Vamos descartar a hipótese de que o pianista misterioso de Kent seja um alienígena, programado ou desprogramado para passar um tempo por aqui e ser abduzido, lá na frente, com todos os nossos segredos guardados em uma pasta rosa. Hipótese por demais fantástica, considerando que uma civilização capaz de uma proeza dessas seja bem mais inteligente que a nossa e não ia deixar seu enviado logo na Inglaterra, tão perto do Príncipe Charles.
Vamos descartar, também, a possibilidade, bem mais real, de que o pianista loiro e mudo de Kent seja uma grande jogada de marketing, para se promover um filme, um livro, uma rede de lojas de roupas masculinas, um alguém ou um produto qualquer, que só vai ser revelado lá na frente. Capitalista demais pro meu gosto.
Vamos descartar, ainda, a teoria levantada por Tutty Vasques de que o pianista desmemoriado de Kent foi jogado de um transatlântico enquanto tocava uma música de Ivan Lins: hipótese por demais fantasiosa já que, se isso fosse verdade, ele teria sido enforcado antes.
Não consideremos que o pianista molhado de Kent seja um paulistano carregado pela enxurrada nas ruas de São Paulo e levado pela correnteza até a região. Hipótese pouco convincente, já que ele deveria ter se engasgado com algum coliforme gigante antes de chegar ao mar.
E, para acabar com essas especulações, vamos deixar pra lá a possibilidade de que o pianista que toca Beatles seja, apenas, alguém sem memória, porque essa seria uma versão muito simples e incondizente com um mistério tão bom de se tentar desvendar.
Particularmente, entre tantas hipóteses levantadas, prefiro ficar com uma que, aparentemente, ainda não foi colocada por ninguém: o pianista estranho de Kent, encontrado em uma praia da Inglaterra vestindo roupas finas mas com as etiquetas arrancadas, sem falar nada, mas tocando música erudita e Beatles, é, apenas, uma ilusão, uma alucinação coletiva. Ele não existe. O pianista esquisitão de Kent nada mais é que um pouco de cada um de nós, idealizado simultaneamente e projetado de forma holográfica em um lugar qualquer da Terra. Ele representa nossa vontade, em alguns ainda nem manifesta, de deixar de ser um outdoor ambulante. Daí as roupas sem griffe. Ele representa nossa vontade de sermos outros, de esquecermos quem somos nem que seja por alguns dias, e nos calarmos, e nos permitirmos ter medo, e mostrar nosso lado sensível e talentoso que ninguém nunca quis prestar atenção. O pianista meio amalucado de Kent, para mim, é um espectro, um modo que inventamos, sem saber, para nos rebelarmos contra as chatices dessa vida. E sermos quem temos vontade de ser. E vivermos em algum lugar que a gente goste, sem ninguém saber quem somos ou o nome dos nossos pais ou a rua em que a gente morava quando era criança. O pianista doidão de Kent é o que nós, pelo menos um dia em nossas vidas, desejamos ser: um mistério a ser desvendado, sim, mas que só vai ser revelado no dia em que a gente quiser, como a gente quiser, para quem a gente achar que deve.
Qualquer outra hipótese, para mim, está descartada. Até prova em contrário, o pianista esquecidinho de Kent é cada um de nós.
25/05/2005
12/05/2005
O Amor Chantilly
Fritz Karl Vatel era suíço e "chef" particular do Príncipe de Condé, senhor do Castelo de Chantilly, a 35 quilômetros de Paris. Diz a lenda que Vatel, exímio cozinheiro, batendo com uma colher de madeira o gorduroso leite da região e adicionando açúcar e baunilha, inventou o maravilhoso creme de chantilly, servido a partir de então como iguaria sofisticada e de inigualável sabor. Mas Vatel, porém, não teve lá um fim muito, digamos, saboroso. Desesperado por um atraso na entrega de peixes quando preparava um banquete em homenagem a Luiz XIV, Vatel, o responsável pelo menu, suicidou-se, atirando seu corpo contra uma espada.
Ronaldo e Daniela se "casaram" neste mesmo castelo, onde se matou Vatel e onde foi criado o creme chantilly. Nada mais adequado, como se vê hoje. Afinal, ao que tudo indica com a tal separação dos dois depois do mais badalado casamento dos últimos anos, o amor deles é o que podemos chamar mesmo de "amor chantilly".
Quem já comeu um bom chantilly sabe que a primeira colherada traz um sabor desesperadamente bom. É uma experiência quase sublime: um creme macio, adocicado, de textura impossível de descrever, toca a língua da gente e nos deixa quase que em estado de êxtase. O mundo parece parar. É uma sensação de imortalidade e de superioridade. Naquele momento, no exato instante em que aquele pedacinho de nuvem açucarada e úmida entra na nossa boca, a vida parece ganhar um sentido. E a gente quer mais e, como sempre que se depara com algo extremamente bom, existe certa dificuldade em achar a medida das coisas. E vamos nos lambuzando de chantilly. Mas, aos poucos, a aparente sofisticação do creme vai sumindo. Acostumada à sensação, a língua percebe que aquele creme divinal nada mais é do que creme de leite, com certa gordura e um pouco de açúcar. Em seguida, fica sem graça, um creme qualquer. Sem gosto. Comum. Enjoativo, até. É por isso que dificilmente alguém come chantilly puro. Normalmente ele vem acrescido de morango, de pêssegos ou até de chocolate. Porque, puro, o chantilly fica repugnante em pouco tempo. Assim como o amor, o chantilly nasceu para ser um coadjuvante, não o astro principal. O chantilly, assim como o amor, não nasceu para ser colocado sob holofotes, porque derrete e vira água, uma estranha e feia água branca, que escorre e endurece em minutos.
