28/07/2005

O Presidente Jatobá

Para dizer a verdade eu acho o Jatobá um chato. Para mim ele é o Chatobá. E, além do Chatobá, eu acho o Marcos Frota um chato. Não sei porquê. Ele não me fez nada. Ele não me atingiu em nada. Mas eu acho. O Chatobá ainda é mais chato que o Marcos Frota. Porque o Chatobá é uma mistura do velho Mac Gyver com o Stevie Wonder. E, agora, deu para andar cercado de chatobazinhos. Uma espécie de Michael Jackson que não enxerga um palmo adiante do nariz. Sei da importância social do Jatobá, digo, Chatobá. Os portadores de deficiência visual, que no meu tempo se podia chamar de cegos sem medo de ser tachado de preconceituoso, claro que se sentem representados. O personagem valoriza os cegos. Mostra que um portador de deficiência visual não é um inválido. Mas isso a gente sabe. Eu sei desde criança. Eu tenho cds do Ray Charles, que era cego. E gênio. E rico. E negro. Ou afro-americano. Mas poderiam ter arrumado um cego menos chato que o Chatobá. Agora, além de ser obrigado a ver novela ao invés de assistir XVII de Xapuri x Santa Mônica de Alagoas, sou obrigado a ver a trupe do Chatobá todos os dias na tv. Chatobá e os chatobazinhos. Chatobá, a ex-Salete chorona, outros dois e ainda o filho do Roberto Carlos. O Roberto Carlos já é chatíssimo, o filho dele, então, nem se fala. Sei que basta desligar ou mudar de canal. Eu sei. Mas não dá. Chatobá é um caso de amor e ódio. Ele me enche o saco, mas eu quero ver. É como depoimento nas CPIs: nada pode ser mais chato, mas a gente fica querendo ver. Ainda mais agora que tem capítulos diários. Tem vilão. Tem bandido. Tem pretensa heroína. Tem piada. Tem tramóia. Tem briga. Tem aliança. Tem dinheiro na cueca. Tem Polícia Federal. Tem traição. Melhor tirar do ar o Chatobá e deixar a Heloísa Helena. Chato por chato, melhor a Heloísa Helena. Que é menos chata, também, que a Haydeé. Haydeé, a mulher do Glauco. Haydeé, a cleptomaníaca que vai substituir Delúbio Soares na tesouraria do PT. Sob o olhar atento de Chatobá, que enxerga tudo. Chatobá dirige carro. Chatobá dança tango. Chatobá toca tuba. Chatobá é neurocirurgião. Chatobá é surfista. Chatobá é trapezista. Chatobá pilota jato. Chatobá paquera a mulherada piscando o olho. Chatobá consegue fazer tudo que um ser humano com dois olhos bons não consegue. Chatobá é a outra identidade de Matt Murdock, que é a identidade secreta do Demolidor, o único super-herói deficiente da Marvel. Chatobá deve ser chamado pela CPI para dizer o que viu. Chatobá vê tudo. Dizem que foi ele quem viu os dólares no cuecão. Dizem que foi ele quem viu os dólares na mala. Dizem que foi ele que denunciou a Daslu. Dizem que ele é candidato a presidente. Não duvido. Jatobá, o Chatobá, é onipotente, onisciente, onipresente. Porque não pode ser presidente? Eu não voto em Chatobá. Mas ele pode ser uma boa opção. Depois de um presidente sem dedinho, porque não um presidente ceguinho? Depois de um presidente que não viu nada, porque um que não vê mas, pelo menos, enxerga? Eu acho o Jatobá um chato. Mas é melhor o Chatobá ser o sucessor do Lula. Ou, então, a gente compra um cão-guia e leva pro Planalto. Porque o pior cego é o que não quer ver. Vai ver o Lula não quer. Mas o Jatobá morre de vontade.

