23/03/2006

O Big Brother do MV Bill

Faz uma semana que o Brasil levou uns bons tabefes na cara, numa noite de domingo, quando o verdadeiro "show da vida" nas periferias brasileiras foi mostrado em nossas televisões.
Muito se discute o que foi apresentado no documentário "Falcão - Os Meninos do Tráfico". Muita gente foi pega de surpresa com a crueza das declarações de meninos que, teoricamente, deveriam estar se preparando para ser o futuro do Brasil mas, ao invés disso, estão se entupindo de drogas, aprendendo a manusear fuzis maiores que eles mesmos e adotando o discurso do "não tenho nada a perder". Declarações deprimentes, que mostram um lado que o Brasil há tempos faz questão de fingir que não vê. Pior ainda saber que, dos 17 jovens entrevistados, 16 morreram antes da exibição do documentário. Transformados, literalmente, em poeira, jogada debaixo de um grande tapete verde-amarelo-azul-e-branco que parece não ter fim. Assassinados por traficantes, por gangues, pelo descaso, pela falta de oportunidades, pela mídia, por pais ausentes. Pelos governos, todos eles, indistintamente, independentemente de cores partidárias ou ideológicas. E por nós mesmos.Todos são cúmplices. Todos somos cúmplices, de alguma maneira. Inclusive eu e você. Aliás, minto: existem exceções. Difícil é fazer, dessas exceções, espelho e modelo para a sociedade.O documentário de MV Bill, cá entre nós, não traz nenhuma novidade. Pelo contrário. Segundo ele mesmo, o documentário está pronto há anos e reflete uma realidade de 4, 5 anos atrás. Que, hoje, não mudou em nada. Quer dizer: deve ter mudado, mas para pior. Uma das virtudes de "Falcão - Os Meninos do Tráfico" está na competência que o autor teve para convencer a Vênus Platinada (e, segundo muitos, alienada), a escancarar para quem quiser ver (e até para quem não queria) o que deveria ser o submundo das favelas brasileiras mas, na verdade, tem se transformado em um mundo paralelo, com leis, conceitos morais e ética próprias. Se é que tudo aquilo tem algo que possa ser chamado de ética, moral ou lei.E agora? O que fazer? Diz a verdade: quem é que sabe? Não é de hoje que tudo foi dito e "redito". Não há governo, municipal, estadual ou Federal que, nos últimos 10, 20, 30 anos, não tenha tido noção de a quantas anda a realidade. Não deve haver cidadão brasileiro com o mínimo de percepção do mundo que não tenha notado, nas ruas, o lento mas permanente avanço de hordas de sem-chance, de sem-educação, de sem-família, de sem-saúde, de sem-teto, de sem-esperanças, de sem-tudo, que todos os dias batem nas janelas de carros em todos os semáforos do país comendo fogo, pedindo moedas, lavando vidros, implorando atenção e dignidade. Todas as noites os "meninos" estão aí, esfregando suas caras melequentas nos nossos narizes. E ninguém olha. Porque é mais cômodo e dá menos trabalho aumentar o volume do cd e fechar os vidros do que levantar o traseiro e fazer alguma coisa. Repito: e agora? Quantos domingos teremos que passar vendo e revendo aquilo tudo para nos convencermos de que temos que fazer alguma coisa, nós, eu e você, ao invés de pensarmos em calças de griffe e sapatinhos de salto para passear em Buenos Aires? Até quando vamos esperar algo das "autoridades"? É melhor cair na real e arregaçar as mangas. Tem muito mais gente se ocupando em sangrar o país até encher o fiofó de dinheiro do que preocupada em mudar as coisas de verdade.
Pelo visto, a gente só pode contar com a gente mesmo.

3 comentários:

ju disse...

você esqueceu de dizer assassinados pela polícia. aquela polícia que a gente paga pra nós defender e que eles, os traficantes, pagam para defendê-los, porque como bem disse um dos que já morreram, sem o tráfico quanto ganharia a polícia?

Mariana Arraes disse...

Você já tá sabendo que o MV Bill vai estar "palestrando" por aqui dia 03 de junho? Pois é... Beijos!!

Dreamer disse...

e enquanto as fadas de botas, com suas varinhas esfumaçadas tiverem insígnia e permissão para matar, nao há sono tranquilo na terra dos despertos.

e redescubro um lugar bom de se andar...linkei.
boa semana moço.