13/01/2006

E você, não dá sua espiadinha?

Particularmente, acho genial a idéia do Big Brother. Essa coisa de podermos ver como se comporta um grupo de pessoas confinadas em uma casa, com suas diferenças, identidades, manias e desvios de caráter é algo absolutamente interessante. Porque isso de bisbilhotar a vida dos outros parece estar no nosso código genético. Desde que o mundo é mundo somos voyeurs da vida alheia. De certa forma, somos resultado das fofocas e das bisbilhotices que, durante anos, sofremos e fazemos em relação a tudo que nos cerca. É o que vemos nos outros e o que vêem e percebem e falam de nós que molda quem somos. Todo mundo é xereta de nascença. Hoje, onde qualquer um pode expor suas vidas em blogs, flogs, sexlogs e orkuts, e pode divulgar publicamente suas dores e amores com auxílio de câmeras digitais de 200 reais, parece que o ser humano assume definitivamente: somos, todos, indistintamente, futriqueiros, enxeridos e penetras da intimidade do vizinho. Esteja ele do outro lado do muro ou do lado de lá do planeta. E, por mais que aqui e ali digamos que não, somos, sim, exibicionistas, e adoramos quando nos tornamos alvo de olhares, comentários e algum tipo de futrica. Uma coisa meio "falem mal, mas falem de mim".
O que me incomoda no BBB é esse algo de manipulação um tanto quanto descarada e tola dos personagens. Nesse grupo de quatorze pessoas que se permite a visibilidade de suas neuras, o que temos? Pelo menos doze que formam, digamos, um grupo quase homogêneo. Gente com cara parecida, corpos quase idênticos, padrão comportamental muito aproximado, cérebros trabalhados em linha de montagem, exibicionistas, pseudomodelos alpinistas em busca de capas da Playboy e um ex-monge que, aparentemente, pretende ser o próximo Jean. E, desde quinta-feira, dois legítimos representantes, aí sim, da média do povo brasileiro: uma baiana com falhas na dentadura superior e um carioca baixinho e rechonchudo, o Danny de Vito da Pavuna. Particularmente, preferia que o BBB fosse todo feito com gente sorteada aleatoriamente. Nada contra as bundas redondinhas e as barrigas de tanquinho, até porque, no sorteio, elas poderiam estar lá. Mas o grande barato desse negócio é justamente a contradição, a briga por pontos de vista completamente opostos. Os romancezinhos pré-fabricados para atender pesquisas matam o principal elemento que poderia fazer, do BBB, algo mais que um entretenimento e, quem sabe, desculpe a pretensão, mostrar em rede nacional quem somos de verdade: a diversidade. Onde estão os gordos, os idosos, os analfabetos, os desdentados? Porque não um BBB de cada estado? Porque não um desses intelectuais chatíssimos para papos-cabeça com as modeletes burrinhas sobre Sartre, caindo depois para a importância da chapinha no mundo contemporâneo? Será que é pré-requisito a capacidade de dar gritinhos ridículos por qualquer coisa e desfilar o dia inteiro de biquíni e sunguinha "mamãe-sou-playboy-e-adoro-pitbull"? Adorei o Danny de Vito da Pavuna ter esculhambado a primeira prova do BBB, deixando o Pedro Bial com cara de tacho. Achei ótima a baiana com corpinho de dona de casa bonachona e sorriso falho. Pode ser que a gente consiga ver, além de glúteos bonitinhos e bíceps definidos, um pouco mais de naturalidade, de alegria espontânea, de angústias verdadeiras, de gente verdadeiramente comum. E, agora, dá um tempinho, que vou ali dar uma bisbilhotada.