Ronaldo e Daniela colocaram seu amor sob todos os holofotes do mundo. E não perceberam que era um amor chantilly, que derreteu e ressecou, e agora deixa um rastro feio e melequento. Ronaldo e Daniela inverteram uma lei universal: não se constrói um amor com festas em castelos, muito menos castelos de chantilly. Podemos construir castelos fazendo, do amor, uma festa. Além disso, festas de verdade não precisam de barulho. Muito barulho é, apenas, balbúrdia. A festa do amor não precisa de holofotes. Não precisa de gritaria. Não precisa de alarde, nem de pompa nem circunstância. O verdadeiro luxo e requinte do amor está no silêncio, e Mário Quintana resume: "Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos".
Ronaldo e Daniela, pelo visto, nunca leram Mário Quintana.
Ronaldo e Daniela se "casaram" neste mesmo castelo, onde se matou Vatel e onde foi criado o creme chantilly. Nada mais adequado, como se vê hoje. Afinal, ao que tudo indica com a tal separação dos dois depois do mais badalado casamento dos últimos anos, o amor deles é o que podemos chamar mesmo de "amor chantilly".
Quem já comeu um bom chantilly sabe que a primeira colherada traz um sabor desesperadamente bom. É uma experiência quase sublime: um creme macio, adocicado, de textura impossível de descrever, toca a língua da gente e nos deixa quase que em estado de êxtase. O mundo parece parar. É uma sensação de imortalidade e de superioridade. Naquele momento, no exato instante em que aquele pedacinho de nuvem açucarada e úmida entra na nossa boca, a vida parece ganhar um sentido. E a gente quer mais e, como sempre que se depara com algo extremamente bom, existe certa dificuldade em achar a medida das coisas. E vamos nos lambuzando de chantilly. Mas, aos poucos, a aparente sofisticação do creme vai sumindo. Acostumada à sensação, a língua percebe que aquele creme divinal nada mais é do que creme de leite, com certa gordura e um pouco de açúcar. Em seguida, fica sem graça, um creme qualquer. Sem gosto. Comum. Enjoativo, até. É por isso que dificilmente alguém come chantilly puro. Normalmente ele vem acrescido de morango, de pêssegos ou até de chocolate. Porque, puro, o chantilly fica repugnante em pouco tempo. Assim como o amor, o chantilly nasceu para ser um coadjuvante, não o astro principal. O chantilly, assim como o amor, não nasceu para ser colocado sob holofotes, porque derrete e vira água, uma estranha e feia água branca, que escorre e endurece em minutos.
Ronaldo e Daniela colocaram seu amor sob todos os holofotes do mundo. E não perceberam que era um amor chantilly, que derreteu e ressecou, e agora deixa um rastro feio e melequento. Ronaldo e Daniela inverteram uma lei universal: não se constrói um amor com festas em castelos, muito menos castelos de chantilly. Podemos construir castelos fazendo, do amor, uma festa. Além disso, festas de verdade não precisam de barulho. Muito barulho é, apenas, balbúrdia. A festa do amor não precisa de holofotes. Não precisa de gritaria. Não precisa de alarde, nem de pompa nem circunstância. O verdadeiro luxo e requinte do amor está no silêncio, e Mário Quintana resume: "Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos".
Ronaldo e Daniela, pelo visto, nunca leram Mário Quintana.
09/05/2005
Um Conto Simples
Para Cinéas Santos
Ela veste uma saiazinha azul cor de céu e camisa de flores, grandes, já meio murchas. Ele com camisa de propaganda de sabão em pó, por dentro da calça, cinturão de couro, R bem grande na fivela. Ela não usa nenhum penteado especial. Apenas um cabelo penteado, longo, molhado, cheirando a creme. Ele de bigode fino, homem do campo, cabelo parece não levar água há dias mas arrumado, grudado na cabeça. Ela sorri um sorriso sem um dente para ele, que o devolve sem dente algum na arcada superior.O restaurante é como todos de beira de estrada. Cachorro esquálido num canto, garrafas de cachaça, caixas de cerveja. Rádio AM misturado a motor de caminhão e cheiro de diesel. Toalhas xadrezes com furos de cigarro, restos de farofa e grãos de arroz. Uma imagem de São Cristóvão domina o ambiente. Alguém chega enquanto ela toma sua segunda Fanta laranja. Uma senhora, cheirando a água de colônia, vestido rosa-choque amassando os seios, grandes botões, três. O rapaz se levanta e estende a mão, desajeitado. A senhora banguela de rosa-choque senta, bufante, pés sujos de terra. Tira as havaianas, mexe os dedos, esfrega os joelhos e balbucia incomodada: "calô, né". Silêncio. A moça olha para o rapaz com timidez. Chegam três PFs grandes, bifes escorrendo pelas bordas, macarrão desbotado, feijão cai não cai. Outra Fanta laranja, uma Fanta uva e uma garrafa de água gelada. Comem sorrindo, garfos de lado, usando colheres e dedos. Conversam pouco e de boca cheia. Em poucos minutos a mesa por testemunho da pouca educação, moscas já aproveitando as sobras. Enquanto palita os raros dentes ele levanta, mete a mão no bolso, tira um pacotinho de plástico, de onde pulam duas argolas douradas, entregues à senhora banguela de rosa-choque. Ela põe o palito de palitar falta de dentes na mesa, pega as argolas e beija cada uma delas. Segura a mão direita da lacrimosa mocinha. Coloca a argola no dedo magro com unha "branco cintilante", beijando em seguida a mão da moça. Repete o gesto com a mão grossa do rapaz, e também o beijo. O casalzinho se abraça forte, ridículos tapinhas nas costas, ao som de gargalhadas enormes da senhora banguela de rosa-choque. O rapaz grita o garçom. Conversa animada sobre a vida e a muita chuva deste ano traz a conta bem depressa. Ele tira a nota de vinte da carteira surrada e manda guardar o troco. Deixa a sogra passar primeiro, dá a mão à noiva e sorri, pensando na nova vida, nos filhos que um dia vão ajudar na roça e na vaquinha que seu Domingos da Maroca está vendendo por "duzentos real". É um homem comprometido, agora.
