Gerald Thomas faz parte de um grupo de pessoas que, parece, cresce mais a cada dia no mundo: aquelas que acham que são muito mais do que realmente são. Pessoas assim são chatas, extremamente chatas. Fosse ele apenas metade do que pensa ser, já seria uma grande coisa. Mas não é. Thomas é, na verdade, um chato. E, cada vez mais, prova que é extremamente mal-educado. Como a maioria dos que fazem parte desse grupo o são.
Em um evento onde artistas se reuniram para pedir apoio do Governo Federal à falimentar Varig, o incompreendidozinho de plantão, o arauto da modernidade, o arrogante mor da inteligentzia nacional ergueu o dedo médio, naquele gesto que todo mundo sabe qual é, e deu uma "dedada" para o Presidente Lula. Cá pra nós, não é que nosso presidente não mereça aqui e ali uma sacudidela. Mas, convenhamos, isso não é algo que possa representar um protesto ou o que quer que seja. Isso é idiotice, falta de educação de quem, se achando tão genial, deveria ser exemplo de, no mínimo, elegância, sobriedade e capacidade de expor suas posições em alto nível. Começa que um grupo de artistas se reunir para pedir que o Governo Federal socorra uma empresa privada que, por incompetência, má gestão ou qualquer outro motivo que não tem nada a ver diretamente com o povo brasileiro, vem caindo pelas tabelas, já é algo meio duvidoso. Para dizer o mínimo. Até onde se sabe, Governos não servem para isso. Fosse assim, eu mesmo ia fazer plantão na porta do Palácio do Planalto e pedir ao presidente que me ajudasse com uma ou duas contas que sobraram de alguns percalços empresariais que tive. Artistas não cobram cachê para defender perdão de dívida de empresários. Ao menos, eu acho.
Gerald Thomas faz parte do grupo dos que acham que se bastam. Gerald Thomas escreve peças que ninguém entende e ele acha o máximo, faz discursos preconceituosos disfarçados de libertários e, de uns tempos para cá, acha que gestos obscenos e palavras chulas são formas moderninhas de gerar notícia e chamar a atenção. Pelo menos dessa vez ele não nos premiou com a mostra de suas brancas e medonhas partes globosas, como quando foi vaiado no teatro. Um consolo: uma vez ele mostrou as partes globosas, de outra ele deu uma dedada. Pode ser que, agora, ele consiga unir os dois gestos em um só. Longe de nós, por favor. Uma das grandes injustiças deste mundo foi Gerald Thomas estar tão perto do World Trade Center e não ter ido tomar um café por lá, uns dez minutos antes dos aviões acabarem com o sonho americano. Além de nos poupar de tamanha estupidez, nos teria poupado das crises histéricas e de textos pavorosos com que nos brindou por dias a fio, depois do acontecimento. Gerald Thomas é um chato. Pessoas arrogantes e prepotentes são chatas. Pessoas que se julgam geniais, como ele, que se julgam ser capazes de se bastarem, são chatas. Aqui vale dizer que nunca o vi pessoalmente, e que essa impressão é fruto exclusivamente de suas entrevistas, seus textos e suas atitudes. Que me fazem crer que já conheço o suficiente e, muito obrigado, não quero ver suas peças nem ter o prazer de privar de sua companhia. Prefiro gente que se julgue gente, não deuses incompreendidos num país de ignorantes.
Ele que se baste pra lá.
12/04/2006
Thomas: um chato.
07/04/2006
Bruna Surfistinha: best seller sem fardão
Não creio que eu seja exatamente um puritano. Claro que aqui e ali sofro influência da cultura machista dominante fruto da criação cristã, ou vice-versa, e dou lá minhas escorregadas conviccionais. Sou gente, poxa! Mas, decididamente, puritano eu não sou. Até que sou bem saidinho, pro gosto da maioria. Mas isso, na verdade, não interessa muito.
O que interessa é que Bruna Surfistinha é o mais novo fenômeno da literatura brasileira. O Doce Veneno do Escorpião, livro escrito (?) pela moça (?), é um best-seller, superando, de longe, grandes mestres da escrita. Uma avalanche de vendas no país em que livros são artigos de luxo para a maioria. Quem é Bruna Surfistinha? Por onde você andou nos últimos anos, cára-pálida? No espaço, com o nosso astronauta caroneiro?
Bruna Surfistinha é a mais famosa ex-garota de programa brasileira. Musa hardcore da internet, começou contando na rede suas peripécias profissionais e virou, depressinha como quem faz programa, uma espécie de ícone nacional: a patricinha decidida, filha de pais adotivos, rebelde sem calça, digo, causa, que gosta de sexo e, aos 17 anos, larga tudo com o propósito de cair na vida e fazer o pé-de-meia usando o que tinha de mais valioso, na visão dela. Aquilo. Começou com um diário, onde anotava tintim por tintim cada gemido, ranqueando cada cliente e legendando se, digamos, chegou ou não "chegou lá" (desculpe, acendeu aqui a luz vermelha do tabu) com o dito cujo, dita cuja ou ditos cujos clientes. Daí, criou um blog. Daí, "escreveu" o livro. Daí, virou best-seller. Só falta a cadeira 19 da ABL.
