as lambidas são, mesmo, pequenos gigantescos prazeres, que despertam sensações muito parecidas entre os iniciados. Se nunca fez, experimente. Ambas.Engraçado como os maiores prazeres da vida são os pequenos. Lamber a colher de chocolate, colocar um filho no colo em uma festa de aniversário, roçar o pé do ser amado por baixo dos lençóis, receber uma mensagem carinhosa pelo celular no meio da tarde, tomar sorvete de flocos num começo de noite qualquer, sentir o cheiro da chuva, vestir a camisa do time quando ele é campeão. Coisas banais, quase fugazes, quase imperceptíveis. É que estamos acostumados a acreditar que a vida é muito mais do que isso. E não é. A vida, de verdade, não é a viagem de navio pelas ilhas gregas. Essa parte pode ser boa, mas é apenas uma pequena amostra do quanto estar em casa, estar com os seus, deitar no seu colchão, sentir o cheiro do seu quarto, é bom. A vida não é andar de Ferrari. Andar de Ferrari é um pequeno luxo dispensável. A vida é chegar aonde se está indo. E é possível chegar de Ferrari ou de Fusca. A sensação da chegada é a verdade da vida, não a sensação da ida. A chegada sim, é indispensável.Tem gente que está com tudo na mão, e não percebe. Tem gente que acha que a felicidade está um pouco mais além, e tropeça todo o dia na felicidade, e chuta a felicidade, só porque ela não é completa como as novelas e os filmes nos fazem crer. Tem gente que abre mão da vida, tem gente que abre mão de um grande amor, tem gente que abre mão da felicidade, em nome de conveniências, de pressões sociais, em nome de distâncias criadas pela própria consciência. Tem gente que abre mão de seus pequenos prazeres cotidianos, acreditando que mais dinheiro, mais poder, mais alguma coisa, podem dar mais prazer. Tolice. Isso, sim, é pensar pequeno. Pensar pequeno a respeito do que se é, do que a vida é feita, do que o mundo quer de nós.
Eu não abro mão de pensar grande a respeito da vida. E pensar grande a respeito da vida é querer pouco dela. Quero só que ela me dê de volta o que dou a ela. E venho tentando dar mais a cada dia. Ser mais honesto, mais sincero, mais tranqüilo, mais verdadeiro. Meu mais novo barato é a Verdade. É o meu mais novo fetiche.
Agora, vou lamber a Verdade como quem lambe os dedos dos pés da mulher amada. Como nunca fiz antes. Como faço com minha colher de chocolate.

