03/03/2009


Pelé disse uma vez que desde criança dormia com a bola. Abraçado, agarrado, beijando, cheirando a bola. A bola suja de lama. E não só ele. Ele e tantos outros. É quase uma unanimidade entre os craques que tratar a bola como “você” é o segredo do negócio. Intimidade com a redonda. Saber a reação da bola a cada tipo de toque. O efeito com a chapa do pé. O efeito em um chute de trivela. A hora de dar um bicudão. Como matar o esférico no peito, deixá-lo escorrer pelo corpo e bater de primeira no ângulo. Isso não se aprende de uma hora pra outra. É fruto da intimidade. Leva tempo. É resultado de anos de companheirismo. É simbiose. É vivência a dois. O craque e a bola.
Agora imagine que você é técnico da Seleção Brasileira. Talvez o Dunga. O exemplo caberia bem no Dunga. Aí você é o Dunga, e tem no time um monte de craques. Ou de jovens promessas. A Copa do Mundo é daqui a dois anos. Pensou? Tá.
Aí você chega pra turma no treino e diz: “olha, pessoal, a partir de hoje vocês só usam a bola uma hora por dia. Sabe como é, bola distrai. Vamos cuidar da tática, fazer musculação. Conversar com os repórteres. Essa coisa de bola não leva a lugar nenhum”.
É isso. É isso que estão fazendo em um monte de agências de publicidade. Tirando a bola do treinamento às vésperas da Copa. A morte do talento. O fim do craque.
Então, alguém pode me explicar porque agências de propaganda estão bloqueando o acesso ao MSN, ao Orkut, limitando o acesso à internet e seus blogs, flogs, facebooks e etceteras? Alguém pode dar um argumento minimamente razoável para proibir esse pessoal que devia ser a “vanguarda da comunicação” de bater bola todo dia com esse negocinho maluco e que muda todo dia, opa, já mudou, que a gente ainda chama de internet? Será que não entenderam que não se “aprende” a usar a internet e, sim, que se “usa” a internet para se comunicar? Ainda não viram o que está acontecendo, e estão aí, com a desculpa esfarrapada de “produtividade” e “foco” e “horas trabalhadas” para esconder que eles não estão entendendo coisa nenhuma? Que eles não sabem como criar uma empresa legal, e nem compromisso de seus funcionários, e ainda estão no meio da Revolução Industrial e seus métodos de mecanização humana?
Não se perde o foco no trabalho usando MSN. Quem “perde o foco” usando o MSN perderia “o foco” na sala do cafezinho, na saia da secretária, no espelho do banheiro, no cigarro na janela. Quem não produz por estar vendo vídeos no You Tube não produziria nada porque ia conversar sobre a balada com o loirinho do segundo andar. Claro, arautos do obtuso, não estou falando de médicos em sala de cirurgia, nem de pilotos de avião em hora de serviço, nem de motoboy acessando site de mulher pelada em cima da moto. Não sejam estúpidos. Óbvio que isso é outra coisa. Estamos falando de comunicação. Dessa coisa que agencias de publicidade, propaganda ou sei lá como chamá-las hoje, deveriam fazer. E que muitas não sabem mais como fazer, e a maioria nem vai descobrir como é que se comunicará com o “público-alvo” em quatro ou cinco anos. Aliás, público-alvo o caramba: hoje, é público-dardo. Ele atira na gente.
Estamos falando de compreender as novas possibilidades que essa coisa que ainda chamamos de internet nos dá. Ainda não temos intimidade com ela. Ainda não sabemos quem ela é, quem ela pode ser, e o que vai ser semana que vem. Não sabemos direito como matar a internet no peito e colocar no ângulo. Como rolar a bola nesse tapete virtual e deixar o cliente na cara do gol. Então, vamos treinar. Vamos deixar os craques descobrirem os segredos. Vamos deixar os craques dormirem com essa bola, trabalharem com ela, rolarem na grama com ela. Chega de musculação, e vamos pro desenvolvimento do talento. Os pernas de pau também vão se beneficiar, pode ter certeza. Entendam isso, queridos. Vamos voltar a ser vanguarda. Vamos ser criativos, outra vez. Faz tempo que a gente não é. E tem gente sendo em nosso lugar. Vamos tirar a bunda da cadeira e a cabeça do século XX. O futuro foi ontem, companheiro.
Hoje, já é amanhã.

6 comentários:

oseguinte disse...

eu voto em andré gonçalves nas próximas eleições.

Arraes disse...

Eu, como profissional, não vejo a menor necessidade dessa forma de bloqueio. Isso intimida, limita... E mais: um patrão que não confia na capacidade de concentração e produtividade dos funcionários, não pode ter capacidade de administrar uma agência de publicidade - lugar onde nada tem limites - a começar pela a imaginação e para quem contribui com ela.

MARIANA ARRAES - REDATORA PUBLICITÁRIA [na maioria das vezes, com muito orgulho!]

Léo disse...

deixa eu trabaiar na tua agência, pelé?

Gabriel Sampaio disse...

Pros caciques da publicidade que limitam o uso de Internet, bom mesmo é manter contatos profissionais por sinal de fumaça!

matheus emerito disse...

Muito bom o texto, muito bom mesmo! "Tentar fazer" comunicação sem explorá-la é realmente estúpido. abs

Intervalo - por Gabriel Costa disse...

Por um momento vi meu dia a dia retratado nesse texto. Não trabalho em agência mas se encaixa muito bem, acho até que na vida de todos que trabalham com internet, seja ele o motoboy que vê site pornô ou o estressadinho tentando mandar um arquivo com mais de 10mb. Esse tipo de atitude das empresas, só nos priva cada vez mais, dificultando pesquisas, inspirações, testes, velocidade...etc. Essas formas de comunicação instantaneas, além de nos ajudar em uma comunicação mais rápida, também quebra a chatisse dos escritórios, diminuindo o estress e nos distraindo dos problemas.