Em termos literários, o livro parece o fórum de uma antiga revista masculina. A palavra mais utilizada, fora "gozar", é "afinidade", que, de certa maneira, é a palavra da moda no Brasil do Big Brother. Cheia de "afinidades" com os clientes, mas nem tanta com o vernáculo, Bruna Surfistinha, que na verdade se chama Raquel, desfia um rosário de posições, sentimentos e usa um vocabulário um tanto desbocado, para muitos, expondo pensamentos com a profundidade de uma tigela de sucrilhos. Há quem diga que ela é corajosa, que derruba a hipocrisia, que expõe a verdade sobre as relações amorosas e sexuais do brasileiro, especialmente os de classe média-alta. De certa maneira, um grande exagero. Afinal, é só dar uma volta em qualquer boate, bar ou praia brasileira para ver várias Brunas Surfistinhas vendendo, comprando ou até mesmo doando prazer, usando a máscara da modernidade. Bruna Surfistinha é só uma que fez, cobrou por isso e quer faturar um troco contando como foi. Ela só fez isso de diferente. O resto, a moçada já anda sabendo muito bem.
Mas, no fundo, isso também não interessa nesse texto. O que eu queria dizer é que até o bom e velho voyeurismo anda ficando sem graça, bobo, chato. Antigamente, o voyeur precisava se esgueirar por entre cortinas, olhar pelo buraco das fechaduras ou correr o risco de desabar de um telhado para ver o que os outros andavam fazendo entre quatro paredes. Hoje, não. Basta comprar um livro, ir à banca de revistas, acessar um site e pronto. Está tudo lá. Sem nenhum charme. Fácil e, de alguma maneira, até enjoativo, já que, grosso modo, todo corpo exposto durante o ato é igual.
Pois isso, sim, é sacanagem. Conseguimos avacalhar tudo: o mundo, a literatura, o Brasil, a cultura, as relações, a educação, a saúde e, agora, estamos avacalhando até a própria sacanagem. Que vai acabar ficando tão banal, tão banal, que vai ser o máximo para o verdadeiro voyeur ficar observando, na parada de ônibus, o dedo mindinho do pé esquerdo da mulherada ou a orelha nua dos rapazes.
Menos, gente. Menos. Tá ficando chato.
O que interessa é que Bruna Surfistinha é o mais novo fenômeno da literatura brasileira. O Doce Veneno do Escorpião, livro escrito (?) pela moça (?), é um best-seller, superando, de longe, grandes mestres da escrita. Uma avalanche de vendas no país em que livros são artigos de luxo para a maioria. Quem é Bruna Surfistinha? Por onde você andou nos últimos anos, cára-pálida? No espaço, com o nosso astronauta caroneiro?
Bruna Surfistinha é a mais famosa ex-garota de programa brasileira. Musa hardcore da internet, começou contando na rede suas peripécias profissionais e virou, depressinha como quem faz programa, uma espécie de ícone nacional: a patricinha decidida, filha de pais adotivos, rebelde sem calça, digo, causa, que gosta de sexo e, aos 17 anos, larga tudo com o propósito de cair na vida e fazer o pé-de-meia usando o que tinha de mais valioso, na visão dela. Aquilo. Começou com um diário, onde anotava tintim por tintim cada gemido, ranqueando cada cliente e legendando se, digamos, chegou ou não "chegou lá" (desculpe, acendeu aqui a luz vermelha do tabu) com o dito cujo, dita cuja ou ditos cujos clientes. Daí, criou um blog. Daí, "escreveu" o livro. Daí, virou best-seller. Só falta a cadeira 19 da ABL.
Em termos literários, o livro parece o fórum de uma antiga revista masculina. A palavra mais utilizada, fora "gozar", é "afinidade", que, de certa maneira, é a palavra da moda no Brasil do Big Brother. Cheia de "afinidades" com os clientes, mas nem tanta com o vernáculo, Bruna Surfistinha, que na verdade se chama Raquel, desfia um rosário de posições, sentimentos e usa um vocabulário um tanto desbocado, para muitos, expondo pensamentos com a profundidade de uma tigela de sucrilhos. Há quem diga que ela é corajosa, que derruba a hipocrisia, que expõe a verdade sobre as relações amorosas e sexuais do brasileiro, especialmente os de classe média-alta. De certa maneira, um grande exagero. Afinal, é só dar uma volta em qualquer boate, bar ou praia brasileira para ver várias Brunas Surfistinhas vendendo, comprando ou até mesmo doando prazer, usando a máscara da modernidade. Bruna Surfistinha é só uma que fez, cobrou por isso e quer faturar um troco contando como foi. Ela só fez isso de diferente. O resto, a moçada já anda sabendo muito bem.
Mas, no fundo, isso também não interessa nesse texto. O que eu queria dizer é que até o bom e velho voyeurismo anda ficando sem graça, bobo, chato. Antigamente, o voyeur precisava se esgueirar por entre cortinas, olhar pelo buraco das fechaduras ou correr o risco de desabar de um telhado para ver o que os outros andavam fazendo entre quatro paredes. Hoje, não. Basta comprar um livro, ir à banca de revistas, acessar um site e pronto. Está tudo lá. Sem nenhum charme. Fácil e, de alguma maneira, até enjoativo, já que, grosso modo, todo corpo exposto durante o ato é igual.
Pois isso, sim, é sacanagem. Conseguimos avacalhar tudo: o mundo, a literatura, o Brasil, a cultura, as relações, a educação, a saúde e, agora, estamos avacalhando até a própria sacanagem. Que vai acabar ficando tão banal, tão banal, que vai ser o máximo para o verdadeiro voyeur ficar observando, na parada de ônibus, o dedo mindinho do pé esquerdo da mulherada ou a orelha nua dos rapazes.
Menos, gente. Menos. Tá ficando chato.
