29/07/2006

Farinhada de domingo

A candidata chatinha

Não duvido das intenções de Heloísa Helena, a nossa candidata arretada à Presidência da República. Ao que me parece, pelo pouco que sei de sua/dela história, é uma pessoa digna, honesta, batalhadora, íntegra. Provas em contrário, por e-mail, se existirem e não forem levianas, por favor.
Heloísa representa para o povo brasileiro algumas coisas das quais ele sente falta. É guerreira, é brigona, é radical em seus princípios, parece sincera, é determinada e valente. No imaginário coletivo, várias dessas características, entre outras, fazem o perfil do líder ideal para grande parcela da população, por mais que, na prática, essas mesmas características, na hora H, assustem os eleitores. Heloísa chega, hoje, a cerca de 10% da preferência do eleitorado, segundo as pesquisas. Nada mal para uma mulher no país do chauvinismo na política. E ela, chega lá?
Dizem os bambambans que de urna e bunda de bebê pode se esperar de tudo. Mas Heloísa não deve chegar. Por um motivo básico: ela é uma chata de galochas. Chata. Chatíssima. Heloísa tem a voz estridente, grita, gesticula demais e tem o discurso que lembra a antiga “ala xaata” do PT. Com uma retórica cheia de idéias utópicas e inviáveis no mundo de hoje, por mais que tenham, em seu bojo, uma certa lógica impúbere e a nobre intenção de melhorar de verdade a vida dos brasileiros. Heloísa adota a mesma linha abandonada pelo próprio PT para chegar à Presidência. A corrente de pensamento que, de certa maneira, tem a Albânia socialista como ícone de nação vitoriosa. E que morreu. Virou fóssil.
Ninguém mais acredita que seja possível simplesmente dar um calote na Dívida Externa, baixar por decreto os juros ou qualquer outra proposta radicalmente contra o que está posto pela “ordem mundial” e resolver, assim, tudo que existe de errado no país. Isso faz, da candidata do “coração valente”, mais chata do que ela já é. Porque nos obriga a usar a razão e perceber que ou ela não sabe do que está falando ou é puro discurso oportunista de campanha. Heloísa Helena deve continuar aonde está: como senadora, em um espaço onde pode cobrar, gritar, xingar, questionar, propor. Ela é daquelas pessoas que cumprem uma importante função para a sociedade: o de ser chato com a “classe dominante”, como ela mesma diz. Quem cumpre essa função com tanta galhardia não pode se bandear para o outro lado, sob pena de não ser mais nem uma coisa nem outra, e virar um fantoche de si mesmo. Essa função, a de chata de galochas, permite delírios econômicos, propostas estapafúrdias, algum destempero verbal e indignação à flor da pele. A outra, a de ser Presidente, não permite nada disso. Ser Presidente da República deve ser algo meio sacal. É preciso ter sangue de barata. E Heloísa Helena não parece ter.
De qualquer maneira, é bom ver Heloísa Helena com um espaço privilegiado para esbravejar contra meio mundo com sua voz de taquara e seu sangue arretado de nordestino. No meio do marasmo e da mesmice que o mundo globalizado despeja em tudo que anda acontecendo nesse mundo, da música à política, do futebol aos discursos de campanha, uma chata como Heloísa Helena pode ser mais do que o fiel da balança: ela pode ser o Zidane das eleições, e distribuir cabeçadas redentoras nos chuchus que se apresentam por aí.
Mas, ganhar, ela não ganha. Ela é chata demais para isso. Ainda bem.

3 comentários:

Letícia disse...

Apoiadíssimo. Eu voto em você. :D

[cheguei, tá?]

sam disse...

sábias palavras. Adorei esse texto.
bjs

Aline Castro disse...

amei !

vc tb tem o meu apoio.