20/01/2006

Pensamento Rápido Sobre a Pressa

Nos últimos meses uma pequena paranóia tem me tirado a tranqüilidade. E a culpada fica bem aqui, ao lado, pertinho da minha coluna. É a coluna do Professor José Maria, Escorregões no Português. Sem perdão e com a maior educação e pertinência, o professor vem apontando erros gramaticais, de concordância e assassinatos à língua portuguesa que acontecem aos montes por aí, especialmente nos jornais. Daí, a minha paranoiazinha. Morro de medo de levar um tombo ao tropeçar numa crase jogada a esmo no meio do texto e cair de cara ou, pior, com minhas partes carnudas e globosas, na coluna simpática e absolutamente necessária do professor José Maria. Apesar disso, daqui, professor, digo que esteja à vontade. Mas o fato é que na semana passada, mesmo, eu cometi alguns erros. Não vou dizer aqui quais, mas sei que estão lá. Que medo. Aliás, um eu digo: coloquei duas vezes a palavra "particularmente" no mesmo texto. Imperdoável. Não, não foi questão de estilo. Foi a pressa, mesmo. E, assim, finalmente entro no assunto: a pressa.
Como todos andam apressados nesse mundo, que coisa! Nunca se teve tanta, tanta necessidade de se fazer tudo tão depressa. É pressa para escrever coluna, é pressa para fechar o jornal, é pressa para estudar, é pressa no trânsito. Acredito piamente que o maior mal do mundo, hoje, é a pressa. Que, todos sabem, é a inimiga da perfeição, e blá, blá, blá... Em nome dessa pressa, os carros são cada vez mais rápidos e os acidentes cada vez mais constantes e violentos. Em nome dessa pressa, as meninas são menos meninas, os meninos menos meninos. As relações, tão apressadas, estão cada vez mais fugazes: conhece-se, namora-se, casa-se, briga-se e divorcia-se em uma noite ou, em casos ainda mais apressados, numa manhã. Acontece tudo de uma vez. Todo trabalho é para ontem. Toda música de semana passada é flash-back. Poemas de dois anos atrás são fósseis encontrados na Serra da Capivara por Niéde Guidon. Computadores com seis meses de uso são obsoletos. Cursos superiores são feitos em dois anos. Tudo, absolutamente tudo, tem de ser fast (uma palavra da língua portuguesa moderna): almoço fast, carreiras profissionais fast, pensamentos fast, convicções fast. Governos começam para durar quatro anos e, apressados para garantir que se tornem oito, trabalham dois e discutem eleições durante dois. A Internet tem de ser rápida, Schumacher é melhor que Barrichello, técnicos de futebol devem operar milagres em três meses, o sinal de trânsito deve ficar verde cinco segundos mais cedo, o motorista do ônibus tem comichão no dedo e coça na buzina. Cartas, alguém ainda escreve? Meu avô, que morreu em novembro, foi a única pessoa, desde a minha infância, que me escreveu cartas. Agora, tudo precisa ter a velocidade do e-mail ou, senão, é arcaico, chato e absurdamente irritante. Até a música para dançar. Se não for eletrônica ou tiver um andamento de marcha de carnaval, é canção de ninar.
E o mundo? Ah, o mundo está aí. Cada vez mais rápido, cada vez mais veloz, cada vez mais frio, cada vez mais injusto. Porque as injustiças avançam na mesma velocidade que a pressa nos separa do outro. A cada dia, mais rapidamente esquecemos que viver não é uma corrida de 100 metros. Que muita coisa precisa de mais cuidado, atenção, carinho, respeito. De tempo para existir e acontecer. De atenção. E que a pressa, repetindo, inimiga da perfeição, vem, cada vez mais apressadamente, ocupando um espaço que não devia: o coração das gentes de todo lugar. Vai ver, então, que é por isso que somos cada vez mais imperfeitos: somos, cada vez mais, mais apressados. Até onde isso vai nos levar?

13/01/2006

E você, não dá sua espiadinha?