21/07/2005

CSI Teresina

Diz a lenda que, um dia, em uma terra distante e há muitos e muitos anos, apareceu decapitado um homem. Tudo que se pôde deduzir foi que a arma do crime foi uma pá. O culpado? Parecia impossível saber. Inimigos o morto não tinha. Testemunhas, nenhuma. E, naquelas terras, eram todos agricultores e em todas as casas havia uma ou, até, mais de uma pá. Como saber o autor de tão bárbaro crime? Um sábio, muito mais sábio que todos os sábios juntos, sugeriu ao imperador que mandasse todos os homens do reino buscarem em casa suas pás e se reunirem em frente ao palácio. Assim o imperador procedeu. Todos os homens reunidos, o sábio pediu que fossem levantadas para o alto as pás e que, nessa posição, todos permanecessem. E assim, durante horas, os homens do reino mantiveram pás levantadas aos céus, sem nada compreender. Até que, satisfeito, o sábio pediu que baixassem as pás, chamou o imperador e indicou o assassino. Curioso, o imperador perguntou como era possível saber o culpado com tão simples atitude. E o sábio mostrou que, em apenas uma das pás, moscas haviam se juntado, atraídas pelo sangue mal lavado ainda existente na ponta da pá do criminoso. Nascia a perícia criminal. Isso foi há milhares de anos. E ninguém sabe se é mesmo uma lenda ou um fato. E o que isso tem a ver com o que acontece no Brasil de hoje? Tem que no Piauí, por exemplo, o Instituto Médico Legal não dispõe sequer de um aparelho de raios-X. Os recursos mais utilizados são a mera dedução e a observação, além da experiência e dedicação de meia dúzia de abnegados profissionais utilizando métodos quase tão antigos quanto o mais primitivo conhecimento científico humano. Mal acostumado ao assistir a série CSI na TV por assinatura, me impressionei ao saber disso. Imagino não ser improvável que inocentes possam estar presos pela possibilidade de que algo que prove sua inocência não seja descoberto, pelo total desaparelhamento da perícia do Estado. Ou, ao contrário, que culpados estejam nas ruas pela incapacidade de se terem provas técnicas que concluam de forma incontestável a sua culpa. Não faço a mínima idéia de quanto custa um aparelho de raios-X. Nem imagino quanto custam aparelhos mais sofisticados que possam auxiliar os peritos. Não tenho como imaginar o que é realmente essencial para que esse trabalho seja desempenhado de forma minimamente condizente com o conhecimento disponível no século XXI. Mas o que eu, você e o Brasil inteiro estamos vendo, ou melhor, comprovando, já que há anos a gente finge que não vê tudo isso que está aí, são os porquês de hospitais com doentes morrendo nos corredores, escolas sem vagas, bandidos fechando túneis com armas de guerra, carros de polícia sem gasolina para andar, bombeiros com mangueiras furadas para combater incêndios: é que os recursos para isso estão viajando em cuecas, malas e sabe mais Deus o quê pelos céus do Brasil. É porque já passamos por uma ditadura, por um Sarney, por um PC e um Collor, por dois FHC e, agora, por Delúbios e Valérios, e não tivemos a coragem de extirpar a verdadeira origem de suas existências: o descaso, a politicagem, o cinismo, a mentira, a cara-de-pau, a impunidade. Os únicos inocentes nisso tudo são os que sofrem com a falta de condições mínimas de sobrevivência. De resto, somos todos culpados. Até que a coragem derrote a esperança, o medo e a decepção. O Brasil está com as entranhas abertas. É hora de tirar o tumor.