Ela veste uma saiazinha azul cor de céu e camisa de flores, grandes, já meio murchas. Ele com camisa de propaganda de sabão em pó, por dentro da calça, cinturão de couro, R bem grande na fivela. Ela não usa nenhum penteado especial. Apenas um cabelo penteado, longo, molhado, cheirando a creme. Ele de bigode fino, homem do campo, cabelo parece não levar água há dias mas arrumado, grudado na cabeça. Ela sorri um sorriso sem um dente para ele, que o devolve sem dente algum na arcada superior.O restaurante é como todos de beira de estrada. Cachorro esquálido num canto, garrafas de cachaça, caixas de cerveja. Rádio AM misturado a motor de caminhão e cheiro de diesel. Toalhas xadrezes com furos de cigarro, restos de farofa e grãos de arroz. Uma imagem de São Cristóvão domina o ambiente. Alguém chega enquanto ela toma sua segunda Fanta laranja. Uma senhora, cheirando a água de colônia, vestido rosa-choque amassando os seios, grandes botões, três. O rapaz se levanta e estende a mão, desajeitado. A senhora banguela de rosa-choque senta, bufante, pés sujos de terra. Tira as havaianas, mexe os dedos, esfrega os joelhos e balbucia incomodada: "calô, né". Silêncio. A moça olha para o rapaz com timidez. Chegam três PFs grandes, bifes escorrendo pelas bordas, macarrão desbotado, feijão cai não cai. Outra Fanta laranja, uma Fanta uva e uma garrafa de água gelada. Comem sorrindo, garfos de lado, usando colheres e dedos. Conversam pouco e de boca cheia. Em poucos minutos a mesa por testemunho da pouca educação, moscas já aproveitando as sobras. Enquanto palita os raros dentes ele levanta, mete a mão no bolso, tira um pacotinho de plástico, de onde pulam duas argolas douradas, entregues à senhora banguela de rosa-choque. Ela põe o palito de palitar falta de dentes na mesa, pega as argolas e beija cada uma delas. Segura a mão direita da lacrimosa mocinha. Coloca a argola no dedo magro com unha "branco cintilante", beijando em seguida a mão da moça. Repete o gesto com a mão grossa do rapaz, e também o beijo. O casalzinho se abraça forte, ridículos tapinhas nas costas, ao som de gargalhadas enormes da senhora banguela de rosa-choque. O rapaz grita o garçom. Conversa animada sobre a vida e a muita chuva deste ano traz a conta bem depressa. Ele tira a nota de vinte da carteira surrada e manda guardar o troco. Deixa a sogra passar primeiro, dá a mão à noiva e sorri, pensando na nova vida, nos filhos que um dia vão ajudar na roça e na vaquinha que seu Domingos da Maroca está vendendo por "duzentos real". É um homem comprometido, agora.
28/04/2005
De Sofismas e Traseiros
Não é algo exatamente original afirmar que, de alguma forma, nós, publicitários, somos uma versão sofisticada, revista e atualizada dos antigos sofistas. Aliás, não custa lembrar que as palavras "sofística" e "sofisticada" têm a mesma origem, do grego "sophistezai", que significava "ficar sábio", "enganar". Mas, com o tempo, sofisticar, que significava "complicar", "retirar a naturalidade", passou a ser usado no sentido de "destacar pelas finas qualidades". Mea-culpa, mea-culpa, mea máxima culpa. Os sofistas gregos eram homens sábios e talentosos que, por interesse financeiro, usavam de sua sabedoria para ensinar aos interessados em ganhar projeção na então iniciante arte da política, com o uso da dialética e da persuasão. Górgias, um dos mais significativos representantes dos sofistas gregos, dá um bico na moral e ensina que é preciso vencer o adversário, seja a causa justa ou não. Declara que sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber, e não a persuasão que nos ensina sobre a natureza do que se pretende saber. Parece complicado? Não é. Quer dizer, em linguagem de gente, que um sofisma é uma verdade montada para vencer e convencer alguém. Não uma verdade palpável e concreta.
A propaganda, de certa maneira, inseriu, em sua conceituação, procedimentos éticos e morais que, mesmo fazendo dela algo que lembra a sofística, a afasta do lado negro da sabedoria. Mas ainda é parte integrante da propaganda, de forma subjetiva, o conceito de que é preciso destacar o lado bom das coisas a serem divulgadas e, se não mentir e esconder, tornar irrelevante o aprofundamento sobre um objeto, já que, a princípio, tudo pode ser contestado. Isso nos faz um símbolo da nossa era. Simplificamos ao máximo conceitos, criamos em frases simples e curtas verdades que são aceitas por milhões de pessoas por conta da repetição da mensagem, da força da televisão e da "mídia" que, hoje, é mais do que algo abstrato e conceitual: é tão presente e poderosa que imaginar que ela não está por aí é como acreditar que, por não podermos ver o ar, ele não existe.
Mas é preciso cuidado. A simplificação de conceitos e verdades pode levar a erros banais. Os deslizes de nosso presidente parecem ser um exemplo de como a simplificação exagerada pode levar a afirmações que beiram o ridículo. Talvez assessorado por algum neo-sofista/marketeiro, Lula afirma que o brasileiro paga juros altos por não ter coragem de levantar o traseiro das cadeiras dos botequins para procurar juros mais baixos. Não apenas foi deselegante e deseducado como criou algo próximo de um sofisma. Aliás, de baixíssima qualidade. Culpar a preguiça e as partes carnudas e globosas dos brasileiros pelas taxas que o próprio Governo Federal estipula e que estão entre as mais altas do mundo beira a irresponsabilidade. Não me parece que haja uma relação direta entre bundas e juros, a não ser a cara que a gente faz ao pagar nossas contas ou o aparente eterno desejo dos governantes em botar algo em algum lugar do povo.