Particularmente, acho genial a idéia do Big Brother. Essa coisa de podermos ver como se comporta um grupo de pessoas confinadas em uma casa, com suas diferenças, identidades, manias e desvios de caráter é algo absolutamente interessante. Porque isso de bisbilhotar a vida dos outros parece estar no nosso código genético. Desde que o mundo é mundo somos voyeurs da vida alheia. De certa forma, somos resultado das fofocas e das bisbilhotices que, durante anos, sofremos e fazemos em relação a tudo que nos cerca. É o que vemos nos outros e o que vêem e percebem e falam de nós que molda quem somos. Todo mundo é xereta de nascença. Hoje, onde qualquer um pode expor suas vidas em blogs, flogs, sexlogs e orkuts, e pode divulgar publicamente suas dores e amores com auxílio de câmeras digitais de 200 reais, parece que o ser humano assume definitivamente: somos, todos, indistintamente, futriqueiros, enxeridos e penetras da intimidade do vizinho. Esteja ele do outro lado do muro ou do lado de lá do planeta. E, por mais que aqui e ali digamos que não, somos, sim, exibicionistas, e adoramos quando nos tornamos alvo de olhares, comentários e algum tipo de futrica. Uma coisa meio "falem mal, mas falem de mim".
O que me incomoda no BBB é esse algo de manipulação um tanto quanto descarada e tola dos personagens. Nesse grupo de quatorze pessoas que se permite a visibilidade de suas neuras, o que temos? Pelo menos doze que formam, digamos, um grupo quase homogêneo. Gente com cara parecida, corpos quase idênticos, padrão comportamental muito aproximado, cérebros trabalhados em linha de montagem, exibicionistas, pseudomodelos alpinistas em busca de capas da Playboy e um ex-monge que, aparentemente, pretende ser o próximo Jean. E, desde quinta-feira, dois legítimos representantes, aí sim, da média do povo brasileiro: uma baiana com falhas na dentadura superior e um carioca baixinho e rechonchudo, o Danny de Vito da Pavuna. Particularmente, preferia que o BBB fosse todo feito com gente sorteada aleatoriamente. Nada contra as bundas redondinhas e as barrigas de tanquinho, até porque, no sorteio, elas poderiam estar lá. Mas o grande barato desse negócio é justamente a contradição, a briga por pontos de vista completamente opostos. Os romancezinhos pré-fabricados para atender pesquisas matam o principal elemento que poderia fazer, do BBB, algo mais que um entretenimento e, quem sabe, desculpe a pretensão, mostrar em rede nacional quem somos de verdade: a diversidade. Onde estão os gordos, os idosos, os analfabetos, os desdentados? Porque não um BBB de cada estado? Porque não um desses intelectuais chatíssimos para papos-cabeça com as modeletes burrinhas sobre Sartre, caindo depois para a importância da chapinha no mundo contemporâneo? Será que é pré-requisito a capacidade de dar gritinhos ridículos por qualquer coisa e desfilar o dia inteiro de biquíni e sunguinha "mamãe-sou-playboy-e-adoro-pitbull"? Adorei o Danny de Vito da Pavuna ter esculhambado a primeira prova do BBB, deixando o Pedro Bial com cara de tacho. Achei ótima a baiana com corpinho de dona de casa bonachona e sorriso falho. Pode ser que a gente consiga ver, além de glúteos bonitinhos e bíceps definidos, um pouco mais de naturalidade, de alegria espontânea, de angústias verdadeiras, de gente verdadeiramente comum. E, agora, dá um tempinho, que vou ali dar uma bisbilhotada.

06/01/2006

O Espectador Fiel

Assumo que sou um péssimo crítico de cinema. Reconheço. Mas isso me dá uma certa liberdade: a de elogiar, criticar ou ser desprezivelmente indiferente a qualquer filme sem receio dos policiamentos de uma certa "inteligentzia vigilantti", que insiste em se autoproclamar acima de qualquer suspeita de debilidade intelecto-cultural. Assim, livre de qualquer amarra pseudo-genial, digo o que senti na frente da telona. Isso me dá a liberdade, por exemplo, de dizer que acho Matrix de uma chatice sem tamanho, com aquele figurino black-kitsch e aqueles tons de verde beirando o insuportável. E de, inclusive, assumir que chorei assistindo "Os Dois Filhos de Francisco". Sim, chorei mesmo, e daí? Ele foi feito pra isso, a história é bonita e, apesar de toda a antipatia que nutro por duplas cantando escaramuças de amor de forma esganiçada, simpatizei com o filme. Claro, isso não me dá a mínima vontade de assisti-lo outra vez. Certas experiências só nos podemos permitir uma vez na vida. E está de bom tamanho ouvir "É O Amor" na voz de Maria Bethânia apenas uma vez. Tudo bem que o Brasil é brega, que as elites são bregas, que a Globo é brega, e que a gente tem mesmo de assumir a breguice latente no DNA brasileiro de vez em quando. Mas até mesmo isso tem limite. E o meu chegou nos letreiros finais e nos olhos úmidos. Acabou. Parabéns à dupla, e coisa e tal. Mas, Oscar? Convenhamos...
Agora, "O Jardineiro Fiel" é outra coisa. De encher, literalmente, os olhos. Fernando Meirelles mostra que Cidade de Deus não foi um acidente de percurso. Apesar de certos maneirismos de Meirelles e seu diretor de fotografia, César Charlone, como as cores saturadas, as cenas de miséria travestida de alegria e poesia e, até, da galinha corredeira recorrente, o filme tem uma beleza e uma dinâmica que marcam um ponto importante na consolidação de um novo jeito brasileiro de fazer cinema, que ultrapassa a velha barreira boba do idioma e rompe, de vez, a sina do improviso. Meirelles teve a sorte (ou a capacidade) de contar com Ralph Fiennes atuando de forma convincente e com Rachel Weisz transbordando na tela uma forma de sensualidade impensável no cinema tupiniquim: a sensualidade vestida, ainda estranha no país onde bundas requebrantes são sinônimos e padrão de beleza. Rachel Weisz, ou a sua personagem, Tessa, ilumina a tela com um sorriso simples e encantador, e com a indignação perdida por nós em meio às tantas pauladas que o mau e velho capitalismo nos dão todos os dias, em todas as partes do mundo.
O Jardineiro Fiel é uma festa para os olhos e um tapa na cara de nossas certezas. E é, e muito, uma história de amor, enrolada no lençol do suspense que esconde o principal elemento do filme, na minha modesta opinião: até que ponto você conhece quem você ama? Até onde você confia, acredita, admira e é capaz de mover o mundo pelo seu amor? O fim do filme é uma aula de sutileza e de, porque não, uma metáfora da verdadeira e definitiva entrega a quem se ama. Um fim que começa a surgir em uma frase, solta, pouco percebida no meio do filme, dita por Ralph Fiennes: "Tessa era minha casa".
Soberbo. Só vendo. Eu vou ver de novo. Meirelles merece. A gente merece.