14/07/2005

De picaretas e publicitários

O mais chato de tudo é ter de ouvir certas piadinhas. Sim, porque, para meu infortúnio, sou: publicitário, mineiro e careca. Eu, que já tive que, durante anos, agüentar ser chamado de André Cajarana por causa de uma novela, agora sou obrigado a ouvir: "publicitário, hein? Mineiro, hein? Careca, hein?". Deixo aqui o meu protesto e, mesmo sem precisar, me defendo: sou mais publicitário que o tal Valério já que, até onde se sabe, nunca escreveu nem anúncio em obituário. Sou calvo, não sou careca. Ele, sim, que tem cabeça de ovo e, pelo mostrado na tv, lavada com óleo de peroba. E, bem, sou mineiro, sim, mas de Niterói, que fica no Rio de Janeiro. Não, não estou renegando minha mineirice, muito ao contrário: o tal Marcos Valério é que deve ser um mineiro paraguaio, tão falso que é incapaz de assumir uma calvície e raspa a cabeça para parecer que é careca por estilo. Sou um mineiro que nasceu por acidente do lado de fora das montanhas mas carrego, no DNA (caramba, essa é uma empresa do talzinho), o gene que me faz salivar diante de um pedaço de queijo, que me faz acreditar que o mundo não é redondo e achatado nos pólos, mas montanhoso e com cachoeiras nas bordas, que me faz dormir sonhando em acordar em uma piscina de doce de leite e que provoca reações cardíacas inexplicáveis em dia de Cruzeiro x Atlético.
Longe de mim, ainda, querer defender uma classe. Não sou homem de classes. Posso até ser classudo, dependendo do ponto de vista e apesar disso gerar muita controvérsia. Mas não creio em corporativismos nem em intransigentes posições acima do bem e do mal quando se trata de elogiar, criticar ou analisar quem quer que seja. Mas me sinto, por força das amizades que tenho no meio, com a obrigação de dizer que Marcos Valério não é publicitário. A profissão dele é outra: picareta. Favor não confundir as coisas. Picaretas existem em todos os meios, em todas as classes. Na publicidade existem muitos. Conheço vários, apesar de nunca ter visto antes um tão picareta quanto o Valério, que parece ser algo assim um João Paulo II da picaretagem. Eles são conhecidos por ganharem muito dinheiro mesmo sem serem diretores de arte, nem redatores, nem mídias, nem atendimentos, gente que trabalha duro, na maioria das vezes, por salários tão baixos quanto os de profissionais de qualquer setor. Marcos Valérios não sabem o que é publicidade: sabem o que é dinheiro fácil, de origem duvidosa e o que é esquema. É fácil reconhecer um Marcos Valério: gostam de andar de jatinho emprestado, não adotam posições ideológicas, acham lindo jantar em restaurantes finos com companhias importantes para contar aos amigos e serem vistos pelos concorrentes, adoram presentear secretárias de senadores e juram, de pés juntos, não serem mercenários: são profissionais. Como se profissionais não tivessem que ter, como premissa básica para assim serem vistos, caráter, ética e respeito. Então, por favor, parem com as galhofas contra publicitários. É melhor prestar atenção aos sinais exteriores de marcosvalerice e não misturar alhos com bugalhos. Antes de mais nada, vamos deixar de chamá-lo de publicitário. E também de empresário, gente que, em sua maioria, trabalha e produz. Pensando bem, melhor nem chamá-lo de cabeça de ovo, o que é um desrespeito aos ovos.
Vamos chamá-lo mesmo de picareta, desonesto, patife, mentiroso. É muito mais adequado.

23/06/2005

O Fim da Utopia

Thomas More apresenta Utopia como uma ilha, um lugar, um país onde a sabedoria e a felicidade do povo existem, pois nesse país há um sistema legal, social e político perfeito, dirigido pela razão. A Utopia é um lugar que fica na linha exata onde o céu se encontra com a terra: no horizonte. Porém, se damos um passo em direção a Utopia, ela se afasta um passo de nós. Se damos cinco passos, ela se afasta cinco passos. Se corremos, ela parece se distanciar na mesma velocidade e em direção contrária. Então, para que serve a Utopia se, por mais que se caminhe, nunca se chega a ela? Simples, diz Fernando Birri: serve para nos fazer caminhar até ela.
O Brasil Perfeito é uma espécie de Ilha da Utopia. Quanto mais caminhamos e tentamos chegar a ele, mais ele se afasta. O Brasil Perfeito não existe. E nunca vai existir. O Brasil Perfeito se encontra no sentido original da palavra utopia: "em lugar nenhum". O Brasil Perfeito é uma utopia na concepção moderna da palavra: uma quimera, uma fantasia, uma coisa irrealizável. Essa confusão toda de Brasília serve, mesmo que nem tudo seja verdade, para nos mostrar que o Brasil Perfeito nunca vai chegar. Para nos mostrar que não adianta esperar um partido perfeito, nem um presidente perfeito, nem uma oposição perfeita. Não existe um sistema perfeito, nem um salário-mínimo perfeito. Não podemos esperar uma escola perfeita, nem uma saúde perfeita. Não há como ficar esperando e caminhando com os olhos no amanhã perfeito, na justiça perfeita, na polícia perfeita, na seleção de futebol perfeita. Não podemos esperar nem mesmo mocinhos perfeitos, já que o mocinho da vez, como quase todos os que já surgiram, tem o pé na lama e dorme no covil do bandido, agarrado ao produto do roubo e, portanto, não é confiável. E o que fazer? Desistir?Às vezes é essa a sensação que nos dá esse país. A de que talvez seja melhor desistir e irmos cuidar dos filhos, de casa, de nossos cachorros e papagaios. E esquecer aonde vivemos e quem somos. Mas, se não vai existir nunca o Brasil Perfeito, será que não podemos, pelo caminho sem fim que leva a esse impossível Brasil Perfeito, deixar para os nossos, pelo menos, um Brasil Melhor?
Sartre, o aniversariante ausente da semana, afirmava entre tantas coisas, com o existencialismo, que não interessa as causas que nos levam a ser o que somos: nós mesmos somos os principais responsáveis por sê-lo. O Brasil precisa descobrir quem é, e deixar de querer ser, ou de dizer que é assim porque foi assim sempre. É preciso fazer, dos limões que temos, tão azedos, uma boa e refrescante limonada. Este é um país perfeitamente imperfeito. Assim como todos os outros. Não adianta esperar que uma ou muitas CPIs mudem o Brasil. O Brasil, que somos nós, é que deve mudar o Brasil. Chega de esperar salvadores ou de ficarmos, em frente à TV, nos deliciando com espetáculos onde, no final, a nossa é de mussarela. É melhor a gente mesmo construir o Brasil que é possível. Esse que está aí não é o nosso. Nós também não somos um povo perfeito, mas podemos fazer melhor. E bem depressa. Porque o trem que leva para Utopia não vai passar. Pode ter certeza.