06/01/2006

O Espectador Fiel

Assumo que sou um péssimo crítico de cinema. Reconheço. Mas isso me dá uma certa liberdade: a de elogiar, criticar ou ser desprezivelmente indiferente a qualquer filme sem receio dos policiamentos de uma certa "inteligentzia vigilantti", que insiste em se autoproclamar acima de qualquer suspeita de debilidade intelecto-cultural. Assim, livre de qualquer amarra pseudo-genial, digo o que senti na frente da telona. Isso me dá a liberdade, por exemplo, de dizer que acho Matrix de uma chatice sem tamanho, com aquele figurino black-kitsch e aqueles tons de verde beirando o insuportável. E de, inclusive, assumir que chorei assistindo "Os Dois Filhos de Francisco". Sim, chorei mesmo, e daí? Ele foi feito pra isso, a história é bonita e, apesar de toda a antipatia que nutro por duplas cantando escaramuças de amor de forma esganiçada, simpatizei com o filme. Claro, isso não me dá a mínima vontade de assisti-lo outra vez. Certas experiências só nos podemos permitir uma vez na vida. E está de bom tamanho ouvir "É O Amor" na voz de Maria Bethânia apenas uma vez. Tudo bem que o Brasil é brega, que as elites são bregas, que a Globo é brega, e que a gente tem mesmo de assumir a breguice latente no DNA brasileiro de vez em quando. Mas até mesmo isso tem limite. E o meu chegou nos letreiros finais e nos olhos úmidos. Acabou. Parabéns à dupla, e coisa e tal. Mas, Oscar? Convenhamos...
Agora, "O Jardineiro Fiel" é outra coisa. De encher, literalmente, os olhos. Fernando Meirelles mostra que Cidade de Deus não foi um acidente de percurso. Apesar de certos maneirismos de Meirelles e seu diretor de fotografia, César Charlone, como as cores saturadas, as cenas de miséria travestida de alegria e poesia e, até, da galinha corredeira recorrente, o filme tem uma beleza e uma dinâmica que marcam um ponto importante na consolidação de um novo jeito brasileiro de fazer cinema, que ultrapassa a velha barreira boba do idioma e rompe, de vez, a sina do improviso. Meirelles teve a sorte (ou a capacidade) de contar com Ralph Fiennes atuando de forma convincente e com Rachel Weisz transbordando na tela uma forma de sensualidade impensável no cinema tupiniquim: a sensualidade vestida, ainda estranha no país onde bundas requebrantes são sinônimos e padrão de beleza. Rachel Weisz, ou a sua personagem, Tessa, ilumina a tela com um sorriso simples e encantador, e com a indignação perdida por nós em meio às tantas pauladas que o mau e velho capitalismo nos dão todos os dias, em todas as partes do mundo.
O Jardineiro Fiel é uma festa para os olhos e um tapa na cara de nossas certezas. E é, e muito, uma história de amor, enrolada no lençol do suspense que esconde o principal elemento do filme, na minha modesta opinião: até que ponto você conhece quem você ama? Até onde você confia, acredita, admira e é capaz de mover o mundo pelo seu amor? O fim do filme é uma aula de sutileza e de, porque não, uma metáfora da verdadeira e definitiva entrega a quem se ama. Um fim que começa a surgir em uma frase, solta, pouco percebida no meio do filme, dita por Ralph Fiennes: "Tessa era minha casa".
Soberbo. Só vendo. Eu vou ver de novo. Meirelles merece. A gente merece.