Lula, o meu Presidente, precisa parar de querer jogar para a platéia e ver se, de uma vez por todas, bota o dele na cadeira e vai arrumar um jeito de se aprofundar nessas questões para poder dizer coisas mais sensatas. Ou, então, o dele é que vai acabar descobrindo o que é levar uma "pezada" do povo brasileiro.
A propaganda, de certa maneira, inseriu, em sua conceituação, procedimentos éticos e morais que, mesmo fazendo dela algo que lembra a sofística, a afasta do lado negro da sabedoria. Mas ainda é parte integrante da propaganda, de forma subjetiva, o conceito de que é preciso destacar o lado bom das coisas a serem divulgadas e, se não mentir e esconder, tornar irrelevante o aprofundamento sobre um objeto, já que, a princípio, tudo pode ser contestado. Isso nos faz um símbolo da nossa era. Simplificamos ao máximo conceitos, criamos em frases simples e curtas verdades que são aceitas por milhões de pessoas por conta da repetição da mensagem, da força da televisão e da "mídia" que, hoje, é mais do que algo abstrato e conceitual: é tão presente e poderosa que imaginar que ela não está por aí é como acreditar que, por não podermos ver o ar, ele não existe.
Mas é preciso cuidado. A simplificação de conceitos e verdades pode levar a erros banais. Os deslizes de nosso presidente parecem ser um exemplo de como a simplificação exagerada pode levar a afirmações que beiram o ridículo. Talvez assessorado por algum neo-sofista/marketeiro, Lula afirma que o brasileiro paga juros altos por não ter coragem de levantar o traseiro das cadeiras dos botequins para procurar juros mais baixos. Não apenas foi deselegante e deseducado como criou algo próximo de um sofisma. Aliás, de baixíssima qualidade. Culpar a preguiça e as partes carnudas e globosas dos brasileiros pelas taxas que o próprio Governo Federal estipula e que estão entre as mais altas do mundo beira a irresponsabilidade. Não me parece que haja uma relação direta entre bundas e juros, a não ser a cara que a gente faz ao pagar nossas contas ou o aparente eterno desejo dos governantes em botar algo em algum lugar do povo.
Lula, o meu Presidente, precisa parar de querer jogar para a platéia e ver se, de uma vez por todas, bota o dele na cadeira e vai arrumar um jeito de se aprofundar nessas questões para poder dizer coisas mais sensatas. Ou, então, o dele é que vai acabar descobrindo o que é levar uma "pezada" do povo brasileiro.
20/04/2005
Mas Será o Bento ou o Benedito?
O novo papa já chega mostrando que tem capacidade para ser um dos mais polêmicos de toda a história: afinal, seu nome será Bento ou Benedito?
Nem todo mundo ficou satisfeito com a escolha de Joseph Ratzinger para o próximo pontificado. Mas alguns bateram palmas. Chico Bento jogou o chapéu para cima e deu um beijo na Rosinha: agora vai ter um homônimo famoso. Rubens Barrichello adorou e, ao que tudo indica, vai pedir a interferência da Ferrari para uma audiência com o novo Papa. Pretende beijar a mão de um alemão sem que isso levante nenhuma suspeita de maracutaia ferrarista.
Brincadeiras à parte, o certo é que Ratzinger, ou melhor, Benedito, ou melhor, Bento XVI, já chega causando arrepios. Primeiro, é alemão. Um alemão que, obviamente, não bebe. E um alemão que não bebe é, no mínimo, algo que deve provocar alguma suspeita. Em sua biografia consta uma passagem pela Juventude Hitlerista, uma organização paramilitar dos nazistas alemães. Mesmo com a justificativa de que tal alistamento era obrigatório e a afirmação de que seu (dele) pai e ele eram contra o nazismo (tanto que o jovem Ratzinger desertou), isso constitui um certo problema na relação com os judeus. Ponto para a polêmica e para os calafrios.
Mas o problema mesmo é na reconhecida postura conservadora de Ratzinger que, acredita-se, deve ser mantida agora que ele se torna Bento XVI. O novo sumo-pontífice coloca-se frontalmente contra os principais motivos de discussões no mundo de hoje. Tido com um dos maiores guardiões dos dogmas do catolicismo atualmente, segundo os especialistas, o Papa Bento XVI declara: "A igreja classifica os casamentos homossexuais como imorais, artificiais e nocivos". Ponto para a discórdia. Outra frase: "A Igreja Católica é a mãe de todas as igrejas cristãs. Por isso, outras igrejas não devem ser consideradas 'irmãs' da Igreja Católica". Mais um ponto para a discórdia. Bento XVI também se declarou contra o aborto, a pesquisa das células-tronco, a eutanásia e, até, contra o rock e a música pop. Afirmou que as denúncias de pedofilia eram uma orquestração contra a Igreja Católica. Enfim, se o mundo queria problemas a serem administrados em uma época onde alguns conclamam as Guerras Santas, está aí um prato cheio deles.
A primeira impressão do novo Papa não pode ser levada em conta. Não parece ser carismático e midiático como João Paulo II que, mesmo conservador, aparecia aos olhos do público com jeito simpático e, até, bonachão. Mesmo conservador, Wojtyla dava a impressão de que era um defensor dos dogmas, mas não um ranzinza, o que amenizava um pouco seu posicionamento. João Paulo II, apesar de suas defesas dogmáticas, abriu conversações com outras religiões e pregou, de alguma maneira, uma postura ecumênica no mundo em defesa dos Direitos Fundamentais do Homem.
Pois aí está o novo Papa. Que, além de todos os desafios que o mundo moderno e seus avanços produzem todos os dias, vai ter de se equilibrar entre seu aparente excesso de Severinismo, ou melhor, conservadorismo, e a necessidade de integração, de compaixão e de entendimento entre os povos, independentemente de sua crença. O mundo espera que ele não seja tão fechado e ranheta quanto estão pintando. A paz agradece.