16/06/2005

O País da Cara de Pau

Para Raimundo Uchoa

O que mais assusta nessa confusão em que o Brasil se vê envolvido, alimentada pelo Deputado Roberto Jefferson e suas declarações, não é a existência do "mensalão", nem o vídeo do pagamento de propina, nem mesmo que seja muito remota a possibilidade de que essa CPI chegue a algum termo minimamente condizente com os anseios de justiça do povo brasileiro. O que assusta, mesmo, é a cara-de-pau de quem está sentado em frente a outro cara-de-pau, fingindo que não sabe, que nunca viu, que não teve notícia ou como se a corrupção fosse algo estranho, inesperado ou assustadoramente inédito no país. Não é possível qualquer brasileiro minimamente inteligente acreditar que as denúncias do deputado cantor, ex-primeiro escalão da tropa de choque de presidente afastado por ter institucionalizado "oficialmente" a corrupção no país, sejam fruto apenas e tão somente de uma mente privilegiada e criativa, que inventou tudo e resolveu "derrubar a casa" do governo Lula. Se não é politicamente correto nem historicamente prudente afirmar que os nativos brasileiros eram corruptos antes da chegada de Cabral, não é arriscado dizer que a corrupção no Brasil pode ser documentalmente colocada como irmã gêmea do Descobrimento já que, na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, há um explícito pedido de favorecimento, amarrado ao teor emocional de uma correspondência que, certamente, deixou feliz o monarca: Caminha pede que seu genro, condenado por roubo e cumprindo pena de degredo em São Tomé, seja beneficiado com um "afrouxamento" da pena e mandado para o recém-descoberto novo território português. Ou seja: o tráfico de influência, forma de corrupção tão antiga quanto a "vida fácil", estava registrado, para sempre, no último parágrafo da primeira correspondência oficial redigida em nossas terras. Ou, no caso, em nossas águas. Daí, o susto: ou a classe política brasileira está vivendo na Ilha da Fantasia ou serra, todos os dias, seus longos narizes de madeira em frente ao espelho. Provavelmente, com serrotes fornecidos por nós mesmos, já que somos nós, com esse eterno desprezo que temos para com a reflexão antes de dar um voto, que os colocamos lá, no centro desse picadeiro chamado Brasília. Que, estranhamente, está mais para uma estranha polvorosa em torno do assunto do que mostrando alguém com sinais mínimos de verdadeira indignação. E isso, essa aparente falta de revolta, transmitida pela tv nos longos depoimentos ou nas entrevistas cheias de entrelinhas, nos deixa com uma dúvida: estariam nossos nobilíssimos representantes entorpecidos por uma longa exposição ao vírus da corrupção e, portanto, sem capacidade de indignação, ou estão mais assustados do que, verdadeiramente, preocupados? E, fazendo eco à pergunta do jornalista Ricardo Setti, do site No Mínimo: onde está a indignação do Presidente, tantas vezes demonstrada quando candidato, quando sindicalista e quando "lado de fora" do Palácio do Planalto? A conclusão pode ser: todos mentimos, todos nos enganamos, todos colaboramos ao ver, todos os dias, debaixo de nossos longos narizes encerados, deputados, senadores, prefeitos, vereadores, policiais, amigos, aderentes e parentes pagando propina, ganhando licitações fraudulentas, comprando voto, liberando em blitz, arranjando emprego público, furando fila no banco ou dando troco errado em padaria. Não, não somos um país de corruptos. Mas, pelo visto, estamos aos 40 minutos do segundo tempo, perdendo por dois a zero.
A essa altura, um empate já estaria de bom tamanho.