30/03/2006
E o Brasil vai Para o Espaço
Confesso duas coisas: a primeira, que continuo achando nosso astronauta com a expressividade de um tomate. Tudo bem que o cara tem jeito de bonachão, é inteligente, graduado e preparado. Mas continuo cismado que ele não tem cara de herói, por mais que queiram fazer, dele, um. A segunda confissão: quarta-feira acompanhei pela tv o lançamento da nave Soyuz, bebendo refrigerante e comendo sanduíche, com uma sensação engraçada: de certa forma, me emocionei. Brasileiro é mesmo um tipo muito estranho. O cara vai passear no espaço às nossas custas, aparece dando tchauzinho pra câmera, apontando a bandeirinha do Brasil no macacão e a gente se emociona, bate palmas e comemora e enxuga uma lagriminha que insiste em cair do olho esquerdo. Magias da mídia.
Sim, ele vai passear por lá. Porque em uma semana, pelo que os cientistas andam dizendo, não dá para fazer nenhum experimento significativo, que compense o investimento. Na noite do lançamento vi a entrevista de um desses figurões aí que disse, claramente: o investimento é muito maior na imagem do Brasil do que, propriamente, em avanços científicos. Porque mostra nosso tomate espacial ao lado de um americano e um russo. Quer dizer: estamos pagando 30 milhões de reais pra ter a bandeirinha do Brasil na fuselagem da nave, um caroneiro sorridente e a sensação de que, levando para o espaço uma camisa da Seleção e um chapéu ridículo igual ao do Santos Dumont, entramos na era espacial.
Curiosa a bagagem do nosso astronauta. Tem a camisa da Seleção, o tal chapéu, fotos de família, selos, camiseta com o rosto de Yuri Gagarin, pins metálicos, dois cds (aliás, espero que um seja da banda Calypso e ele esqueça por lá), retrato de Jesus Cristo (quem fotografou Jesus, pelo amor Dele?) e duas bandeiras do Brasil: uma grande e uma pequena. Não vi nada oficial sobre que tipo de experimentos ele vai fazer por lá. Mas, pelo que andaram dizendo por aí, ele está levando uma caixinha de O Pequeno Cientista, e vai tentar descobrir o que acontece quando se tenta fazer Sangue do Diabo na gravidade zero. E também saber se milkshake de ovomaltine tem o sabor modificado quando se está em órbita.
Senti falta, na bagagem do nosso astronauta, do grande símbolo brasileiro de hoje em dia. Ele podia levar uma foto de uma pizza. Seria muito melhor do que levar a camisa da Seleção, até porque ele pode ser um pé-frio danado e fazer o Ronaldo ter outro piripaque. Talvez, com uma pizza colocada em órbita, a contribuição fosse muito maior. Ainda mais se ele ensaiasse uma coreografia, como a da deputada sei-lá-quem, que deu a sambadinha no plenário da Câmara. De qualquer maneira, estamos todos aqui, torcendo para que o astronauta brasileiro volte para casa, para sua família, são e salvo. E não podemos nos esquecer que Marcos Pontes escreveu seu nome, na história oficial, como o primeiro brasileiro a ir para o espaço. Sim, na história oficial.
Porque os brasileiros estão indo para o espaço há muito tempo. Desde 1500, para ser mais preciso. É isso aí. Brasil!
Sim, ele vai passear por lá. Porque em uma semana, pelo que os cientistas andam dizendo, não dá para fazer nenhum experimento significativo, que compense o investimento. Na noite do lançamento vi a entrevista de um desses figurões aí que disse, claramente: o investimento é muito maior na imagem do Brasil do que, propriamente, em avanços científicos. Porque mostra nosso tomate espacial ao lado de um americano e um russo. Quer dizer: estamos pagando 30 milhões de reais pra ter a bandeirinha do Brasil na fuselagem da nave, um caroneiro sorridente e a sensação de que, levando para o espaço uma camisa da Seleção e um chapéu ridículo igual ao do Santos Dumont, entramos na era espacial.
Curiosa a bagagem do nosso astronauta. Tem a camisa da Seleção, o tal chapéu, fotos de família, selos, camiseta com o rosto de Yuri Gagarin, pins metálicos, dois cds (aliás, espero que um seja da banda Calypso e ele esqueça por lá), retrato de Jesus Cristo (quem fotografou Jesus, pelo amor Dele?) e duas bandeiras do Brasil: uma grande e uma pequena. Não vi nada oficial sobre que tipo de experimentos ele vai fazer por lá. Mas, pelo que andaram dizendo por aí, ele está levando uma caixinha de O Pequeno Cientista, e vai tentar descobrir o que acontece quando se tenta fazer Sangue do Diabo na gravidade zero. E também saber se milkshake de ovomaltine tem o sabor modificado quando se está em órbita.
Senti falta, na bagagem do nosso astronauta, do grande símbolo brasileiro de hoje em dia. Ele podia levar uma foto de uma pizza. Seria muito melhor do que levar a camisa da Seleção, até porque ele pode ser um pé-frio danado e fazer o Ronaldo ter outro piripaque. Talvez, com uma pizza colocada em órbita, a contribuição fosse muito maior. Ainda mais se ele ensaiasse uma coreografia, como a da deputada sei-lá-quem, que deu a sambadinha no plenário da Câmara. De qualquer maneira, estamos todos aqui, torcendo para que o astronauta brasileiro volte para casa, para sua família, são e salvo. E não podemos nos esquecer que Marcos Pontes escreveu seu nome, na história oficial, como o primeiro brasileiro a ir para o espaço. Sim, na história oficial.