Nem todo mundo ficou satisfeito com a escolha de Joseph Ratzinger para o próximo pontificado. Mas alguns bateram palmas. Chico Bento jogou o chapéu para cima e deu um beijo na Rosinha: agora vai ter um homônimo famoso. Rubens Barrichello adorou e, ao que tudo indica, vai pedir a interferência da Ferrari para uma audiência com o novo Papa. Pretende beijar a mão de um alemão sem que isso levante nenhuma suspeita de maracutaia ferrarista.
Brincadeiras à parte, o certo é que Ratzinger, ou melhor, Benedito, ou melhor, Bento XVI, já chega causando arrepios. Primeiro, é alemão. Um alemão que, obviamente, não bebe. E um alemão que não bebe é, no mínimo, algo que deve provocar alguma suspeita. Em sua biografia consta uma passagem pela Juventude Hitlerista, uma organização paramilitar dos nazistas alemães. Mesmo com a justificativa de que tal alistamento era obrigatório e a afirmação de que seu (dele) pai e ele eram contra o nazismo (tanto que o jovem Ratzinger desertou), isso constitui um certo problema na relação com os judeus. Ponto para a polêmica e para os calafrios.
Mas o problema mesmo é na reconhecida postura conservadora de Ratzinger que, acredita-se, deve ser mantida agora que ele se torna Bento XVI. O novo sumo-pontífice coloca-se frontalmente contra os principais motivos de discussões no mundo de hoje. Tido com um dos maiores guardiões dos dogmas do catolicismo atualmente, segundo os especialistas, o Papa Bento XVI declara: "A igreja classifica os casamentos homossexuais como imorais, artificiais e nocivos". Ponto para a discórdia. Outra frase: "A Igreja Católica é a mãe de todas as igrejas cristãs. Por isso, outras igrejas não devem ser consideradas 'irmãs' da Igreja Católica". Mais um ponto para a discórdia. Bento XVI também se declarou contra o aborto, a pesquisa das células-tronco, a eutanásia e, até, contra o rock e a música pop. Afirmou que as denúncias de pedofilia eram uma orquestração contra a Igreja Católica. Enfim, se o mundo queria problemas a serem administrados em uma época onde alguns conclamam as Guerras Santas, está aí um prato cheio deles.
A primeira impressão do novo Papa não pode ser levada em conta. Não parece ser carismático e midiático como João Paulo II que, mesmo conservador, aparecia aos olhos do público com jeito simpático e, até, bonachão. Mesmo conservador, Wojtyla dava a impressão de que era um defensor dos dogmas, mas não um ranzinza, o que amenizava um pouco seu posicionamento. João Paulo II, apesar de suas defesas dogmáticas, abriu conversações com outras religiões e pregou, de alguma maneira, uma postura ecumênica no mundo em defesa dos Direitos Fundamentais do Homem.
Pois aí está o novo Papa. Que, além de todos os desafios que o mundo moderno e seus avanços produzem todos os dias, vai ter de se equilibrar entre seu aparente excesso de Severinismo, ou melhor, conservadorismo, e a necessidade de integração, de compaixão e de entendimento entre os povos, independentemente de sua crença. O mundo espera que ele não seja tão fechado e ranheta quanto estão pintando. A paz agradece.
18/04/2005
A Não-Bela e a Fera
(publicada no Caderno Metrópole do jornal O Dia, de Teresina, em 17 de abril de 2005)
Poucos casais são tão harmoniosamente desprovidos de harmonia estética quanto Charles e Camila. Ter os dois como Príncipe e Princesa do Reino Unido chega a ser, de certa forma, um chute nos países baixos das convicções sobre o que é o amor, adquiridas através dos contos de fadas onde lindas mocinhas brancas e loiras são resgatadas das garras de dragões ferozes por belos, altivos e imponentes herdeiros de um trono qualquer. Dessa vez, pelo menos aos olhos dos que vêem a vida pelo lado errado do binóculo, o príncipe matou a princesa e levou o dragão para, juntos, viverem felizes para sempre no Castelo de Windsor. Pura miopia. Vista pelo lado certo do binóculo, a estória de Charles e Camila pode ser, sim, um conto de fadas muito mais do que moderno: quase de vanguarda. E exemplar sobre as verdadeiras relações.
Charles, mesmo sendo uma espécie de patinho feio da realeza mundial, é um príncipe. Certo, de uma monarquia meio caída, pelancuda. Mas realeza, convenhamos. Assim, poderia se dar ao luxo de ter tudo o que quisesse. Hoje em dia se compra tesão, se compra ereções "firmes como rocha", se compra seios, bundas, sorrisos e, sabe lá, amor verdadeiro. Charles tentou, até. Casou-se com a jovenzinha linda e doce, que virou xodó mundial e, ao que parece, era doce demais para ele. Charles, ao que parece ainda e, acredito, Freud até explica, queria ter ao seu lado menos doçura e mais força, menos candura e mais ranger de dentes. Queria uma mulher que não fosse um bibelô, mas que o desafiasse de alguma forma. Ele, um príncipe da Inglaterra, não precisava de alguém submisso. Bem, se sua Lady Diana não era exatamente submissa, parecia. Sir Charles precisava de alguém que fizesse seu coração bombear seu sangue azul bem mais depressa. E isso só aquela anti-belezura da Camila conseguiu. Tanto que, mesmo depois de muitos anos, de escândalos, de piadas em todo o mundo e de noites e noites de telefonemas, encontros e desejos furtivamente saciados, Charles leva sua amada para o castelo, senão o de Windsor, pelo menos o castelo construído pelo seu amor. E o que isso tem a ver com vanguarda, beleléu? Justamente essa capacidade de assumir que se ama alguém fora dos padrões. De se passar por cima da estética, da aparência, da valorização exacerbada do parecer. Na verdade, é preciso ser e ter. E não apenas parecer amor. Isso é amor de vanguarda. Porque amor, hoje, para a maior parte das pessoas, é o parecer que é. A impressão que se tem de Charles e Camila, meio que corroborada pelo episódio telefônico do tampax, é que eles, em toda a plenitude da sua desbeleza, se chutam, se chamam de chihuaua e se jogam na parede. E estão pouco se lixando. O amor de Charles e Camila, seja por necessidade ou por ser amor, mesmo, sobreviveu a muitas e muitas intempéries nos dias nublados que teimam em pairar sobre Londres. As pessoas querem amar apenas em dias de sol, onde tudo é mais fácil, mais luminoso e caliente.
