09/11/2009

Ângela Diniz levou quatro tiros em 30 de dezembro de 1976. Seu crime: ser bonita, desejada, sentir desejo, expressar desejo, ir contra a moral vigente, ser “a Pantera de Minas”. Doca Street disparou quatro tiros na imoral que pediu a ele que fosse embora, que a deixasse viver a vida da maneira que quisesse. E que morreu porque queria ser livre. Doca Street foi inocentado, em 1979, e saiu aplaudido do fórum. Sua defesa, um clássico: “legítima defesa da honra”. Desancando Ângela Diniz, afirmando que ela era uma mulher que “vivia na horizontal”, Evandro Lins e Silva, advogado de Doca Street, convenceu o júri de que Ângela Diniz “pediu” para ser assassinada. A vítima, mulher, linda, sensual, vivia de modo incompatível com a “moral e os bons costumes”, e isso legitimou o ato de Doca Street. Que defendia a honra, a moral, paladino do comportamento “natural” do homem. Menos mal que, dois anos depois, por pressão dos movimentos feministas, das esquerdas e dos “rebeldes imorais”, o mesmo Doca Street voltou a julgamento e foi condenado a 15 anos de prisão.
Mas assusta estarmos em 2009 e uma moça ser expulsa de uma Universidade por atentar contra a “moral e os bons costumes”. Assusta perceber que alunos, universitários, jovens, possam ter cercado uma mulher de minissaia, minivestido ou o que seja, e chamá-la de “puta”. E assusta ainda mais ouvir e ler os “manifestantes” afirmando que foi ela “quem pediu”.
Como assim, “ela pediu”? Como assim, usava roupa curta demais? Como assim, levantou o vestido? Estratégia antiga, das mais torpes, machistas, fascistas, inaceitáveis: transformar a vítima em réu. Desabonar a conduta da vítima para justificar um crime. Transformar um crime em inevitável defesa da ordem e dos bons costumes. Desde quando uma turba de universitários chamando uma mulher de vinte anos de “puta” é defender a instituição Universidade? Qual é a régua que mede o tamanho da moral? A moral está cinco centímetros abaixo do joelho? Ou três centímetros acima do umbigo? Quem vai punir os verdadeiros agressores, os que agrediram verbalmente Geisy, a humilharam e transformaram seu vestido cor de rosa em escândalo nacional, no país da Mulher-Melancia? Como assim, foi expulsa porque era preciso manter a “honra” da Universidade?
Ângela Diniz está morta. E dá medo perceber que, trinta anos depois, quem acreditava que ela mereceu morrer “porque pediu” continua vivo, e espalhando sua imbecilidade em um dos lugares que mais exigem liberdade, debate, respeito, divergência, convergência, tolerância: a Universidade. Isso explica porque tantas Ângelas anônimas continuam sendo mortas e agredidas Brasil afora. Outras deverão vir por aí. Em nome da moral e dos bons costumes. Na legítima defesa da honra.
Sim, dá muito medo. E vergonha.

Update: vale ler o que Lola escreveu sobre a suspensão da expulsão e a manifestação de hoje.

8 comentários:

lola aronovich disse...

Bom vc ter levantado essa ligação com a Angela Diniz, porque a gente acha que mudou tanto de 79 pra cá. E acho que mudou. Hoje não se fala mais em "legítima defesa da honra". Imagino (quero acreditar) que nenhum aluno que fez parte da turba que cercou Geisy pense que ela merece morrer "pelo que fez", seja lá o que for. Mas se ela fosse estuprada, sem dúvida a maior parte diria que ela mereceu, ela pediu. É um retrocesso muito grande. Não consigo imaginar algo do tipo acontecendo quando eu era adolescente (anos 80).

Alline disse...

De novo eu digo: tempos de barbárie estes. E não só por isso. Olhe ao redor. Caos. Desconfiança, individualismo extremo, raiva, morte por nada, e impunidade, injustiça, falta de educação, de consciência, de ética, de gentileza, de tudo. Sim, sim, dá muito medo. E vergonha.

Haline disse...

Oie, vim conhecer seu blog pq vi na Mary W. O mais louco disso tudo é que a tal reação dos alunos poderia ter sido habilmente usada pra exemplificar como o machismo ainda é enraizado e tals. Mas não, a direção da universidade preferiu expulsá-la.

Maritza disse...

Obrigada pelo esse texto.
Adorei.

Nine de Azevedo disse...

OI, passei aqui por indicaçao da Susanna do Topografias ...muito bem lembrado o caso citado.Tb me lembrou um livro antigo :"A letra escarlate" de Nathaniel Hawthorne.Ela é a Hester dos tempos " modernos"...abs

Maritza disse...

Opa, errei.
Obrigada de qualquer forma.
Beijos.

Karina disse...

O problema do mundo é que ele dá voltas, e voltas, e voltas... Mas cai sempre no mesmo lugar.

Saudade de vir aqui... Adoro ler você.
Beijo!

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

É isso aí! Aplaudo.