02/06/2005

Serra Leoa também é aqui

Não é preciso que ninguém nos diga que o Brasil é um país cheio de desigualdades, onde ricos e pobres estão separados pelo abismo da falta de educação, de saúde pública e de tantas outras faltas. Basta qualquer saída por qualquer cidade brasileira para ver o que os filmes de ficção científica mostram há tempos: a existência de mundos paralelos que se comunicam, eventualmente, através de portais que se abrem aleatoriamente. A diferença do Brasil para o mundo da ficção é que, no Brasil, para se mudar de uma dimensão para outra basta abrir a porta do carro.
Os números divulgados semana passada dando conta de que o Brasil só perde, quando o assunto é desigualdade na distribuição de renda, para Serra Leoa, apenas nos fazem constatar numericamente o que todo mundo vê: a cada dia mais gente tem menos, e menos gente tem mais. Segundo os dados, quase 22 milhões de brasileiros vivem, ou acham que vivem, com menos de 25% de um salário mínimo por mês, aproximadamente 75 reais. Mais: cerca de 54% dos brasileiros vivem, ou pensam que aquilo que eles fazem é viver, com meio salário mínimo por mês, aproximadamente 150 reais. A solução? Investimentos em educação, em saúde pública e no crescimento econômico. Então diga lá: se todo mundo sabe, se os economistas sabem, os políticos sabem, os publicitários sabem como resolver isso, porque essa mesma lenga-lenga há anos? Descaso? Corrupção? Canalhice? Incompetência? Ou vontade de ser o primeiro em tudo, inclusive nisso? Bem, se esse for o motivo, vou dar minha contribuição. Afinal, para derrotar um inimigo o primeiro passo é conhecê-lo.
A República da Serra Leoa é um país situado na região oeste da África, ao sul de Guiné e a nordeste da Libéria, com aproximadamente 5 milhões de habitantes, mais ou menos um terço da população da cidade de São Paulo. Cerca de 65% de sua população vive no campo, e sua taxa de analfabetismo é de 63,7%. Sua moeda é o leone, que eu não faço a menor idéia de quanto está valendo frente ao dólar. Cada mulher de Serra Leoa tem, em média, 6 filhos, e expectativa de vida de 39 anos, sendo a expectativa de vida dos homens de 39 anos. A taxa de mortalidade infantil de Serra Leoa é de 170 por mil. Sua renda per capta é de 140 dólares, o que significa pouco mais de 10 dólares, ou 25 reais por mês. Sua capital é Freetown, e o inglês é sua língua oficial. Além de ser o campeão mundial na desigualdade social, Serra Leoa é o país com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no mundo, e é presidido pelo ditador Alhaji Doctor Ahman Tejan Kabbah. Sei que não é muito, ainda, e prometo pesquisar um pouco mais. Mas creio que seja o suficiente para que nossos governantes prestem atenção nos números e percebam que, apesar de tantas diferenças ente os dois países, curiosamente há muitas semelhanças. E que para ultrapassar Serra Leoa não é preciso muito. Estamos cada vez mais perto. A gente chega lá. Só mais um pouco de descaso e incompetência e a gente consegue.