01/09/2005

Sobre Pizzas

O brasileiro é viciado em pizza. Estima-se que só em São Paulo sejam servidas um milhão de pizzas por dia. Aproximadamente 45.833 por hora. Cerca de 784 por minuto. Uma dúzia por segundo. Isso, acredite, apenas em São Paulo. Não há dados oficiais sobre o número de pizzas em todo o Brasil. Mas, o que se sabe, é que brasileiro adora uma pizza. Tanto que, aqui, existe o Dia da Pizza: 10 de julho. Dizem que no Brasil tudo acaba em pizza. Dizem, também, que essa expressão surgiu em 1950, quando dirigentes do Palmeiras quase foram aos tapas em uma discussão e fizeram as pazes indo à pizzaria. Tutti buonna gente. Pode ser lenda. Convenhamos, bem saborosa. Echo.
Segundo historiadores, a pizza surgiu há cerca de seis mil anos. Ao contrário do que se imagina, não foi na Itália. Foi no Egito. Não creio. Assisti Cleópatra várias vezes e não lembro de Elizabeth Taylor comendo pizza. Outros afirmam que ela surgiu na Grécia, e era feita com massa à base de farinha de trigo e grão-de-bico. Há quem jure que Platão teria escrito a Politeía com a boca cheia de pizza de mussarela, mas há controvérsias. Escavações em Atenas levam muita a gente a desconfiar que o arremesso de disco, modalidade olímpica, surgiu nessa época, quando era comum se arremessarem pizzas ruins no Mar Egeu. Pois bem. Da Grécia, a pizza teria invadido a Etrúria, na Itália, e caído no gosto popular. Mas era servida dobrada, como um sanduíche. Supõe-se que não tenha dado muito certo, talvez pela inexistência de guardanapos de papel nessa época. No século XVII, em Nápoles, a pizza começa a se aproximar da que conhecemos hoje quando os espanhóis descobriram que tomate serve para comer e não apenas para jogar nos outros. Essa pizza rudimentar ainda era retangular, apesar de já contar com azeite, alho, mussarela. Em 1830, foi inaugurada a primeira pizzaria do mundo: a Port’Alba, lá mesmo, em Nápoles, que reunia a intelectualidade napolitana, entre eles poetas, escritores e pintores. Um certo Dom Rafaello Espósito criou a Margherita, em homenagem à rainha Margherita de Sabóia, mulher de Umberto I, e aí a coisa complicou. Misturaram tudo, e colocaram a politicagem como ingrediente. Depois, na Segunda Guerra Mundial, os americanos cismaram de aprender a fazer pizza e, é claro, com a delicadeza que lhes é peculiar, avacalharam tudo. Ensinaram o mundo a colocar catchup e maionese na pizza, inventaram o fast-food e a borda de catupiry. E, claro, a beber Coca-Cola, pra descer pela garganta da gente essa gororoba. O fato é que brasileiro é viciado em pizza. Isso tem causado alguns problemas a nossa gente. Veja, por exemplo, o caso da Velhinha de Taubaté. Uma fonte minha, que prefere não ser revelada, informa que a polícia desvendou o segredo de sua morte. Não foi por se ver traída por alguém em quem ainda acreditava. Sua autópsia revelou sufocamento por pizza. Uma caixa de papelão ao lado do telefone confirma essa suspeita: Pizzaria Brasil. Na etiqueta, o sabor da pizza: buchada.

04/08/2005

O Presidente Pé-Torto

A visita de Lula ao Piauí trouxe muitas certezas. Uma delas é a de que Lula é um perna-de-pau. As peladas na Granja do Torto devem ser deprimentes. Lula tem o pé torto, o que deve dar novo sentido ao nome da tal "granja". Granja do Pé-Torto. Ao inaugurar um ginásio em Teresina, Lula chutou uma bola ao gol. Sem goleiro. Para fora. Cinco metros de distância. Errou. Lula parece que não acerta uma. Lula disse, em Teresina, que quem errou, seja amigo ou inimigo, de seu partido ou de outro partido, rico ou pobre, preto ou branco, vai ter de pagar pelos seus erros. Lula vai ter de pagar pelos seus-dele erros. Já está pagando. Lula errou e continua errando. Lula critica as elites. Diz que as elites estão contra ele. Mas Lula só foi eleito porque beijou as mãos dos representantes das elites. Sarney a tiracolo. Maluf embaixo da mesa. Alencar à direita, na cadeira mais baixa. Lula se abraçou aos eternos comensais do capital e cuspiu no rosto de companheiros de todas as horas. Lula passou dois anos e meio tentando ser estadista. Foram dois anos e meio de viagens mundo afora. Até o Sucatão abriu o bico. Lula errou. Esqueceu de governar. Deixou o governo nas mãos ou, pelo visto, nos bolsos de José Dirceu, o Não Arrogante. Talvez seja por isso que ele, Lula, não sabe de nada. Agora, Lula volta a viajar. Só que faz a viagem em direção ao povo. Tenta voltar a sentir cheiro de povo. Pode ser tarde. Lula erra de novo. Assume postura populista, de presidente de republiqueta. Um Chavez de Garanhuns. Uma Evita Perón de barba e tatibitate. Caso não se lembre, Collor fez o mesmo. "Não me deixem só". "Saiam às ruas de amarelo". Deu no que deu. Agora tudo é comício. Com claque vestida de vermelho e aplaudindo erro de concordância. Protestos? Um quarteirão para lá, por favor. Se for conselho de Duda Mendonça, peguem de volta os tais 15 milhões. Distribuam nos próximos comícios de Lula. Porque Duda, o publicitário das musiquinhas, perdeu a mão. Todo filme é musiquinha. Acabou a graça. Chega de campanha com musiquinha. Agora é soco na mesa. Não soco na imprensa. A crise detonada por Bob Laden subiu a rampa do Planalto, e está batendo à porta do Gabinete Presidencial. Lula se agarra à Economia. Para ele, é um trunfo. Mas Lula segue a cartilha mais ortodoxa do neoliberalismo, o ideal tucano. A que privilegia as elites. As mesmas que, até agora, dão sustentação a seu governo e aplaudem a política econômica, a mesma que vai gerar um crescimento do PIB em 3%. Abaixo do crescimento do PIB da Bolívia. Igual ao do Paraguai. Lula erra ao se refugiar em meio ao povo. O povo quer Lula em Brasília. No olho do furacão. Sentado à mesa de trabalho. Gritando ao telefone com assessores, procuradores ou outros "ores" que sejam. Cobrando verdades, punições, esclarecimentos e vergonha na cara. Sendo o velho Lula. Aquele, em quem o povo votou. Não esse aí, que se esconde embaixo da saia do discurso pseudo-improvisado e se alimenta das palmas dos famintos. Não esse Lula que dá entrevistas esdrúxulas em Paris. Não é hora de começar um confronto de classes. De ricos contra pobres. De elites exploradoras contra descamisados explorados. Isso não cola mais. Chega de bola fora. Já basta de bobagem.