Porque os brasileiros estão indo para o espaço há muito tempo. Desde 1500, para ser mais preciso. É isso aí. Brasil!
23/03/2006
O Big Brother do MV Bill
Faz uma semana que o Brasil levou uns bons tabefes na cara, numa noite de domingo, quando o verdadeiro "show da vida" nas periferias brasileiras foi mostrado em nossas televisões.
Muito se discute o que foi apresentado no documentário "Falcão - Os Meninos do Tráfico". Muita gente foi pega de surpresa com a crueza das declarações de meninos que, teoricamente, deveriam estar se preparando para ser o futuro do Brasil mas, ao invés disso, estão se entupindo de drogas, aprendendo a manusear fuzis maiores que eles mesmos e adotando o discurso do "não tenho nada a perder". Declarações deprimentes, que mostram um lado que o Brasil há tempos faz questão de fingir que não vê. Pior ainda saber que, dos 17 jovens entrevistados, 16 morreram antes da exibição do documentário. Transformados, literalmente, em poeira, jogada debaixo de um grande tapete verde-amarelo-azul-e-branco que parece não ter fim. Assassinados por traficantes, por gangues, pelo descaso, pela falta de oportunidades, pela mídia, por pais ausentes. Pelos governos, todos eles, indistintamente, independentemente de cores partidárias ou ideológicas. E por nós mesmos.Todos são cúmplices. Todos somos cúmplices, de alguma maneira. Inclusive eu e você. Aliás, minto: existem exceções. Difícil é fazer, dessas exceções, espelho e modelo para a sociedade.O documentário de MV Bill, cá entre nós, não traz nenhuma novidade. Pelo contrário. Segundo ele mesmo, o documentário está pronto há anos e reflete uma realidade de 4, 5 anos atrás. Que, hoje, não mudou em nada. Quer dizer: deve ter mudado, mas para pior. Uma das virtudes de "Falcão - Os Meninos do Tráfico" está na competência que o autor teve para convencer a Vênus Platinada (e, segundo muitos, alienada), a escancarar para quem quiser ver (e até para quem não queria) o que deveria ser o submundo das favelas brasileiras mas, na verdade, tem se transformado em um mundo paralelo, com leis, conceitos morais e ética próprias. Se é que tudo aquilo tem algo que possa ser chamado de ética, moral ou lei.E agora? O que fazer? Diz a verdade: quem é que sabe? Não é de hoje que tudo foi dito e "redito". Não há governo, municipal, estadual ou Federal que, nos últimos 10, 20, 30 anos, não tenha tido noção de a quantas anda a realidade. Não deve haver cidadão brasileiro com o mínimo de percepção do mundo que não tenha notado, nas ruas, o lento mas permanente avanço de hordas de sem-chance, de sem-educação, de sem-família, de sem-saúde, de sem-teto, de sem-esperanças, de sem-tudo, que todos os dias batem nas janelas de carros em todos os semáforos do país comendo fogo, pedindo moedas, lavando vidros, implorando atenção e dignidade. Todas as noites os "meninos" estão aí, esfregando suas caras melequentas nos nossos narizes. E ninguém olha. Porque é mais cômodo e dá menos trabalho aumentar o volume do cd e fechar os vidros do que levantar o traseiro e fazer alguma coisa. Repito: e agora? Quantos domingos teremos que passar vendo e revendo aquilo tudo para nos convencermos de que temos que fazer alguma coisa, nós, eu e você, ao invés de pensarmos em calças de griffe e sapatinhos de salto para passear em Buenos Aires? Até quando vamos esperar algo das "autoridades"? É melhor cair na real e arregaçar as mangas. Tem muito mais gente se ocupando em sangrar o país até encher o fiofó de dinheiro do que preocupada em mudar as coisas de verdade.
Pelo visto, a gente só pode contar com a gente mesmo.
Muito se discute o que foi apresentado no documentário "Falcão - Os Meninos do Tráfico". Muita gente foi pega de surpresa com a crueza das declarações de meninos que, teoricamente, deveriam estar se preparando para ser o futuro do Brasil mas, ao invés disso, estão se entupindo de drogas, aprendendo a manusear fuzis maiores que eles mesmos e adotando o discurso do "não tenho nada a perder". Declarações deprimentes, que mostram um lado que o Brasil há tempos faz questão de fingir que não vê. Pior ainda saber que, dos 17 jovens entrevistados, 16 morreram antes da exibição do documentário. Transformados, literalmente, em poeira, jogada debaixo de um grande tapete verde-amarelo-azul-e-branco que parece não ter fim. Assassinados por traficantes, por gangues, pelo descaso, pela falta de oportunidades, pela mídia, por pais ausentes. Pelos governos, todos eles, indistintamente, independentemente de cores partidárias ou ideológicas. E por nós mesmos.Todos são cúmplices. Todos somos cúmplices, de alguma maneira. Inclusive eu e você. Aliás, minto: existem exceções. Difícil é fazer, dessas exceções, espelho e modelo para a sociedade.O documentário de MV Bill, cá entre nós, não traz nenhuma novidade. Pelo contrário. Segundo ele mesmo, o documentário está pronto há anos e reflete uma realidade de 4, 5 anos atrás. Que, hoje, não mudou em nada. Quer dizer: deve ter mudado, mas para pior. Uma das virtudes de "Falcão - Os Meninos do Tráfico" está na competência que o autor teve para convencer a Vênus Platinada (e, segundo muitos, alienada), a escancarar para quem quiser ver (e até para quem não queria) o que deveria ser o submundo das favelas brasileiras mas, na verdade, tem se transformado em um mundo paralelo, com leis, conceitos morais e ética próprias. Se é que tudo aquilo tem algo que possa ser chamado de ética, moral ou lei.E agora? O que fazer? Diz a verdade: quem é que sabe? Não é de hoje que tudo foi dito e "redito". Não há governo, municipal, estadual ou Federal que, nos últimos 10, 20, 30 anos, não tenha tido noção de a quantas anda a realidade. Não deve haver cidadão brasileiro com o mínimo de percepção do mundo que não tenha notado, nas ruas, o lento mas permanente avanço de hordas de sem-chance, de sem-educação, de sem-família, de sem-saúde, de sem-teto, de sem-esperanças, de sem-tudo, que todos os dias batem nas janelas de carros em todos os semáforos do país comendo fogo, pedindo moedas, lavando vidros, implorando atenção e dignidade. Todas as noites os "meninos" estão aí, esfregando suas caras melequentas nos nossos narizes. E ninguém olha. Porque é mais cômodo e dá menos trabalho aumentar o volume do cd e fechar os vidros do que levantar o traseiro e fazer alguma coisa. Repito: e agora? Quantos domingos teremos que passar vendo e revendo aquilo tudo para nos convencermos de que temos que fazer alguma coisa, nós, eu e você, ao invés de pensarmos em calças de griffe e sapatinhos de salto para passear em Buenos Aires? Até quando vamos esperar algo das "autoridades"? É melhor cair na real e arregaçar as mangas. Tem muito mais gente se ocupando em sangrar o país até encher o fiofó de dinheiro do que preocupada em mudar as coisas de verdade.
