13/03/2007

Da Inveja

Eu sou um poço de inveja. Mas minha inveja não agride ninguém. Minha inveja é tranqüila, porque é uma inveja que não deseja tomar o lugar de ninguém, nem tomar o dinheiro de ninguém, nem planejar planos infalíveis do Cebolinha contra ninguém, nem puxar tapetes nem armar joguetes nem jogar confetes venenosos para cima de ninguém. Minha inveja não prejudica ninguém. Minha inveja dorme cedo, come chocolate pra relaxar e só se veste de azul, pra manter a tranqüilidade. Aliás, se a inveja tivesse cor, ou ainda um espectro de cores que mostrasse seu grau de pureza, minha inveja provavelmente estaria posicionada bem perto do lado branco da força. Eu acho, pelo menos. Porque minha inveja aparece de um jeito até gostoso, e desemboca quase sempre em um sorriso e eventualmente num palavrão que me explode lá de dentro, e noventa e nove vírgula noventa e sete por cento das vezes vem com um sentimento de paz que, acredito, a inveja que fica do lado oposto do espectro nem imagina que possa existir. Engraçado que minha inveja não está relacionada a posses, nem a poses, nem a postos, nem a cargos. Praticamente nunca. Houve, é claro, um tempo em que eu invejava gente que tinha muito mas muito mas muito dinheiro porque pensava que ter muito mas muito mas muito dinheiro me possibilitaria ter muito mas muito mas muito mais de qualquer uma das coisas boas que tenho hoje. Houve um tempo em que eu tinha inveja de quem era mais musculoso, mais alto, mais bonito, mais charmoso, menos peludo, com o queixo mais quadrado, com os pés maiores, os ombros mais largos e sorriso de creme dental Colgate. Mas era uma inveja aprendiz, uma inveja menor, uma inveja anã, uma inveja de baixo clero. Agora, invejo pessoas, somente. Na verdade, nem invejo exatamente pessoas: invejo certas coisas que só algumas pessoas fazem, porque nenhuma pessoa faz tudo tão bem o tempo todo a ponto de se tornar uma pessoa invejável. Pessoa por pessoa sou melhor que boa parte delas, e pior que a maioria. Então, invejo coisas que as pessoas fazem e atitudes que pessoas têm. Invejo atitudes corretas em momentos críticos. Invejo palavras não ditas em momentos onde o silêncio é a melhor resposta. Invejo sorrisos debaixo de céu chumbo. Invejo lágrimas com cheiro de açúcar. Invejo perdões por coisas imperdoáveis. Invejo explosões de indignação quando o momento é de indignação e não de letargia. Invejo delicadezas duras. Invejo durezas delicadas. Invejo felicidade alternada com tristeza em doses equilibradas e pertinentes. Invejo a razão na hora da razão, a emoção na hora da emoção e a emoção racional que surpreende e muda o rumo de todas as prosas. Invejo quem se gosta mas enxerga um palmo adiante do umbigo. Invejo quem faz de três palavras encarrilhadas e dois espaços em branco e uma vírgula, quem sabe acompanhada de um ponto e vírgula, um poema. Invejo quem morre por uma causa, especialmente as causas não estapafúrdias nem violentas nem fúteis nem religiosas. E se eu fosse ficar aqui falando de todas as minhas invejas eu não acabaria mais hoje e isso não seria mais um blog e sim uma enciclopédia Barsa da inveja. E, no fim de tudo, o que eu quero dizer é que eu estou dizendo tudo isso por dois motivos, em especial: um é que me perguntaram um dia se eu não sentia inveja de algo ou de alguém ou de alguma coisa, e eu disse que nunca tinha pensado nisso e invejava quem conseguia assumir suas invejas. E o outro motivo é que só não tenho inveja de uma coisa: de gente que ama de verdade, com paixão e com a necessária e invejável capacidade de se entregar ao amor e ao objeto do amor. Só não invejo quem roça a língua no céu da boca e sente o gosto de quem ama. Porque aí, meu caro, aí, minha cara, pode morrer de inveja, pode estrebuchar aí bem estrebuchadinho.
Porque, desse bem, meu bem, morro eu.

5 comentários:

ju disse...

eu invejo vc.
:)

Tereza Corina disse...

Bem que a Sam havia me dito que vc escreve muito bem. Conheci o seu blog hoje. Adorei o texto. Excelente mesmo. Parabéns!
Virei outras vezes!

moacircaetano disse...

Ótimo!!!!!!!!!

camila disse...

bom te encontrar por aqui, qto tempo faz! para variar, esses textos cheios de cor, de vida... adoro, tão bom. diria que invejo, mas pelo sorriso que causa, trato de outro modo: admiro. admiro. admiro. beijo.

Fábio disse...

eu tenho muita inveja, mas, como a sua, não agride ninguém. abração