25/05/2005

O Pianista de Kent

Vamos descartar a hipótese de que o pianista misterioso de Kent seja um alienígena, programado ou desprogramado para passar um tempo por aqui e ser abduzido, lá na frente, com todos os nossos segredos guardados em uma pasta rosa. Hipótese por demais fantástica, considerando que uma civilização capaz de uma proeza dessas seja bem mais inteligente que a nossa e não ia deixar seu enviado logo na Inglaterra, tão perto do Príncipe Charles.
Vamos descartar, também, a possibilidade, bem mais real, de que o pianista loiro e mudo de Kent seja uma grande jogada de marketing, para se promover um filme, um livro, uma rede de lojas de roupas masculinas, um alguém ou um produto qualquer, que só vai ser revelado lá na frente. Capitalista demais pro meu gosto.
Vamos descartar, ainda, a teoria levantada por Tutty Vasques de que o pianista desmemoriado de Kent foi jogado de um transatlântico enquanto tocava uma música de Ivan Lins: hipótese por demais fantasiosa já que, se isso fosse verdade, ele teria sido enforcado antes.
Não consideremos que o pianista molhado de Kent seja um paulistano carregado pela enxurrada nas ruas de São Paulo e levado pela correnteza até a região. Hipótese pouco convincente, já que ele deveria ter se engasgado com algum coliforme gigante antes de chegar ao mar.
E, para acabar com essas especulações, vamos deixar pra lá a possibilidade de que o pianista que toca Beatles seja, apenas, alguém sem memória, porque essa seria uma versão muito simples e incondizente com um mistério tão bom de se tentar desvendar.
Particularmente, entre tantas hipóteses levantadas, prefiro ficar com uma que, aparentemente, ainda não foi colocada por ninguém: o pianista estranho de Kent, encontrado em uma praia da Inglaterra vestindo roupas finas mas com as etiquetas arrancadas, sem falar nada, mas tocando música erudita e Beatles, é, apenas, uma ilusão, uma alucinação coletiva. Ele não existe. O pianista esquisitão de Kent nada mais é que um pouco de cada um de nós, idealizado simultaneamente e projetado de forma holográfica em um lugar qualquer da Terra. Ele representa nossa vontade, em alguns ainda nem manifesta, de deixar de ser um outdoor ambulante. Daí as roupas sem griffe. Ele representa nossa vontade de sermos outros, de esquecermos quem somos nem que seja por alguns dias, e nos calarmos, e nos permitirmos ter medo, e mostrar nosso lado sensível e talentoso que ninguém nunca quis prestar atenção. O pianista meio amalucado de Kent, para mim, é um espectro, um modo que inventamos, sem saber, para nos rebelarmos contra as chatices dessa vida. E sermos quem temos vontade de ser. E vivermos em algum lugar que a gente goste, sem ninguém saber quem somos ou o nome dos nossos pais ou a rua em que a gente morava quando era criança. O pianista doidão de Kent é o que nós, pelo menos um dia em nossas vidas, desejamos ser: um mistério a ser desvendado, sim, mas que só vai ser revelado no dia em que a gente quiser, como a gente quiser, para quem a gente achar que deve.
Qualquer outra hipótese, para mim, está descartada. Até prova em contrário, o pianista esquecidinho de Kent é cada um de nós.