Pelo visto, a gente só pode contar com a gente mesmo.
16/03/2006
My Name is Bond
Quando eu era menino, tive um vizinho chamado André. Ficamos amigos. Mas ir à casa dele e pedir para que o chamassem era uma coisa muito estranha. Parecia que estava pedindo para chamarem a mim mesmo. Conversar com ele era engraçado.Toda vez que eu dizia o nome dele, imaginava que estava conversando com meu espelho e, volta e meia, nem lembrava mais do que ia dizer.Nunca gostei assim, por demais, do meu nome. Mas também nunca o achei ruim. Na verdade, não suporto é ser chamado de André Luiz. Na escola eu tinha calafrios por causa disso. Por favor, se você me encontrar na rua, não me chame de André Luiz, ou não me responsabilizo pelo que pode acontecer. Detesto André Luiz. Aliás, odeio nomes compostos. Com raras exceções. Tem gente que acha lindo. Rodrigo Ricardo. Otávio Roberto. Onofre Eduardo. Eu acho o fim. Parece coisa de novela mexicana. Pior só mesmo aqueles nomes enormes, cheios de sobrenomes. Supostamente, algo com ar aristocrático. Para mim, de uma breguice ímpar. Volta e meia meu nome aparece em um personagem na televisão. E sempre sobra pra mim. Já fui André Cajarana durante não sei quantos anos. Até hoje aparece algum engraçadinho metido a piadista que me chama de André Cajarana. Que eu nem lembro mais quem era, só que era um personagem do Tony Ramos. Eu acho. Agora, esse tal de André, de Belíssima. O sem-vergonha, safado e picareta que roubou tudo da Júlia. É, eu vejo novela também. Por quê, vai encarar? Pois bem... Agora, quase todo dia sou obrigado a ouvir as piadinhas: "Ah, André, mas não é igual ao da novela, né?". Um saco. Ainda mais que o cara, além de sacana, é mais feio do que eu. A fase não anda boa. Além de me chamar André e ser obrigado a ouvir esses gracejos sem graça, ainda sou publicitário, mineiro e careca. Aí, sempre tem outro engraçadinho que diz: "Mineiro, publicitário, careca... Sei, sei, igual ao Marcos Valério...".
No meu caso, ainda mais um agravante. Tenho o mesmo nome do ator da Globo, aquele, que quis dar um beijo no Pelé. Conhecido por, volta e meia, aparecer mal na fita por aí. Mais uma vez, as gracinhas. Enquanto tive um blog, dezenas, centenas de vezes, entrou gente lá e deixou comentários pensando que eu fosse ele. Teve gente que xingou, teve gente que elogiou, teve gente propondo casamento. Até uma macacas de auditório do fã-clube do rapaz andaram aparecendo, e dizendo que eu não devia usar o nome do talzinho para aparecer às custas dele. Pode, uma coisa dessas?De qualquer modo, não desgosto do meu nome. Se pudesse, tiraria o Luiz, e seria só André. Teve uma época em que eu queria me chamar Zé. Só Zé. Zé de nada. Zé. Mas passou. Hoje eu até gosto do nome que tenho. E mesmo do nome "artístico". André vem do grego, e significa "forte, viril". Isso deve ser bom. E deve haver um motivo para eu ter esse nome. Hoje entendo que há motivos para tudo nessa vida. Agora, eu só peço aos engraçadinhos de plantão que parem com essa chatice de fazer piada com o André da Júlia. E com o Marcos Valério. É muito chato.Mas, pensando bem, podia ser pior. Eu podia me chamar Bráulio.
Aí, era o fim da picada.