01/09/2005

Sobre Pizzas

O brasileiro é viciado em pizza. Estima-se que só em São Paulo sejam servidas um milhão de pizzas por dia. Aproximadamente 45.833 por hora. Cerca de 784 por minuto. Uma dúzia por segundo. Isso, acredite, apenas em São Paulo. Não há dados oficiais sobre o número de pizzas em todo o Brasil. Mas, o que se sabe, é que brasileiro adora uma pizza. Tanto que, aqui, existe o Dia da Pizza: 10 de julho. Dizem que no Brasil tudo acaba em pizza. Dizem, também, que essa expressão surgiu em 1950, quando dirigentes do Palmeiras quase foram aos tapas em uma discussão e fizeram as pazes indo à pizzaria. Tutti buonna gente. Pode ser lenda. Convenhamos, bem saborosa. Echo.
Segundo historiadores, a pizza surgiu há cerca de seis mil anos. Ao contrário do que se imagina, não foi na Itália. Foi no Egito. Não creio. Assisti Cleópatra várias vezes e não lembro de Elizabeth Taylor comendo pizza. Outros afirmam que ela surgiu na Grécia, e era feita com massa à base de farinha de trigo e grão-de-bico. Há quem jure que Platão teria escrito a Politeía com a boca cheia de pizza de mussarela, mas há controvérsias. Escavações em Atenas levam muita a gente a desconfiar que o arremesso de disco, modalidade olímpica, surgiu nessa época, quando era comum se arremessarem pizzas ruins no Mar Egeu. Pois bem. Da Grécia, a pizza teria invadido a Etrúria, na Itália, e caído no gosto popular. Mas era servida dobrada, como um sanduíche. Supõe-se que não tenha dado muito certo, talvez pela inexistência de guardanapos de papel nessa época. No século XVII, em Nápoles, a pizza começa a se aproximar da que conhecemos hoje quando os espanhóis descobriram que tomate serve para comer e não apenas para jogar nos outros. Essa pizza rudimentar ainda era retangular, apesar de já contar com azeite, alho, mussarela. Em 1830, foi inaugurada a primeira pizzaria do mundo: a Port’Alba, lá mesmo, em Nápoles, que reunia a intelectualidade napolitana, entre eles poetas, escritores e pintores. Um certo Dom Rafaello Espósito criou a Margherita, em homenagem à rainha Margherita de Sabóia, mulher de Umberto I, e aí a coisa complicou. Misturaram tudo, e colocaram a politicagem como ingrediente. Depois, na Segunda Guerra Mundial, os americanos cismaram de aprender a fazer pizza e, é claro, com a delicadeza que lhes é peculiar, avacalharam tudo. Ensinaram o mundo a colocar catchup e maionese na pizza, inventaram o fast-food e a borda de catupiry. E, claro, a beber Coca-Cola, pra descer pela garganta da gente essa gororoba. O fato é que brasileiro é viciado em pizza. Isso tem causado alguns problemas a nossa gente. Veja, por exemplo, o caso da Velhinha de Taubaté. Uma fonte minha, que prefere não ser revelada, informa que a polícia desvendou o segredo de sua morte. Não foi por se ver traída por alguém em quem ainda acreditava. Sua autópsia revelou sufocamento por pizza. Uma caixa de papelão ao lado do telefone confirma essa suspeita: Pizzaria Brasil. Na etiqueta, o sabor da pizza: buchada.