28/07/2005

O Presidente Jatobá

Para dizer a verdade eu acho o Jatobá um chato. Para mim ele é o Chatobá. E, além do Chatobá, eu acho o Marcos Frota um chato. Não sei porquê. Ele não me fez nada. Ele não me atingiu em nada. Mas eu acho. O Chatobá ainda é mais chato que o Marcos Frota. Porque o Chatobá é uma mistura do velho Mac Gyver com o Stevie Wonder. E, agora, deu para andar cercado de chatobazinhos. Uma espécie de Michael Jackson que não enxerga um palmo adiante do nariz. Sei da importância social do Jatobá, digo, Chatobá. Os portadores de deficiência visual, que no meu tempo se podia chamar de cegos sem medo de ser tachado de preconceituoso, claro que se sentem representados. O personagem valoriza os cegos. Mostra que um portador de deficiência visual não é um inválido. Mas isso a gente sabe. Eu sei desde criança. Eu tenho cds do Ray Charles, que era cego. E gênio. E rico. E negro. Ou afro-americano. Mas poderiam ter arrumado um cego menos chato que o Chatobá. Agora, além de ser obrigado a ver novela ao invés de assistir XVII de Xapuri x Santa Mônica de Alagoas, sou obrigado a ver a trupe do Chatobá todos os dias na tv. Chatobá e os chatobazinhos. Chatobá, a ex-Salete chorona, outros dois e ainda o filho do Roberto Carlos. O Roberto Carlos já é chatíssimo, o filho dele, então, nem se fala. Sei que basta desligar ou mudar de canal. Eu sei. Mas não dá. Chatobá é um caso de amor e ódio. Ele me enche o saco, mas eu quero ver. É como depoimento nas CPIs: nada pode ser mais chato, mas a gente fica querendo ver. Ainda mais agora que tem capítulos diários. Tem vilão. Tem bandido. Tem pretensa heroína. Tem piada. Tem tramóia. Tem briga. Tem aliança. Tem dinheiro na cueca. Tem Polícia Federal. Tem traição. Melhor tirar do ar o Chatobá e deixar a Heloísa Helena. Chato por chato, melhor a Heloísa Helena. Que é menos chata, também, que a Haydeé. Haydeé, a mulher do Glauco. Haydeé, a cleptomaníaca que vai substituir Delúbio Soares na tesouraria do PT. Sob o olhar atento de Chatobá, que enxerga tudo. Chatobá dirige carro. Chatobá dança tango. Chatobá toca tuba. Chatobá é neurocirurgião. Chatobá é surfista. Chatobá é trapezista. Chatobá pilota jato. Chatobá paquera a mulherada piscando o olho. Chatobá consegue fazer tudo que um ser humano com dois olhos bons não consegue. Chatobá é a outra identidade de Matt Murdock, que é a identidade secreta do Demolidor, o único super-herói deficiente da Marvel. Chatobá deve ser chamado pela CPI para dizer o que viu. Chatobá vê tudo. Dizem que foi ele quem viu os dólares no cuecão. Dizem que foi ele quem viu os dólares na mala. Dizem que foi ele que denunciou a Daslu. Dizem que ele é candidato a presidente. Não duvido. Jatobá, o Chatobá, é onipotente, onisciente, onipresente. Porque não pode ser presidente? Eu não voto em Chatobá. Mas ele pode ser uma boa opção. Depois de um presidente sem dedinho, porque não um presidente ceguinho? Depois de um presidente que não viu nada, porque um que não vê mas, pelo menos, enxerga? Eu acho o Jatobá um chato. Mas é melhor o Chatobá ser o sucessor do Lula. Ou, então, a gente compra um cão-guia e leva pro Planalto. Porque o pior cego é o que não quer ver. Vai ver o Lula não quer. Mas o Jatobá morre de vontade.