O amor de Charles e Camila é bonito, por ser discreto e pouco espalhafatoso. Parece que é amor, mesmo. Até prova em contrário, é o amor que, à maneira dos contos de fadas, vai acabar com um grande letreiro "e foram felizes para sempre". Eles são lindos.
Poucos casais são tão harmoniosamente desprovidos de harmonia estética quanto Charles e Camila. Ter os dois como Príncipe e Princesa do Reino Unido chega a ser, de certa forma, um chute nos países baixos das convicções sobre o que é o amor, adquiridas através dos contos de fadas onde lindas mocinhas brancas e loiras são resgatadas das garras de dragões ferozes por belos, altivos e imponentes herdeiros de um trono qualquer. Dessa vez, pelo menos aos olhos dos que vêem a vida pelo lado errado do binóculo, o príncipe matou a princesa e levou o dragão para, juntos, viverem felizes para sempre no Castelo de Windsor. Pura miopia. Vista pelo lado certo do binóculo, a estória de Charles e Camila pode ser, sim, um conto de fadas muito mais do que moderno: quase de vanguarda. E exemplar sobre as verdadeiras relações.
Charles, mesmo sendo uma espécie de patinho feio da realeza mundial, é um príncipe. Certo, de uma monarquia meio caída, pelancuda. Mas realeza, convenhamos. Assim, poderia se dar ao luxo de ter tudo o que quisesse. Hoje em dia se compra tesão, se compra ereções "firmes como rocha", se compra seios, bundas, sorrisos e, sabe lá, amor verdadeiro. Charles tentou, até. Casou-se com a jovenzinha linda e doce, que virou xodó mundial e, ao que parece, era doce demais para ele. Charles, ao que parece ainda e, acredito, Freud até explica, queria ter ao seu lado menos doçura e mais força, menos candura e mais ranger de dentes. Queria uma mulher que não fosse um bibelô, mas que o desafiasse de alguma forma. Ele, um príncipe da Inglaterra, não precisava de alguém submisso. Bem, se sua Lady Diana não era exatamente submissa, parecia. Sir Charles precisava de alguém que fizesse seu coração bombear seu sangue azul bem mais depressa. E isso só aquela anti-belezura da Camila conseguiu. Tanto que, mesmo depois de muitos anos, de escândalos, de piadas em todo o mundo e de noites e noites de telefonemas, encontros e desejos furtivamente saciados, Charles leva sua amada para o castelo, senão o de Windsor, pelo menos o castelo construído pelo seu amor. E o que isso tem a ver com vanguarda, beleléu? Justamente essa capacidade de assumir que se ama alguém fora dos padrões. De se passar por cima da estética, da aparência, da valorização exacerbada do parecer. Na verdade, é preciso ser e ter. E não apenas parecer amor. Isso é amor de vanguarda. Porque amor, hoje, para a maior parte das pessoas, é o parecer que é. A impressão que se tem de Charles e Camila, meio que corroborada pelo episódio telefônico do tampax, é que eles, em toda a plenitude da sua desbeleza, se chutam, se chamam de chihuaua e se jogam na parede. E estão pouco se lixando. O amor de Charles e Camila, seja por necessidade ou por ser amor, mesmo, sobreviveu a muitas e muitas intempéries nos dias nublados que teimam em pairar sobre Londres. As pessoas querem amar apenas em dias de sol, onde tudo é mais fácil, mais luminoso e caliente.
O amor de Charles e Camila é bonito, por ser discreto e pouco espalhafatoso. Parece que é amor, mesmo. Até prova em contrário, é o amor que, à maneira dos contos de fadas, vai acabar com um grande letreiro "e foram felizes para sempre". Eles são lindos.
O Pop Star da Fé
(publicada no Jornal O Dia, de Teresina, no dia 10 de abril de 2005)
Tenho quase que convicção de que João Paulo II foi a pessoa mais fotografada do milênio. Mais do que Lady Di, mais do que Ronaldo Grávido Fenômeno, mais do que Marilyn Monroe. Se algum dia fizerem uma pesquisa séria sobre isso, aposto que dá João Paulo II em primeiro lugar. Afinal, foram 26 anos liderando uma das maiores instituições do mundo e seus mais de um bilhão de fiéis.
Alguns criticaram um suposto excesso na cobertura da imprensa mundial na morte de Wojtyla. Outros criticaram o Vaticano pela demora nos funerais, ou por certo exagero na exibição do sofrimento e do corpo sem vida do Papa Peregrino. Não podia ter sido diferente, lá vou eu discordando de tanta gente outra vez.
João Paulo II não era, simplesmente, um Papa. Era o Papa da Mídia. Wojtyla foi alçado à condição de sucessor de Pedro, o Pescador, no fim dos anos 70, quando o mundo conheceu a Revolução da Comunicação, a explosão da mídia e da Internet. Para muitos, talvez a grande maioria da população mundial, João Paulo II era "O" Papa. Poucos tinham visto um antes dele.
