04/01/2007

Gigante pela própria natureêzá!

Estudei em uma escola pequena, chamada Dom Bosco, em Belo Horizonte, do Jardim até a 4ª série. Nada a ver com a escola de mesmo nome que existe aqui, fora o nome. Era uma escola particular, bem pequena, e ficava ao lado da casa da minha avó, onde eu morava. Sabe-se lá porque, eu era o aluno que morava mais perto, separado da escola apenas por um muro. E era o que mais chegava atrasado. Talvez daí venha minha irritação atual ao me atrasar para o que quer que seja. Eu vivia sendo repreendido, e não adiantava dizer que não era minha culpa. Hoje, se não saio repreendendo formalmente ninguém que se atrase a um encontro qualquer comigo, não quer dizer que eu não esteja putinho das calças com o tal atraso. Marcou? Faz o favor de chegar na hora.
Eu tinha uma professora de canto. Esqueci o nome dela. Pena. Mas ela era alta, muito alta. Pelo menos pra mim, que sempre fui baixinho. Tinha um cabelão enorme, usava óculos escuros o tempo todo. Eu pensava que ela era cega, mas não era. Não sei porque os óculos escuros. Era feia. Mas estava sempre muito bem arrumada. Até demais. Meio perua, diria. Acho até que minha professora de canto me ajudou a definir um conceito interno de perua, antes mesmo de eu saber o que era isso ou, até, de existir essa expressão. Usou brilho durante o dia? Perua. Vai ao salão mais de duas vezes por mês? Peruazinha. Anda, durante o dia, toda emperiquitada, com algo mais do que um jeans e uma blusa simples? Meio perua, no mínimo. Claro, isso é relativo. Mas, enfim, não consigo evitar.
Minha professora de canto tocava piano. E a gente aprendia a cantar ao som do piano. Mas o engraçado é que, dessa época, não lembro de nenhuma música. A gente só aprendia hino. Eram os anos 70. Era um tal de “Brava Gente, Brasileira” pra cá, “salve lindo pendão da esperança” pra lá, “nós somos da pátria a guarda” pra acolá, “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós” pra outro lado. E a gente tinha de hastear a bandeira do Brasil pelo menos uma vez por semana. Toda a escola perfilada, aquele bando de meninos e meninas de 5, 6 anos paradinhos, vendo a bandeira subir no mastro verde amarelo. A justificativa era a de que assim aprenderíamos a valorizar o símbolo nacional. Deveríamos ser patriotas. E isso era uma obrigação. Ai de quem não aprendesse o Hino da Marinha. Ai de quem tirasse meleca durante o hasteamento da bandeira. Ai de quem, do alto de seus cinco anos, cuspisse entre os dentes no pé do colega ao lado durante a solenidade patriótica.
Lembrei de tudo isso ao assistir uma matéria na tv que mostrava que as escolas municipais de Teresina, e as particulares também, agora são obrigadas por lei a ter, em seus uniformes, do lado esquerdo do peito ou na manga esquerda, uma bandeira do Brasil. Justificativa: valorizar o símbolo de nossa pátria. Estimular o patriotismo. Não duvido das intenções do nobre edil que criou a lei, nem de seus pares que a aprovaram. Infelizmente, não me recordo aqui do seu nome. Creio que seja sincero em suas intenções, e realmente em um aspecto ele tem razão: falta patriotismo em nossa gente. Mas, vem cá: sinceramente, alguém vai ser patriota por decreto? Algum jovem vai ser patriota por ter uma bandeira do Brasil na manga da camisa?
Devem ter mais o que fazer na Câmara. Melhor tratar de trabalhar na criação de leis que garantam escolas de qualidade, evitem a impunidade aos corruptos e ajudem a combater a violência, a fome e o desemprego. Coisas do gênero. Isso sim, seria estimular o patriotismo. Isso sim, daria ao jovem a vontade de ser patriota e o orgulho de sua cidade, seu estado e seu país.
O resto é pura bobagem e cheira, e muito, a demagogia.

Um comentário:

karine tito disse...

estou gostando muitos dos textos novos.
bem vindo de volta.