21/07/2005

CSI Teresina

Diz a lenda que, um dia, em uma terra distante e há muitos e muitos anos, apareceu decapitado um homem. Tudo que se pôde deduzir foi que a arma do crime foi uma pá. O culpado? Parecia impossível saber. Inimigos o morto não tinha. Testemunhas, nenhuma. E, naquelas terras, eram todos agricultores e em todas as casas havia uma ou, até, mais de uma pá. Como saber o autor de tão bárbaro crime? Um sábio, muito mais sábio que todos os sábios juntos, sugeriu ao imperador que mandasse todos os homens do reino buscarem em casa suas pás e se reunirem em frente ao palácio. Assim o imperador procedeu. Todos os homens reunidos, o sábio pediu que fossem levantadas para o alto as pás e que, nessa posição, todos permanecessem. E assim, durante horas, os homens do reino mantiveram pás levantadas aos céus, sem nada compreender. Até que, satisfeito, o sábio pediu que baixassem as pás, chamou o imperador e indicou o assassino. Curioso, o imperador perguntou como era possível saber o culpado com tão simples atitude. E o sábio mostrou que, em apenas uma das pás, moscas haviam se juntado, atraídas pelo sangue mal lavado ainda existente na ponta da pá do criminoso. Nascia a perícia criminal. Isso foi há milhares de anos. E ninguém sabe se é mesmo uma lenda ou um fato. E o que isso tem a ver com o que acontece no Brasil de hoje? Tem que no Piauí, por exemplo, o Instituto Médico Legal não dispõe sequer de um aparelho de raios-X. Os recursos mais utilizados são a mera dedução e a observação, além da experiência e dedicação de meia dúzia de abnegados profissionais utilizando métodos quase tão antigos quanto o mais primitivo conhecimento científico humano. Mal acostumado ao assistir a série CSI na TV por assinatura, me impressionei ao saber disso. Imagino não ser improvável que inocentes possam estar presos pela possibilidade de que algo que prove sua inocência não seja descoberto, pelo total desaparelhamento da perícia do Estado. Ou, ao contrário, que culpados estejam nas ruas pela incapacidade de se terem provas técnicas que concluam de forma incontestável a sua culpa. Não faço a mínima idéia de quanto custa um aparelho de raios-X. Nem imagino quanto custam aparelhos mais sofisticados que possam auxiliar os peritos. Não tenho como imaginar o que é realmente essencial para que esse trabalho seja desempenhado de forma minimamente condizente com o conhecimento disponível no século XXI. Mas o que eu, você e o Brasil inteiro estamos vendo, ou melhor, comprovando, já que há anos a gente finge que não vê tudo isso que está aí, são os porquês de hospitais com doentes morrendo nos corredores, escolas sem vagas, bandidos fechando túneis com armas de guerra, carros de polícia sem gasolina para andar, bombeiros com mangueiras furadas para combater incêndios: é que os recursos para isso estão viajando em cuecas, malas e sabe mais Deus o quê pelos céus do Brasil. É porque já passamos por uma ditadura, por um Sarney, por um PC e um Collor, por dois FHC e, agora, por Delúbios e Valérios, e não tivemos a coragem de extirpar a verdadeira origem de suas existências: o descaso, a politicagem, o cinismo, a mentira, a cara-de-pau, a impunidade. Os únicos inocentes nisso tudo são os que sofrem com a falta de condições mínimas de sobrevivência. De resto, somos todos culpados. Até que a coragem derrote a esperança, o medo e a decepção. O Brasil está com as entranhas abertas. É hora de tirar o tumor.

