08/05/2008

Autobiografia não autorizada de Maria Quem – Tiro 5

Quando minha mãe acordou, deu de cara com o mar. Era um mar verde, que refletia o sol e tinha lá no fundo uns barquinhos de velas brancas que levaram minha mãe pra longe, longe. Era o mar dos olhos do meu pai. Meu pai arreganhou de novo o sorriso, e dessa vez minha mãe não desmaiou mais. O que ela fez foi segurar o pescoço dele e antes que ele pudesse desfazer o sorriso ela puxou o mar pra bem pertinho dela e fechou os olhos e descobriu que tem beijos que fazem estourar muito mais foguetes do que trepar. Minha mãe naquele dia descobriu que é por isso que puta de verdade não beija na boca. E nunca mais beijou ninguém que não fosse meu pai. Minha mãe e meu pai começaram a namorar. Meu pai ia toda noite na Passarinha. Só que nunca comia minha mãe. Porque ela era puta mas era uma puta direita, e disse que com ele só depois de casar. Porque era puta por profissão, não por amar. E meu pai e minha mãe ficaram assim: minha mãe trepava não sei quantas vezes por dia pra pagar a morada na Passarinha, mas se guardava pro meu pai e dizia que ia casar virgem com ele porque a virgindade não fica no meio das pernas mas num cantinho do coração. E meu pai comia todo dia uma mulher da Passarinha mas dizia que trepar é uma coisa, amar é outra coisa e que ele amava ela como se ela fosse um pedaço dele , como se ela fosse o ar que ele respirava, como se ela fosse a única mulher na face da Terra. E assim foi por oito meses, seis dias, quatro horas, trinta e dois minutos e dezenove segundos a partir do momento em que minha mãe, Edilene, mergulhou pela primeira vez no mar dos olhos do meu pai, Onofre.
Pra nunca mais voltar.

3 comentários:

Phylippe Moura disse...

Gosto muito dessa filha da puta!

Rosa disse...

Deliciosamente poético...


www.odamae.zip.net

ledusha disse...

que maravilha... adorei descobrir essa límpida farinhada. e obrigada pelo comentário. beijos