Sua biografia parece ter sido criada por um roteirista, de tão perfeita para um mito. Foi pobre, ficou órfão aos nove anos, sofreu na II Guerra, era esportista e foi até goleiro (o que mostra que, desde jovem, acreditava no sofrimento como expiação dos pecados). Tudo em Wojtyla o faria o mais midiático dos papas. Sua eleição em meio ao trauma da morte de dois antecessores em um mês. O fato de ser polonês, em plena Guerra Fria. O atentado em meio à multidão e gravado em vídeo. O perdão ao atirador. O beijo no solo de cada país, nunca antes visto. As multidões que o acompanhavam em cada viagem. O posicionamento contra o comunismo. Sua capacidade de falar na língua de cada povo. Sua postura obviamente conservadora, contra o aborto e a camisinha em plena era da AIDS e da afirmação dos direitos dos homossexuais, que ajudou a acender muitas polêmicas. O pedido de perdão pela Inquisição. Sua doença pública. Sua agonia. Tudo, tudo fazia de Karol Wojtyla, que já tinha sido ator, o pop star da fé, o John Wayne da Igreja. Engana-se quem reclama da cobertura dada aos seus funerais. Nada mais natural que o último ato deste espetáculo de competência midiática termine em uma grande apoteose, junto ao seu público fiel e devotado. Até porque, na verdade, praticamente todos os ritos foram seguidos como sempre foram. A diferença é que nunca foram transmitidos ao vivo nem pela Internet, como agora. E o avassalador número de fiéis que foram ao Vaticano é fruto da competência e do carisma de Wojtyla.
É difícil perceber quando se está dentro de um fato histórico, que tem, quase sempre, a aparência de uma banalidade ou uma chateação para quem o vive. Quem assim pensa deveria mesmo era aproveitar este momento para descobrir quem era, o que pensava, o que representava alguém capaz de gerar tanta controvérsia e tanta admiração. Admire-se suas idéias e posições ou não, João Paulo II é um dos maiores símbolos do que a compreensão do que é gente, do que é comunicação e do que o saber como usar a comunicação para chegar às pessoas pode fazer.
Agora, os cardeais reunidos no Conclave têm uma missão muito, muito mais árdua do que escolher outro papa. Eles têm de escolher um novo mito. Não vai ser fácil.
Tenho quase que convicção de que João Paulo II foi a pessoa mais fotografada do milênio. Mais do que Lady Di, mais do que Ronaldo Grávido Fenômeno, mais do que Marilyn Monroe. Se algum dia fizerem uma pesquisa séria sobre isso, aposto que dá João Paulo II em primeiro lugar. Afinal, foram 26 anos liderando uma das maiores instituições do mundo e seus mais de um bilhão de fiéis.
Alguns criticaram um suposto excesso na cobertura da imprensa mundial na morte de Wojtyla. Outros criticaram o Vaticano pela demora nos funerais, ou por certo exagero na exibição do sofrimento e do corpo sem vida do Papa Peregrino. Não podia ter sido diferente, lá vou eu discordando de tanta gente outra vez.
João Paulo II não era, simplesmente, um Papa. Era o Papa da Mídia. Wojtyla foi alçado à condição de sucessor de Pedro, o Pescador, no fim dos anos 70, quando o mundo conheceu a Revolução da Comunicação, a explosão da mídia e da Internet. Para muitos, talvez a grande maioria da população mundial, João Paulo II era "O" Papa. Poucos tinham visto um antes dele.
Sua biografia parece ter sido criada por um roteirista, de tão perfeita para um mito. Foi pobre, ficou órfão aos nove anos, sofreu na II Guerra, era esportista e foi até goleiro (o que mostra que, desde jovem, acreditava no sofrimento como expiação dos pecados). Tudo em Wojtyla o faria o mais midiático dos papas. Sua eleição em meio ao trauma da morte de dois antecessores em um mês. O fato de ser polonês, em plena Guerra Fria. O atentado em meio à multidão e gravado em vídeo. O perdão ao atirador. O beijo no solo de cada país, nunca antes visto. As multidões que o acompanhavam em cada viagem. O posicionamento contra o comunismo. Sua capacidade de falar na língua de cada povo. Sua postura obviamente conservadora, contra o aborto e a camisinha em plena era da AIDS e da afirmação dos direitos dos homossexuais, que ajudou a acender muitas polêmicas. O pedido de perdão pela Inquisição. Sua doença pública. Sua agonia. Tudo, tudo fazia de Karol Wojtyla, que já tinha sido ator, o pop star da fé, o John Wayne da Igreja. Engana-se quem reclama da cobertura dada aos seus funerais. Nada mais natural que o último ato deste espetáculo de competência midiática termine em uma grande apoteose, junto ao seu público fiel e devotado. Até porque, na verdade, praticamente todos os ritos foram seguidos como sempre foram. A diferença é que nunca foram transmitidos ao vivo nem pela Internet, como agora. E o avassalador número de fiéis que foram ao Vaticano é fruto da competência e do carisma de Wojtyla.
É difícil perceber quando se está dentro de um fato histórico, que tem, quase sempre, a aparência de uma banalidade ou uma chateação para quem o vive. Quem assim pensa deveria mesmo era aproveitar este momento para descobrir quem era, o que pensava, o que representava alguém capaz de gerar tanta controvérsia e tanta admiração. Admire-se suas idéias e posições ou não, João Paulo II é um dos maiores símbolos do que a compreensão do que é gente, do que é comunicação e do que o saber como usar a comunicação para chegar às pessoas pode fazer.
Agora, os cardeais reunidos no Conclave têm uma missão muito, muito mais árdua do que escolher outro papa. Eles têm de escolher um novo mito. Não vai ser fácil.
Quero Ser John Malkovitch
Diogo Mainardi é um chato. Muito. Mas eu gosto do Mainardi. Gosto de pessoas chatas. Pessoas chatas como o Mainardi são importantes para a vida. Gente chata é uma dádiva. E o Brasil precisa de um Diogo Mainardi. Nem que seja pra gente detestar ele. Ele é pago pra isso. Pra ser detestado. É pago para ser chato e receber centenas de cartas. A maioria dizendo que ele é chato. Ou seja: ele é pago pra um monte de gente, que não tem o que fazer, ter o que fazer escrevendo pra dizer uma coisa que ele e todo mundo já está cansado de saber.