14/07/2005

De picaretas e publicitários

O mais chato de tudo é ter de ouvir certas piadinhas. Sim, porque, para meu infortúnio, sou: publicitário, mineiro e careca. Eu, que já tive que, durante anos, agüentar ser chamado de André Cajarana por causa de uma novela, agora sou obrigado a ouvir: "publicitário, hein? Mineiro, hein? Careca, hein?". Deixo aqui o meu protesto e, mesmo sem precisar, me defendo: sou mais publicitário que o tal Valério já que, até onde se sabe, nunca escreveu nem anúncio em obituário. Sou calvo, não sou careca. Ele, sim, que tem cabeça de ovo e, pelo mostrado na tv, lavada com óleo de peroba. E, bem, sou mineiro, sim, mas de Niterói, que fica no Rio de Janeiro. Não, não estou renegando minha mineirice, muito ao contrário: o tal Marcos Valério é que deve ser um mineiro paraguaio, tão falso que é incapaz de assumir uma calvície e raspa a cabeça para parecer que é careca por estilo. Sou um mineiro que nasceu por acidente do lado de fora das montanhas mas carrego, no DNA (caramba, essa é uma empresa do talzinho), o gene que me faz salivar diante de um pedaço de queijo, que me faz acreditar que o mundo não é redondo e achatado nos pólos, mas montanhoso e com cachoeiras nas bordas, que me faz dormir sonhando em acordar em uma piscina de doce de leite e que provoca reações cardíacas inexplicáveis em dia de Cruzeiro x Atlético.
Longe de mim, ainda, querer defender uma classe. Não sou homem de classes. Posso até ser classudo, dependendo do ponto de vista e apesar disso gerar muita controvérsia. Mas não creio em corporativismos nem em intransigentes posições acima do bem e do mal quando se trata de elogiar, criticar ou analisar quem quer que seja. Mas me sinto, por força das amizades que tenho no meio, com a obrigação de dizer que Marcos Valério não é publicitário. A profissão dele é outra: picareta. Favor não confundir as coisas. Picaretas existem em todos os meios, em todas as classes. Na publicidade existem muitos. Conheço vários, apesar de nunca ter visto antes um tão picareta quanto o Valério, que parece ser algo assim um João Paulo II da picaretagem. Eles são conhecidos por ganharem muito dinheiro mesmo sem serem diretores de arte, nem redatores, nem mídias, nem atendimentos, gente que trabalha duro, na maioria das vezes, por salários tão baixos quanto os de profissionais de qualquer setor. Marcos Valérios não sabem o que é publicidade: sabem o que é dinheiro fácil, de origem duvidosa e o que é esquema. É fácil reconhecer um Marcos Valério: gostam de andar de jatinho emprestado, não adotam posições ideológicas, acham lindo jantar em restaurantes finos com companhias importantes para contar aos amigos e serem vistos pelos concorrentes, adoram presentear secretárias de senadores e juram, de pés juntos, não serem mercenários: são profissionais. Como se profissionais não tivessem que ter, como premissa básica para assim serem vistos, caráter, ética e respeito. Então, por favor, parem com as galhofas contra publicitários. É melhor prestar atenção aos sinais exteriores de marcosvalerice e não misturar alhos com bugalhos. Antes de mais nada, vamos deixar de chamá-lo de publicitário. E também de empresário, gente que, em sua maioria, trabalha e produz. Pensando bem, melhor nem chamá-lo de cabeça de ovo, o que é um desrespeito aos ovos.
Vamos chamá-lo mesmo de picareta, desonesto, patife, mentiroso. É muito mais adequado.