No meu caso, ainda mais um agravante. Tenho o mesmo nome do ator da Globo, aquele, que quis dar um beijo no Pelé. Conhecido por, volta e meia, aparecer mal na fita por aí. Mais uma vez, as gracinhas. Enquanto tive um blog, dezenas, centenas de vezes, entrou gente lá e deixou comentários pensando que eu fosse ele. Teve gente que xingou, teve gente que elogiou, teve gente propondo casamento. Até uma macacas de auditório do fã-clube do rapaz andaram aparecendo, e dizendo que eu não devia usar o nome do talzinho para aparecer às custas dele. Pode, uma coisa dessas?De qualquer modo, não desgosto do meu nome. Se pudesse, tiraria o Luiz, e seria só André. Teve uma época em que eu queria me chamar Zé. Só Zé. Zé de nada. Zé. Mas passou. Hoje eu até gosto do nome que tenho. E mesmo do nome "artístico". André vem do grego, e significa "forte, viril". Isso deve ser bom. E deve haver um motivo para eu ter esse nome. Hoje entendo que há motivos para tudo nessa vida. Agora, eu só peço aos engraçadinhos de plantão que parem com essa chatice de fazer piada com o André da Júlia. E com o Marcos Valério. É muito chato.Mas, pensando bem, podia ser pior. Eu podia me chamar Bráulio.
Aí, era o fim da picada.
09/03/2006
Metendo o pé na lama
Pense num homem feio. Enfeie mais. Pense que ele tem vitiligo. Corte uns 15 centímetros das pernas dele. Coloque nele os dentes do Ronaldinho Gaúcho, o cabelo do Ronnie Von e o jeito de andar de um pingüim manco. Pronto. Esse era o Rossi.
Rossi era o técnico da gloriosa Portuguesa, time de várzea de Belo Horizonte onde, como já contei aqui, comecei e encerrei minha espetacular carreira de jogador de futebol, na adolescência. Outro dia, comecei a lembrar do Rossi e das aventuras que todo domingo ele nos fazia enfrentar para bater uma bolinha.
Rossi era detetive aposentado, se não me falha a memória. Não sei bem porque, mas se aposentou cedo. E, depois de perder um filho, morto por um traficante, resolveu fazer, no bairro dele, um time de futebol, para ajudar a meninada a ficar longe das drogas e sonhar com um futuro melhor. Cheguei à Portuguesa através de um amigo, um pouco mais velho do que eu, e que jogava no time adulto, mesmo tendo 17 anos. Eu tinha uns 15. Era um mundo completamente diferente do meu. Cheguei lá com minhas chuteiras novinhas, short importado e meiões branco-Omo, um dos mais de 10 que eu tinha. Rossi olhou pra mim de cima a baixo, balançou a cabeça e disse: "já jogou bola descalço, branquelinho?". Respondi que não, e ele disparou: "pois tire aí as meinhas que mamãe lavou e o sapatinho de princesa, e mete o pé na lama, pra criar uns calos". Esse era o Rossi. Em trinta segundos me situou naquele espaço novo, e me deu várias lições. Em duas frases. Passei mais de um ano jogando na Portuguesa, antes de me mudar para o Rio. E descobri que Rossi era um amigo, acima de tudo. Quase um pai. E meio herói. Ele mesmo lavava os uniformes da Portuguesa, camisas verdes que, de tão velhas, eram quase brancas. Depois de um tempo, me colocou pra jogar também no time adulto, mesmo sendo eu um menino. Me entregou a camisa 7, com um rasgo quilométrico debaixo do braço esquerdo, e deu a ordem: "entra sem medo. Se alguém machucar você, a gente cobre de porrada". Entrei, fiz um gol, e, como não podia deixar de ser, perdemos. Mas Rossi me abraçou no final e deu um sorriso enorme, sem uns três dentes da frente, repetindo "é isso aí, branco-azedo, é isso aí".
E, nesse clima de família, com as piadas sem graça do Rossi e a sensação de que éramos o maior time de futebol de todos os tempos, rodávamos a periferia de Belo Horizonte. Uma turma de meninos e rapazes, uns vinte, subindo e descendo morros, em campinhos no meio da favela, onde fosse. Rossi pagava as passagens de todos. E, depois de cada jogo, aparecia com um saco de laranjas, que a gente era obrigado a chupar. Dizia ele que laranja era melhor que água, para reidratar e repor os sais minerais. O resultado dos jogos não importava. O que valia era a confusão e a aventura. Mas, vendo a gente meio chateado por nunca ganhar de ninguém, ele dizia: "esquenta não, moçada. Semana que vem tem mais. O jogo que vocês têm que vencer de verdade fica fora do campo".
Rossi perdeu o jogo contra um câncer, e eu só soube disso muito, muito tempo depois. Mas deixou gravada em mim aquela primeira frase.
E, hoje, todos os dias, eu tento fazer o mesmo que fiz naquele primeiro dia: meter o pé na lama e criar mais calos. O Rossi era gênio, e eu nem sabia.
Rossi era o técnico da gloriosa Portuguesa, time de várzea de Belo Horizonte onde, como já contei aqui, comecei e encerrei minha espetacular carreira de jogador de futebol, na adolescência. Outro dia, comecei a lembrar do Rossi e das aventuras que todo domingo ele nos fazia enfrentar para bater uma bolinha.