04/08/2005

O Presidente Pé-Torto

A visita de Lula ao Piauí trouxe muitas certezas. Uma delas é a de que Lula é um perna-de-pau. As peladas na Granja do Torto devem ser deprimentes. Lula tem o pé torto, o que deve dar novo sentido ao nome da tal "granja". Granja do Pé-Torto. Ao inaugurar um ginásio em Teresina, Lula chutou uma bola ao gol. Sem goleiro. Para fora. Cinco metros de distância. Errou. Lula parece que não acerta uma. Lula disse, em Teresina, que quem errou, seja amigo ou inimigo, de seu partido ou de outro partido, rico ou pobre, preto ou branco, vai ter de pagar pelos seus erros. Lula vai ter de pagar pelos seus-dele erros. Já está pagando. Lula errou e continua errando. Lula critica as elites. Diz que as elites estão contra ele. Mas Lula só foi eleito porque beijou as mãos dos representantes das elites. Sarney a tiracolo. Maluf embaixo da mesa. Alencar à direita, na cadeira mais baixa. Lula se abraçou aos eternos comensais do capital e cuspiu no rosto de companheiros de todas as horas. Lula passou dois anos e meio tentando ser estadista. Foram dois anos e meio de viagens mundo afora. Até o Sucatão abriu o bico. Lula errou. Esqueceu de governar. Deixou o governo nas mãos ou, pelo visto, nos bolsos de José Dirceu, o Não Arrogante. Talvez seja por isso que ele, Lula, não sabe de nada. Agora, Lula volta a viajar. Só que faz a viagem em direção ao povo. Tenta voltar a sentir cheiro de povo. Pode ser tarde. Lula erra de novo. Assume postura populista, de presidente de republiqueta. Um Chavez de Garanhuns. Uma Evita Perón de barba e tatibitate. Caso não se lembre, Collor fez o mesmo. "Não me deixem só". "Saiam às ruas de amarelo". Deu no que deu. Agora tudo é comício. Com claque vestida de vermelho e aplaudindo erro de concordância. Protestos? Um quarteirão para lá, por favor. Se for conselho de Duda Mendonça, peguem de volta os tais 15 milhões. Distribuam nos próximos comícios de Lula. Porque Duda, o publicitário das musiquinhas, perdeu a mão. Todo filme é musiquinha. Acabou a graça. Chega de campanha com musiquinha. Agora é soco na mesa. Não soco na imprensa. A crise detonada por Bob Laden subiu a rampa do Planalto, e está batendo à porta do Gabinete Presidencial. Lula se agarra à Economia. Para ele, é um trunfo. Mas Lula segue a cartilha mais ortodoxa do neoliberalismo, o ideal tucano. A que privilegia as elites. As mesmas que, até agora, dão sustentação a seu governo e aplaudem a política econômica, a mesma que vai gerar um crescimento do PIB em 3%. Abaixo do crescimento do PIB da Bolívia. Igual ao do Paraguai. Lula erra ao se refugiar em meio ao povo. O povo quer Lula em Brasília. No olho do furacão. Sentado à mesa de trabalho. Gritando ao telefone com assessores, procuradores ou outros "ores" que sejam. Cobrando verdades, punições, esclarecimentos e vergonha na cara. Sendo o velho Lula. Aquele, em quem o povo votou. Não esse aí, que se esconde embaixo da saia do discurso pseudo-improvisado e se alimenta das palmas dos famintos. Não esse Lula que dá entrevistas esdrúxulas em Paris. Não é hora de começar um confronto de classes. De ricos contra pobres. De elites exploradoras contra descamisados explorados. Isso não cola mais. Chega de bola fora. Já basta de bobagem.