06/10/2008

post pós-eleitoral

Devo ser uma das três ou quatro pessoas no mundo que ainda acreditam que conceitos como "esquerda" e "direita" não desabaram definitivamente, nem morreram soterrados por toneladas de pragmatismo, de fanfarronismo pseudo-canhoto latinoamericano e de desastres políticos euroorientais em geral. Gosto de pensar que a direita está só fantasiada de cordeiro e bem fantasiada, apesar dos caninos salientes que escapam por baixo da fantasia, e que a esquerda tirou um longo cochilo, mas vai acordar qualquer dia desses e perguntar “cadê o pedaço de bolo que eu guardei na geladeira, porra?”, e dar um tapa na mesa e exigir um bolo novo, mais gostoso e com fatias iguais pra todo mundo. Daí ficar muito incomodado com certas leituras lenientes dos fatos, especialmente os sociais e os políticos. Aqui, mesmo. Dizer, por exemplo, que nossa Câmara Municipal foi renovada é mais uma demonstração de preguiça mental do que de conhecimento além do matemático. Porque a conta que fazem é: 12 vereadores saíram, 12 vereadores entraram. Ora. Mas se você olhar os nomes, vê que ali não mudou nada. Só os nomes. O projeto continua lá. Idem ibidem. Porque saiu um, entrou a mulher de outro. Saiu outro, entrou sobrinho de outroutro. Saiu outroutro, voltou aqueloutro. Renovação aonde, hã? Sim, TALVEZ (e olhe o tamanho do “talvez”) tenha lá um realmente renovador. Who knows? E o discurso do “possibilismo” não encontra resposta à altura dos que deveriam brigar eternamente pela Utopia Necessária. Parece mesmo que a esquerda segue dormindo e não faz “a mais puta idéia do mundo em que estamos” (ei, isso foi Saramago, hein?). O “possibilismo” é o mal do milênio. Politicamente falando. Porque quem pensa no impossível virou folclore. E, convenhamos, a maioria dos que pensam no impossível insiste em ser folclórico. Aí, desmonta o argumento e vira deboche. Porque a máquina “possibilista” desacredita o discurso com competência e desfile de números. Claro, números para comprovar a sua tese possibilista. Tipo "não dá para fazer 100% disso, porque fizemos 65,89% daquilo". E eles estão com o giz e o quadro negro, portanto, quem contestar há de? E, como você sabe, números são frios e incontestáveis. Eu não acredito em números, pero que los hay, los hay. O mundo anda acreditando em números. E quando esse número chega a 70% e vence uma eleição de véspera, as outras pessoas quase se sentem OBRIGADAS a acreditar. Enquanto isso, o menor número conhecido por quem está do outro lado é o “todo mundo”. Mas o “todo mundo” anda em baixa, coitado. "Todo mundo" tem direitos, mas "todo mundo" é gente demais para o possível. Agora, gente: os possibilistas NUNCA mudaram o mundo. Viu? Só se locupletaram dele. E, se você prestar atenção, Pinky e Cérebro estão montando seu plano para dominar o caju. Mas os “setores informativos da sociedade organizada possibilista” só vêem que 12 vereadores saíram, e 12 vereadores entraram. E nada de perguntar, de verdade, what a fuck project é esse. Que está aí. Pior: que está aqui. E contando.

Um comentário:

Anderson disse...

Os números, realmente, mentem muito. Se eu como um frango e você chega em casa pra almoçar e encontra as panelas emborcadas, ou penduradas na bateria, para a estatística vai ser meio frango para cada um. E a tua barriga continua lá, vazia e doendo.