07/04/2006

Bruna Surfistinha: best seller sem fardão

Não creio que eu seja exatamente um puritano. Claro que aqui e ali sofro influência da cultura machista dominante fruto da criação cristã, ou vice-versa, e dou lá minhas escorregadas conviccionais. Sou gente, poxa! Mas, decididamente, puritano eu não sou. Até que sou bem saidinho, pro gosto da maioria. Mas isso, na verdade, não interessa muito.
O que interessa é que Bruna Surfistinha é o mais novo fenômeno da literatura brasileira. O Doce Veneno do Escorpião, livro escrito (?) pela moça (?), é um best-seller, superando, de longe, grandes mestres da escrita. Uma avalanche de vendas no país em que livros são artigos de luxo para a maioria. Quem é Bruna Surfistinha? Por onde você andou nos últimos anos, cára-pálida? No espaço, com o nosso astronauta caroneiro?
Bruna Surfistinha é a mais famosa ex-garota de programa brasileira. Musa hardcore da internet, começou contando na rede suas peripécias profissionais e virou, depressinha como quem faz programa, uma espécie de ícone nacional: a patricinha decidida, filha de pais adotivos, rebelde sem calça, digo, causa, que gosta de sexo e, aos 17 anos, larga tudo com o propósito de cair na vida e fazer o pé-de-meia usando o que tinha de mais valioso, na visão dela. Aquilo. Começou com um diário, onde anotava tintim por tintim cada gemido, ranqueando cada cliente e legendando se, digamos, chegou ou não "chegou lá" (desculpe, acendeu aqui a luz vermelha do tabu) com o dito cujo, dita cuja ou ditos cujos clientes. Daí, criou um blog. Daí, "escreveu" o livro. Daí, virou best-seller. Só falta a cadeira 19 da ABL.
Em termos literários, o livro parece o fórum de uma antiga revista masculina. A palavra mais utilizada, fora "gozar", é "afinidade", que, de certa maneira, é a palavra da moda no Brasil do Big Brother. Cheia de "afinidades" com os clientes, mas nem tanta com o vernáculo, Bruna Surfistinha, que na verdade se chama Raquel, desfia um rosário de posições, sentimentos e usa um vocabulário um tanto desbocado, para muitos, expondo pensamentos com a profundidade de uma tigela de sucrilhos. Há quem diga que ela é corajosa, que derruba a hipocrisia, que expõe a verdade sobre as relações amorosas e sexuais do brasileiro, especialmente os de classe média-alta. De certa maneira, um grande exagero. Afinal, é só dar uma volta em qualquer boate, bar ou praia brasileira para ver várias Brunas Surfistinhas vendendo, comprando ou até mesmo doando prazer, usando a máscara da modernidade. Bruna Surfistinha é só uma que fez, cobrou por isso e quer faturar um troco contando como foi. Ela só fez isso de diferente. O resto, a moçada já anda sabendo muito bem.
Mas, no fundo, isso também não interessa nesse texto. O que eu queria dizer é que até o bom e velho voyeurismo anda ficando sem graça, bobo, chato. Antigamente, o voyeur precisava se esgueirar por entre cortinas, olhar pelo buraco das fechaduras ou correr o risco de desabar de um telhado para ver o que os outros andavam fazendo entre quatro paredes. Hoje, não. Basta comprar um livro, ir à banca de revistas, acessar um site e pronto. Está tudo lá. Sem nenhum charme. Fácil e, de alguma maneira, até enjoativo, já que, grosso modo, todo corpo exposto durante o ato é igual.
Pois isso, sim, é sacanagem. Conseguimos avacalhar tudo: o mundo, a literatura, o Brasil, a cultura, as relações, a educação, a saúde e, agora, estamos avacalhando até a própria sacanagem. Que vai acabar ficando tão banal, tão banal, que vai ser o máximo para o verdadeiro voyeur ficar observando, na parada de ônibus, o dedo mindinho do pé esquerdo da mulherada ou a orelha nua dos rapazes.
Menos, gente. Menos. Tá ficando chato.

3 comentários:

Anônimo disse...

Quanto ao fato das coisas estarem se tornando banais,há como estão.As pessoas estão tão racionais que até a Surfistinha se tornou fenomeno,mais ainda há esperança, assim espero, pois como dizia Goethe:quem é o mundo para um coração sem amor.

Dreamer disse...

e o brasil enfim descobre que os politicos tem mãe, e escreve seu primeiro best seller: "- alguem servido de uma pizza? tem programa pra hoje? não? se quiser, custa só...".

ainda bem que Nietzsche morreu faz tempo [e talvez nem assim seja poupado de severas cambalhotas dentro da cova], e que meus olhos não se envenenem. amém.

Paranóia HydropônicA! disse...

Ah!

Acho que a diferença deve prevalecer sim. Afinal de contas, somos pessoas, e portanto devemos ser humanos e por isso diferentes.

Imagine uma massa gosmenta de humanos normais e iguais!

Viva a Bruna-Puta-Filha-Surfistinha!

Viva e longe de mim.