Rossi era detetive aposentado, se não me falha a memória. Não sei bem porque, mas se aposentou cedo. E, depois de perder um filho, morto por um traficante, resolveu fazer, no bairro dele, um time de futebol, para ajudar a meninada a ficar longe das drogas e sonhar com um futuro melhor. Cheguei à Portuguesa através de um amigo, um pouco mais velho do que eu, e que jogava no time adulto, mesmo tendo 17 anos. Eu tinha uns 15. Era um mundo completamente diferente do meu. Cheguei lá com minhas chuteiras novinhas, short importado e meiões branco-Omo, um dos mais de 10 que eu tinha. Rossi olhou pra mim de cima a baixo, balançou a cabeça e disse: "já jogou bola descalço, branquelinho?". Respondi que não, e ele disparou: "pois tire aí as meinhas que mamãe lavou e o sapatinho de princesa, e mete o pé na lama, pra criar uns calos". Esse era o Rossi. Em trinta segundos me situou naquele espaço novo, e me deu várias lições. Em duas frases. Passei mais de um ano jogando na Portuguesa, antes de me mudar para o Rio. E descobri que Rossi era um amigo, acima de tudo. Quase um pai. E meio herói. Ele mesmo lavava os uniformes da Portuguesa, camisas verdes que, de tão velhas, eram quase brancas. Depois de um tempo, me colocou pra jogar também no time adulto, mesmo sendo eu um menino. Me entregou a camisa 7, com um rasgo quilométrico debaixo do braço esquerdo, e deu a ordem: "entra sem medo. Se alguém machucar você, a gente cobre de porrada". Entrei, fiz um gol, e, como não podia deixar de ser, perdemos. Mas Rossi me abraçou no final e deu um sorriso enorme, sem uns três dentes da frente, repetindo "é isso aí, branco-azedo, é isso aí".
E, nesse clima de família, com as piadas sem graça do Rossi e a sensação de que éramos o maior time de futebol de todos os tempos, rodávamos a periferia de Belo Horizonte. Uma turma de meninos e rapazes, uns vinte, subindo e descendo morros, em campinhos no meio da favela, onde fosse. Rossi pagava as passagens de todos. E, depois de cada jogo, aparecia com um saco de laranjas, que a gente era obrigado a chupar. Dizia ele que laranja era melhor que água, para reidratar e repor os sais minerais. O resultado dos jogos não importava. O que valia era a confusão e a aventura. Mas, vendo a gente meio chateado por nunca ganhar de ninguém, ele dizia: "esquenta não, moçada. Semana que vem tem mais. O jogo que vocês têm que vencer de verdade fica fora do campo".
Rossi perdeu o jogo contra um câncer, e eu só soube disso muito, muito tempo depois. Mas deixou gravada em mim aquela primeira frase.
E, hoje, todos os dias, eu tento fazer o mesmo que fiz naquele primeiro dia: meter o pé na lama e criar mais calos. O Rossi era gênio, e eu nem sabia.
02/03/2006
O maior jogo de todos os milênios
Semana passada contei aqui algumas peripécias do meu passado. Parece que fez sucesso. Recebi vários e-mails: um com alguém dizendo não acreditar que eu já fui cabeludo, outro pedindo que eu suba novamente aos palcos pra desbancar Mick Jagger, outro criticando porque chamei nosso astronauta de tomate espacial. Pelo visto, falar sobre a gente dá ibope, mesmo. Bem, depois desse sucesso, resolvi escancarar e contar mais alguma coisa lá de trás da minha vida. E, olha, essa eu contei pra pouquíssimas pessoas. Que não acreditaram em uma só palavra, o que me fez resguardar ainda mais esse pedacinho heróico de minha existência. Mas aí vai.
Eu já joguei vôlei. Certo, sou um tampinha, mas joguei, numa época em que minha altura ainda era compatível com os demais da minha idade. Fui descoberto, e isso é um orgulho que trago comigo, pelo professor Adolfo Guilherme, que, bem antes de me descobrir, chegou a ser treinador da Seleção Brasileira Feminina. Jogando uma pelada nas quadras do Minas Tênis, em BH, seu Adolfo me viu, me chamou num canto e disparou: "Menino, você leva jeito. Quer treinar comigo"? Eu tinha 13, 14 anos. E foi aí mais de um ano com "seu" Adolfo, divertidíssimo, treinando e sonhando em crescer mais alguns centímetros e ser um novo William. Mas, peraí, essa não é a estória, é a introdução. Feita, aí vai o "causo".
Então, jogava vôlei. Mas acabou que fui morar no Rio de Janeiro. E fiz dupla de vôlei de praia com um amigo, o Ibinha. O Ibinha tinha um nome pomposo, aristocrático: Eduardo João Henrique Haas Gonçalves Júnior. Mas era duro, ferrado, e combinava mais com Ibinha, mesmo. Era meu amigo, colega de escola e dupla na praia. Inseparáveis. Éramos da mesma turma na oitava série. E, um dia, se na praia não ganhávamos de ninguém, tivemos nosso nome inscrito na galeria dos heróis mundiais do esporte, apesar de ninguém saber disso.
Nossa turma, a 802, chegou à final do torneio de vôlei da escola contra a 801. Eu de levantador, o Ibinha na entrada e o Zé Ricardo, que na época treinava no Fluminense, na saída de rede. Dos outros, confesso, não lembro. Mas o trio era quase imbatível. Só que, sabe-se lá porque, no dia da final nosso time não foi. Fomos só eu e Ibinha. Os dois e mais a torcida, o outro time, a diretoria da escola e meio mundo. Mas cadê o time? Íamos perder por WO. Mas, conversando com o professor de educação física e, no caso, juiz do jogo, ele permitiu que entrássemos em quadra, eu e Ibinha. Perder por WO era muito feio. Claro que todo mundo previa um massacre, mas entramos em quadra aplaudidíssimos pela iniciativa. Até que, dentro da quadra, eu e Ibinha começamos a dar um show. Ninguém acreditava. Eu e ele, sem reservas, sem mais ninguém, começamos perdendo o jogo, mas equilibramos ainda no primeiro set, que ganhamos de virada. A torcida, em êxtase, começou a gritar nosso nome. Pouco me importava, pelo menos a Carol gritava meu nome, e isso me bastava. A 801 mudou o time todo, entrou gente, saiu gente, e eu e Ibinha firmes, gigantes (eu nem tanto, mas entenda meu entusiasmo). A cada lance, um joelho esfolado, uma cabeça dolorida, mas ponto para a dupla da 802. Nós, claro. Que, acredite você ou não, ganhamos a partida. Eu e Ibinha derrotamos um time inteiro, com seis titulares e seis reservas. É verdade! Olha, to dizendo! Tenho centenas de testemunhas!