23/06/2005

O Fim da Utopia

Thomas More apresenta Utopia como uma ilha, um lugar, um país onde a sabedoria e a felicidade do povo existem, pois nesse país há um sistema legal, social e político perfeito, dirigido pela razão. A Utopia é um lugar que fica na linha exata onde o céu se encontra com a terra: no horizonte. Porém, se damos um passo em direção a Utopia, ela se afasta um passo de nós. Se damos cinco passos, ela se afasta cinco passos. Se corremos, ela parece se distanciar na mesma velocidade e em direção contrária. Então, para que serve a Utopia se, por mais que se caminhe, nunca se chega a ela? Simples, diz Fernando Birri: serve para nos fazer caminhar até ela.
O Brasil Perfeito é uma espécie de Ilha da Utopia. Quanto mais caminhamos e tentamos chegar a ele, mais ele se afasta. O Brasil Perfeito não existe. E nunca vai existir. O Brasil Perfeito se encontra no sentido original da palavra utopia: "em lugar nenhum". O Brasil Perfeito é uma utopia na concepção moderna da palavra: uma quimera, uma fantasia, uma coisa irrealizável. Essa confusão toda de Brasília serve, mesmo que nem tudo seja verdade, para nos mostrar que o Brasil Perfeito nunca vai chegar. Para nos mostrar que não adianta esperar um partido perfeito, nem um presidente perfeito, nem uma oposição perfeita. Não existe um sistema perfeito, nem um salário-mínimo perfeito. Não podemos esperar uma escola perfeita, nem uma saúde perfeita. Não há como ficar esperando e caminhando com os olhos no amanhã perfeito, na justiça perfeita, na polícia perfeita, na seleção de futebol perfeita. Não podemos esperar nem mesmo mocinhos perfeitos, já que o mocinho da vez, como quase todos os que já surgiram, tem o pé na lama e dorme no covil do bandido, agarrado ao produto do roubo e, portanto, não é confiável. E o que fazer? Desistir?Às vezes é essa a sensação que nos dá esse país. A de que talvez seja melhor desistir e irmos cuidar dos filhos, de casa, de nossos cachorros e papagaios. E esquecer aonde vivemos e quem somos. Mas, se não vai existir nunca o Brasil Perfeito, será que não podemos, pelo caminho sem fim que leva a esse impossível Brasil Perfeito, deixar para os nossos, pelo menos, um Brasil Melhor?
Sartre, o aniversariante ausente da semana, afirmava entre tantas coisas, com o existencialismo, que não interessa as causas que nos levam a ser o que somos: nós mesmos somos os principais responsáveis por sê-lo. O Brasil precisa descobrir quem é, e deixar de querer ser, ou de dizer que é assim porque foi assim sempre. É preciso fazer, dos limões que temos, tão azedos, uma boa e refrescante limonada. Este é um país perfeitamente imperfeito. Assim como todos os outros. Não adianta esperar que uma ou muitas CPIs mudem o Brasil. O Brasil, que somos nós, é que deve mudar o Brasil. Chega de esperar salvadores ou de ficarmos, em frente à TV, nos deliciando com espetáculos onde, no final, a nossa é de mussarela. É melhor a gente mesmo construir o Brasil que é possível. Esse que está aí não é o nosso. Nós também não somos um povo perfeito, mas podemos fazer melhor. E bem depressa. Porque o trem que leva para Utopia não vai passar. Pode ter certeza.

16/06/2005

O País da Cara de Pau

Para Raimundo Uchoa

O que mais assusta nessa confusão em que o Brasil se vê envolvido, alimentada pelo Deputado Roberto Jefferson e suas declarações, não é a existência do "mensalão", nem o vídeo do pagamento de propina, nem mesmo que seja muito remota a possibilidade de que essa CPI chegue a algum termo minimamente condizente com os anseios de justiça do povo brasileiro. O que assusta, mesmo, é a cara-de-pau de quem está sentado em frente a outro cara-de-pau, fingindo que não sabe, que nunca viu, que não teve notícia ou como se a corrupção fosse algo estranho, inesperado ou assustadoramente inédito no país. Não é possível qualquer brasileiro minimamente inteligente acreditar que as denúncias do deputado cantor, ex-primeiro escalão da tropa de choque de presidente afastado por ter institucionalizado "oficialmente" a corrupção no país, sejam fruto apenas e tão somente de uma mente privilegiada e criativa, que inventou tudo e resolveu "derrubar a casa" do governo Lula. Se não é politicamente correto nem historicamente prudente afirmar que os nativos brasileiros eram corruptos antes da chegada de Cabral, não é arriscado dizer que a corrupção no Brasil pode ser documentalmente colocada como irmã gêmea do Descobrimento já que, na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, há um explícito pedido de favorecimento, amarrado ao teor emocional de uma correspondência que, certamente, deixou feliz o monarca: Caminha pede que seu genro, condenado por roubo e cumprindo pena de degredo em São Tomé, seja beneficiado com um "afrouxamento" da pena e mandado para o recém-descoberto novo território português. Ou seja: o tráfico de influência, forma de corrupção tão antiga quanto a "vida fácil", estava registrado, para sempre, no último parágrafo da primeira correspondência oficial redigida em nossas terras. Ou, no caso, em nossas águas. Daí, o susto: ou a classe política brasileira está vivendo na Ilha da Fantasia ou serra, todos os dias, seus longos narizes de madeira em frente ao espelho. Provavelmente, com serrotes fornecidos por nós mesmos, já que somos nós, com esse eterno desprezo que temos para com a reflexão antes de dar um voto, que os colocamos lá, no centro desse picadeiro chamado Brasília. Que, estranhamente, está mais para uma estranha polvorosa em torno do assunto do que mostrando alguém com sinais mínimos de verdadeira indignação. E isso, essa aparente falta de revolta, transmitida pela tv nos longos depoimentos ou nas entrevistas cheias de entrelinhas, nos deixa com uma dúvida: estariam nossos nobilíssimos representantes entorpecidos por uma longa exposição ao vírus da corrupção e, portanto, sem capacidade de indignação, ou estão mais assustados do que, verdadeiramente, preocupados? E, fazendo eco à pergunta do jornalista Ricardo Setti, do site No Mínimo: onde está a indignação do Presidente, tantas vezes demonstrada quando candidato, quando sindicalista e quando "lado de fora" do Palácio do Planalto? A conclusão pode ser: todos mentimos, todos nos enganamos, todos colaboramos ao ver, todos os dias, debaixo de nossos longos narizes encerados, deputados, senadores, prefeitos, vereadores, policiais, amigos, aderentes e parentes pagando propina, ganhando licitações fraudulentas, comprando voto, liberando em blitz, arranjando emprego público, furando fila no banco ou dando troco errado em padaria. Não, não somos um país de corruptos. Mas, pelo visto, estamos aos 40 minutos do segundo tempo, perdendo por dois a zero.
A essa altura, um empate já estaria de bom tamanho.