12/05/2005

O Amor Chantilly

Fritz Karl Vatel era suíço e "chef" particular do Príncipe de Condé, senhor do Castelo de Chantilly, a 35 quilômetros de Paris. Diz a lenda que Vatel, exímio cozinheiro, batendo com uma colher de madeira o gorduroso leite da região e adicionando açúcar e baunilha, inventou o maravilhoso creme de chantilly, servido a partir de então como iguaria sofisticada e de inigualável sabor. Mas Vatel, porém, não teve lá um fim muito, digamos, saboroso. Desesperado por um atraso na entrega de peixes quando preparava um banquete em homenagem a Luiz XIV, Vatel, o responsável pelo menu, suicidou-se, atirando seu corpo contra uma espada.
Ronaldo e Daniela se "casaram" neste mesmo castelo, onde se matou Vatel e onde foi criado o creme chantilly. Nada mais adequado, como se vê hoje. Afinal, ao que tudo indica com a tal separação dos dois depois do mais badalado casamento dos últimos anos, o amor deles é o que podemos chamar mesmo de "amor chantilly".
Quem já comeu um bom chantilly sabe que a primeira colherada traz um sabor desesperadamente bom. É uma experiência quase sublime: um creme macio, adocicado, de textura impossível de descrever, toca a língua da gente e nos deixa quase que em estado de êxtase. O mundo parece parar. É uma sensação de imortalidade e de superioridade. Naquele momento, no exato instante em que aquele pedacinho de nuvem açucarada e úmida entra na nossa boca, a vida parece ganhar um sentido. E a gente quer mais e, como sempre que se depara com algo extremamente bom, existe certa dificuldade em achar a medida das coisas. E vamos nos lambuzando de chantilly. Mas, aos poucos, a aparente sofisticação do creme vai sumindo. Acostumada à sensação, a língua percebe que aquele creme divinal nada mais é do que creme de leite, com certa gordura e um pouco de açúcar. Em seguida, fica sem graça, um creme qualquer. Sem gosto. Comum. Enjoativo, até. É por isso que dificilmente alguém come chantilly puro. Normalmente ele vem acrescido de morango, de pêssegos ou até de chocolate. Porque, puro, o chantilly fica repugnante em pouco tempo. Assim como o amor, o chantilly nasceu para ser um coadjuvante, não o astro principal. O chantilly, assim como o amor, não nasceu para ser colocado sob holofotes, porque derrete e vira água, uma estranha e feia água branca, que escorre e endurece em minutos.
Ronaldo e Daniela colocaram seu amor sob todos os holofotes do mundo. E não perceberam que era um amor chantilly, que derreteu e ressecou, e agora deixa um rastro feio e melequento. Ronaldo e Daniela inverteram uma lei universal: não se constrói um amor com festas em castelos, muito menos castelos de chantilly. Podemos construir castelos fazendo, do amor, uma festa. Além disso, festas de verdade não precisam de barulho. Muito barulho é, apenas, balbúrdia. A festa do amor não precisa de holofotes. Não precisa de gritaria. Não precisa de alarde, nem de pompa nem circunstância. O verdadeiro luxo e requinte do amor está no silêncio, e Mário Quintana resume: "Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos".
Ronaldo e Daniela, pelo visto, nunca leram Mário Quintana.

09/05/2005

Um Conto Simples

Para Cinéas Santos

Ela veste uma saiazinha azul cor de céu e camisa de flores, grandes, já meio murchas. Ele com camisa de propaganda de sabão em pó, por dentro da calça, cinturão de couro, R bem grande na fivela. Ela não usa nenhum penteado especial. Apenas um cabelo penteado, longo, molhado, cheirando a creme. Ele de bigode fino, homem do campo, cabelo parece não levar água há dias mas arrumado, grudado na cabeça. Ela sorri um sorriso sem um dente para ele, que o devolve sem dente algum na arcada superior.O restaurante é como todos de beira de estrada. Cachorro esquálido num canto, garrafas de cachaça, caixas de cerveja. Rádio AM misturado a motor de caminhão e cheiro de diesel. Toalhas xadrezes com furos de cigarro, restos de farofa e grãos de arroz. Uma imagem de São Cristóvão domina o ambiente. Alguém chega enquanto ela toma sua segunda Fanta laranja. Uma senhora, cheirando a água de colônia, vestido rosa-choque amassando os seios, grandes botões, três. O rapaz se levanta e estende a mão, desajeitado. A senhora banguela de rosa-choque senta, bufante, pés sujos de terra. Tira as havaianas, mexe os dedos, esfrega os joelhos e balbucia incomodada: "calô, né". Silêncio. A moça olha para o rapaz com timidez. Chegam três PFs grandes, bifes escorrendo pelas bordas, macarrão desbotado, feijão cai não cai. Outra Fanta laranja, uma Fanta uva e uma garrafa de água gelada. Comem sorrindo, garfos de lado, usando colheres e dedos. Conversam pouco e de boca cheia. Em poucos minutos a mesa por testemunho da pouca educação, moscas já aproveitando as sobras. Enquanto palita os raros dentes ele levanta, mete a mão no bolso, tira um pacotinho de plástico, de onde pulam duas argolas douradas, entregues à senhora banguela de rosa-choque. Ela põe o palito de palitar falta de dentes na mesa, pega as argolas e beija cada uma delas. Segura a mão direita da lacrimosa mocinha. Coloca a argola no dedo magro com unha "branco cintilante", beijando em seguida a mão da moça. Repete o gesto com a mão grossa do rapaz, e também o beijo. O casalzinho se abraça forte, ridículos tapinhas nas costas, ao som de gargalhadas enormes da senhora banguela de rosa-choque. O rapaz grita o garçom. Conversa animada sobre a vida e a muita chuva deste ano traz a conta bem depressa. Ele tira a nota de vinte da carteira surrada e manda guardar o troco. Deixa a sogra passar primeiro, dá a mão à noiva e sorri, pensando na nova vida, nos filhos que um dia vão ajudar na roça e na vaquinha que seu Domingos da Maroca está vendendo por "duzentos real". É um homem comprometido, agora.