Diogo Mainardi disse que vai deixar de falar do Lula. Não sei porque. É bom quando ele fala do Lula. Principalmente quando ele critica o Lula. Mais ainda quando ele fala um monte de bobagens sobre o Lula. O Lula precisa do Diogo Mainardi. Assim como Michael Jackson precisa de escândalos. Penso em fazer um abaixo assinado exigindo que Mainardi só fale do Lula. Não sei bem quem é criador e criatura. Na verdade acho, até, que quem paga o Mainardi é o próprio Lula. Não sei. Pode ser. Deve ser. Mainardi deve ser funcionário do Planalto. Deve ter algum tipo de mordomia. Deve estar em todos os churrascos. Deve jogar futebol com o Demônio de Garanhuns. Deve até ter sido Mainardi quem criou o Demônio de Garanhuns. Deve ter cortesia no Luxosão. Luxosão é a nova versão do Sucatão. É o outro nome do Aerolula. Acredito que deve ter uma poltrona especial pro Mainardi no Aerolula. E uma caixa de charutos. E de vez em quando eles viajam juntos e combinam tudo.
Mainardi diz que cansou porque o governo do Lula é um filme vagabundo. E que fez tudo o que fez porque via o governo Lula como se vê um filme B no cinema. Vaiando, assobiando e jogando pipoca pra cima. Que filme vagabundo quanto pior melhor. De certa forma, ele tem razão. Não concordo quanto ao governo. Mas filme vagabundo se vê é assim mesmo. Achando graça dos defeitos especiais. É bom ver um filme vagabundo de vez em quando. Diverte. Mas quem grita em cinema é mal educado. Quem assovia e joga pipoca pro alto é sem educação. Isso é coisa de menino mimado. Mainardi deve ter sido um menino mimado. Não levou tapa na bunda. E é mal educado. Mas eu gosto dele. Gosto de meninos malcriados e chatos. Porque a gente aprende como não se deve criar um filho. E de vez em quando dá um peteleco na orelha dele. Do malcriado, não dos filhos. A não ser que sejam malcriados. Esse é meu peteleco na orelha do Mainardi. Um cascudo. Pra deixar de ser malcriado e chato.
Não perco uma coluna do Mainardi. Ele nem sabe que eu existo. Provavelmente, se souber, não vai mover um músculo. Não vai mexer a pálpebra esquerda. Se ele deixar de falar mal do Lula, não vou mais ler a coluna dele. Vou ser o Mainardi do Mainardi. Vou ser chato como ele, mas me dirigindo a ele. Vou pedir entrevistas que ele não vai me conceder. Vou mandar a G Magazine com o Clodovil na capa pra ele. Não escrevo tão bem quanto ele, mas vou escrever cartas para ele. Mandar e-mails pra ele. Vou atazaná-lo. Ele vai ser o meu bordão. Vou copiar o jeito dele escrever. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas vou fazer. Dane-se.
Eu adoro o Mainardi.
Diogo Mainardi disse que vai deixar de falar do Lula. Não sei porque. É bom quando ele fala do Lula. Principalmente quando ele critica o Lula. Mais ainda quando ele fala um monte de bobagens sobre o Lula. O Lula precisa do Diogo Mainardi. Assim como Michael Jackson precisa de escândalos. Penso em fazer um abaixo assinado exigindo que Mainardi só fale do Lula. Não sei bem quem é criador e criatura. Na verdade acho, até, que quem paga o Mainardi é o próprio Lula. Não sei. Pode ser. Deve ser. Mainardi deve ser funcionário do Planalto. Deve ter algum tipo de mordomia. Deve estar em todos os churrascos. Deve jogar futebol com o Demônio de Garanhuns. Deve até ter sido Mainardi quem criou o Demônio de Garanhuns. Deve ter cortesia no Luxosão. Luxosão é a nova versão do Sucatão. É o outro nome do Aerolula. Acredito que deve ter uma poltrona especial pro Mainardi no Aerolula. E uma caixa de charutos. E de vez em quando eles viajam juntos e combinam tudo.
Mainardi diz que cansou porque o governo do Lula é um filme vagabundo. E que fez tudo o que fez porque via o governo Lula como se vê um filme B no cinema. Vaiando, assobiando e jogando pipoca pra cima. Que filme vagabundo quanto pior melhor. De certa forma, ele tem razão. Não concordo quanto ao governo. Mas filme vagabundo se vê é assim mesmo. Achando graça dos defeitos especiais. É bom ver um filme vagabundo de vez em quando. Diverte. Mas quem grita em cinema é mal educado. Quem assovia e joga pipoca pro alto é sem educação. Isso é coisa de menino mimado. Mainardi deve ter sido um menino mimado. Não levou tapa na bunda. E é mal educado. Mas eu gosto dele. Gosto de meninos malcriados e chatos. Porque a gente aprende como não se deve criar um filho. E de vez em quando dá um peteleco na orelha dele. Do malcriado, não dos filhos. A não ser que sejam malcriados. Esse é meu peteleco na orelha do Mainardi. Um cascudo. Pra deixar de ser malcriado e chato.
Não perco uma coluna do Mainardi. Ele nem sabe que eu existo. Provavelmente, se souber, não vai mover um músculo. Não vai mexer a pálpebra esquerda. Se ele deixar de falar mal do Lula, não vou mais ler a coluna dele. Vou ser o Mainardi do Mainardi. Vou ser chato como ele, mas me dirigindo a ele. Vou pedir entrevistas que ele não vai me conceder. Vou mandar a G Magazine com o Clodovil na capa pra ele. Não escrevo tão bem quanto ele, mas vou escrever cartas para ele. Mandar e-mails pra ele. Vou atazaná-lo. Ele vai ser o meu bordão. Vou copiar o jeito dele escrever. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas vou fazer. Dane-se.
Eu adoro o Mainardi.
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