02/06/2005

Serra Leoa também é aqui

Não é preciso que ninguém nos diga que o Brasil é um país cheio de desigualdades, onde ricos e pobres estão separados pelo abismo da falta de educação, de saúde pública e de tantas outras faltas. Basta qualquer saída por qualquer cidade brasileira para ver o que os filmes de ficção científica mostram há tempos: a existência de mundos paralelos que se comunicam, eventualmente, através de portais que se abrem aleatoriamente. A diferença do Brasil para o mundo da ficção é que, no Brasil, para se mudar de uma dimensão para outra basta abrir a porta do carro.
Os números divulgados semana passada dando conta de que o Brasil só perde, quando o assunto é desigualdade na distribuição de renda, para Serra Leoa, apenas nos fazem constatar numericamente o que todo mundo vê: a cada dia mais gente tem menos, e menos gente tem mais. Segundo os dados, quase 22 milhões de brasileiros vivem, ou acham que vivem, com menos de 25% de um salário mínimo por mês, aproximadamente 75 reais. Mais: cerca de 54% dos brasileiros vivem, ou pensam que aquilo que eles fazem é viver, com meio salário mínimo por mês, aproximadamente 150 reais. A solução? Investimentos em educação, em saúde pública e no crescimento econômico. Então diga lá: se todo mundo sabe, se os economistas sabem, os políticos sabem, os publicitários sabem como resolver isso, porque essa mesma lenga-lenga há anos? Descaso? Corrupção? Canalhice? Incompetência? Ou vontade de ser o primeiro em tudo, inclusive nisso? Bem, se esse for o motivo, vou dar minha contribuição. Afinal, para derrotar um inimigo o primeiro passo é conhecê-lo.
A República da Serra Leoa é um país situado na região oeste da África, ao sul de Guiné e a nordeste da Libéria, com aproximadamente 5 milhões de habitantes, mais ou menos um terço da população da cidade de São Paulo. Cerca de 65% de sua população vive no campo, e sua taxa de analfabetismo é de 63,7%. Sua moeda é o leone, que eu não faço a menor idéia de quanto está valendo frente ao dólar. Cada mulher de Serra Leoa tem, em média, 6 filhos, e expectativa de vida de 39 anos, sendo a expectativa de vida dos homens de 39 anos. A taxa de mortalidade infantil de Serra Leoa é de 170 por mil. Sua renda per capta é de 140 dólares, o que significa pouco mais de 10 dólares, ou 25 reais por mês. Sua capital é Freetown, e o inglês é sua língua oficial. Além de ser o campeão mundial na desigualdade social, Serra Leoa é o país com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no mundo, e é presidido pelo ditador Alhaji Doctor Ahman Tejan Kabbah. Sei que não é muito, ainda, e prometo pesquisar um pouco mais. Mas creio que seja o suficiente para que nossos governantes prestem atenção nos números e percebam que, apesar de tantas diferenças ente os dois países, curiosamente há muitas semelhanças. E que para ultrapassar Serra Leoa não é preciso muito. Estamos cada vez mais perto. A gente chega lá. Só mais um pouco de descaso e incompetência e a gente consegue.