15/03/2008

Macarronária

É tarefa masculina prover o alimento da fêmea, especialmente quando a fêmea faz morada no quarto principal do peito do macho. É tarefa do homem caçar o ex-vivo animalzinho ou tubérculo ou sorrateira raiz, ou usar o cartão de crédito ou a capacidade de realizar o escambo (ou, em último caso, a invasão armada de um depósito de um supermercado qualquer) para transformá-lo em fondues de peito de morango ao chocolate, bife de lontras a escarola, pato com laranjas da Albânia e molho de catupiry ou salada Scafollesi Tontti enfeitada com fios de ovos de crocodilos albinos da Malásia. Ou até mesmo num simples molho a bolonhesa. Mas os tempos modernos fazem crer aos menos ponderados que, pelo fato de todos terem os direitos iguais, homens, mulheres e suas variantes e adjacências, tal fato (o prover da fêmea pelo macho) esteja em desuso. Evidentemente, é de uma grande parvoíce tal assertiva, pois a confecção de pratos coloridos, saborosos e, evidentemente, nutritivos, do homem para a mulher é, no mínimo, sinônimo de boa educação, além, é claro, de servir a objetivos tão nobres quanto o de alimentar, que sejam o de enamorar, de seduzir, de encantar e o de evitar que seres tão encantadores tenham suas delicadas extremidades superiores, vulgarmente chamadas de dedos, cheirando a alho ou com bolhas liquosas causadas pelos inevitáveis acidentes com o calor das panelas. Enfim, está escrito nas Tábuas de Abdalel, no item 14, alínea c: “faz o alimento para o corpo de sua amada, que dela receberás o alimento de sua alma”.
Assim, procede que o homem deverá ter como conhecimento essencial ao menos uma receita que provoque, em seu objeto de adoração: aumento dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas, discreto inchaço ao sul do continente, elevação da temperatura corporal, aumento da salivação e vontade de rodopiar pelo ar ao som do Bolero de Ravel. Evidentemente, a dança varia conforme a música, mas tem-se como parâmetro de qualidade gustativa o NRPS, ou número de rodopios por solfejo. O índice ideal, segundo estudos apuradíssimos do Instituto de Ciências Gastronômicas de Valverdianne, Escolávia, é de 52,876 rodopios por solfejo. Mas houve um caso no ano de 1937, no sul da Lituânia, em que uma jovem donzela se encantou tanto por um singelo bife ao molho preparado pela sua metade da laranja que rodopiou à incrível marca de 682 rodopios por solfejo, marca considerada imbatível e que recebeu a impressionante média de 10,6 pontos no levantamento das placas de pontuação pelos jurados, ainda mais impressionante pelo fato da maior nota possível a cada um ser 10, o que, apesar de certo estranhamento inicial, não obteve maior repercussão diante do espetáculo dos rodopios da jovem em questão.
Dá-se, então, que é preciso ter nas mangas não apenas abotoaduras mas, principalmente, uma receita. Simples que seja, como a obtida a duras penas por meu tataravô durante expedição às ilhas geladas da Rondívia, no século 18, e guardada debaixo de sete chaves no baú da memória da família e que será posta, na próxima quarta-feira, à disposição do mundo em nome da liberdade, da igualdade, da fraternidade e do bom andamento das relações entre os sexos e entre todos os povos

4 comentários:

Mia disse...

Impressive!
Um pouco de talento, um tanto de paciência, uma pitada de pimenta e "voilá"! Um homem romântico!
Rsrs
Aqui acolá se encontra algum, tsc, tsc...

=*

Luz da Alma disse...

André, tu entro no meu blog dia 04/03 - Luzes da Alma...
tá ai sua resposta
Daniele Soares =)

Pri. disse...

Lindo, como sempre, como tudo.

Rosa disse...

Ah, um gourmet! Especialista em culinária ou corações, seu André???

www.odamae.zip.net