28/04/2005

De Sofismas e Traseiros

Não é algo exatamente original afirmar que, de alguma forma, nós, publicitários, somos uma versão sofisticada, revista e atualizada dos antigos sofistas. Aliás, não custa lembrar que as palavras "sofística" e "sofisticada" têm a mesma origem, do grego "sophistezai", que significava "ficar sábio", "enganar". Mas, com o tempo, sofisticar, que significava "complicar", "retirar a naturalidade", passou a ser usado no sentido de "destacar pelas finas qualidades". Mea-culpa, mea-culpa, mea máxima culpa. Os sofistas gregos eram homens sábios e talentosos que, por interesse financeiro, usavam de sua sabedoria para ensinar aos interessados em ganhar projeção na então iniciante arte da política, com o uso da dialética e da persuasão. Górgias, um dos mais significativos representantes dos sofistas gregos, dá um bico na moral e ensina que é preciso vencer o adversário, seja a causa justa ou não. Declara que sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber, e não a persuasão que nos ensina sobre a natureza do que se pretende saber. Parece complicado? Não é. Quer dizer, em linguagem de gente, que um sofisma é uma verdade montada para vencer e convencer alguém. Não uma verdade palpável e concreta.
A propaganda, de certa maneira, inseriu, em sua conceituação, procedimentos éticos e morais que, mesmo fazendo dela algo que lembra a sofística, a afasta do lado negro da sabedoria. Mas ainda é parte integrante da propaganda, de forma subjetiva, o conceito de que é preciso destacar o lado bom das coisas a serem divulgadas e, se não mentir e esconder, tornar irrelevante o aprofundamento sobre um objeto, já que, a princípio, tudo pode ser contestado. Isso nos faz um símbolo da nossa era. Simplificamos ao máximo conceitos, criamos em frases simples e curtas verdades que são aceitas por milhões de pessoas por conta da repetição da mensagem, da força da televisão e da "mídia" que, hoje, é mais do que algo abstrato e conceitual: é tão presente e poderosa que imaginar que ela não está por aí é como acreditar que, por não podermos ver o ar, ele não existe.
Mas é preciso cuidado. A simplificação de conceitos e verdades pode levar a erros banais. Os deslizes de nosso presidente parecem ser um exemplo de como a simplificação exagerada pode levar a afirmações que beiram o ridículo. Talvez assessorado por algum neo-sofista/marketeiro, Lula afirma que o brasileiro paga juros altos por não ter coragem de levantar o traseiro das cadeiras dos botequins para procurar juros mais baixos. Não apenas foi deselegante e deseducado como criou algo próximo de um sofisma. Aliás, de baixíssima qualidade. Culpar a preguiça e as partes carnudas e globosas dos brasileiros pelas taxas que o próprio Governo Federal estipula e que estão entre as mais altas do mundo beira a irresponsabilidade. Não me parece que haja uma relação direta entre bundas e juros, a não ser a cara que a gente faz ao pagar nossas contas ou o aparente eterno desejo dos governantes em botar algo em algum lugar do povo.
Lula, o meu Presidente, precisa parar de querer jogar para a platéia e ver se, de uma vez por todas, bota o dele na cadeira e vai arrumar um jeito de se aprofundar nessas questões para poder dizer coisas mais sensatas. Ou, então, o dele é que vai acabar descobrindo o que é levar uma "pezada" do povo brasileiro.