Tá bem, tá bem... Não precisa acreditar. Ninguém acredita mesmo. Mas vou procurar o Ibinha pela net e trago ele aqui pra você ver. Pode esperar.
Eu já joguei vôlei. Certo, sou um tampinha, mas joguei, numa época em que minha altura ainda era compatível com os demais da minha idade. Fui descoberto, e isso é um orgulho que trago comigo, pelo professor Adolfo Guilherme, que, bem antes de me descobrir, chegou a ser treinador da Seleção Brasileira Feminina. Jogando uma pelada nas quadras do Minas Tênis, em BH, seu Adolfo me viu, me chamou num canto e disparou: "Menino, você leva jeito. Quer treinar comigo"? Eu tinha 13, 14 anos. E foi aí mais de um ano com "seu" Adolfo, divertidíssimo, treinando e sonhando em crescer mais alguns centímetros e ser um novo William. Mas, peraí, essa não é a estória, é a introdução. Feita, aí vai o "causo".
Então, jogava vôlei. Mas acabou que fui morar no Rio de Janeiro. E fiz dupla de vôlei de praia com um amigo, o Ibinha. O Ibinha tinha um nome pomposo, aristocrático: Eduardo João Henrique Haas Gonçalves Júnior. Mas era duro, ferrado, e combinava mais com Ibinha, mesmo. Era meu amigo, colega de escola e dupla na praia. Inseparáveis. Éramos da mesma turma na oitava série. E, um dia, se na praia não ganhávamos de ninguém, tivemos nosso nome inscrito na galeria dos heróis mundiais do esporte, apesar de ninguém saber disso.
Nossa turma, a 802, chegou à final do torneio de vôlei da escola contra a 801. Eu de levantador, o Ibinha na entrada e o Zé Ricardo, que na época treinava no Fluminense, na saída de rede. Dos outros, confesso, não lembro. Mas o trio era quase imbatível. Só que, sabe-se lá porque, no dia da final nosso time não foi. Fomos só eu e Ibinha. Os dois e mais a torcida, o outro time, a diretoria da escola e meio mundo. Mas cadê o time? Íamos perder por WO. Mas, conversando com o professor de educação física e, no caso, juiz do jogo, ele permitiu que entrássemos em quadra, eu e Ibinha. Perder por WO era muito feio. Claro que todo mundo previa um massacre, mas entramos em quadra aplaudidíssimos pela iniciativa. Até que, dentro da quadra, eu e Ibinha começamos a dar um show. Ninguém acreditava. Eu e ele, sem reservas, sem mais ninguém, começamos perdendo o jogo, mas equilibramos ainda no primeiro set, que ganhamos de virada. A torcida, em êxtase, começou a gritar nosso nome. Pouco me importava, pelo menos a Carol gritava meu nome, e isso me bastava. A 801 mudou o time todo, entrou gente, saiu gente, e eu e Ibinha firmes, gigantes (eu nem tanto, mas entenda meu entusiasmo). A cada lance, um joelho esfolado, uma cabeça dolorida, mas ponto para a dupla da 802. Nós, claro. Que, acredite você ou não, ganhamos a partida. Eu e Ibinha derrotamos um time inteiro, com seis titulares e seis reservas. É verdade! Olha, to dizendo! Tenho centenas de testemunhas!
Tá bem, tá bem... Não precisa acreditar. Ninguém acredita mesmo. Mas vou procurar o Ibinha pela net e trago ele aqui pra você ver. Pode esperar.
10/02/2006
A Idade do Lobo
Envelhecer é bom. Pode parecer estranho alguém dizer isso, e são poucos os que já ouvi, mesmo, fazerem essa afirmação. Pelo contrário. Quase todo mundo diz que envelhecer é uma lástima. Uma praga. Um castigo. Pois acho esse tipo de visão de uma tolice constrangedora. Você aí, que tem seus vinte e poucos anos, cabelinho de príncipe chato de conto de fadas e quase nenhuma ruga nos olhos, pode acreditar. Envelhecer é bom. Mesmo. Está certo que o corpo já não responde a certos comandos cerebrais. E é evidente que isso incomoda um pouco. Aqui e ali um e outro desgaste nas peças vitais nos dão a certeza de que é impossível viver com tranqüilidade sem um bom plano de saúde, e que é bom pensar em fazer amizade na mesa de um bar com um geriatra, pra tentar algum privilégio na fila de espera. Mas, em compensação, a vida nos dá outras habilidades. Muitas, mais do que se pode imaginar. Aliás, falei em privilégio e fiz a conexão: acho, sinceramente, que envelhecer é um privilégio. Um privilégio que é dado a todos, indistintamente, no momento da concepção. A vida, em si, é envelhecer. No segundo milésimo de segundo depois de concebidos já somos mais velhos do que antes. E isso não pára. O problema, portanto, já que todos somos envelhecedores contumazes durante toda a vida, não parece estar no “envelhecer”. É bem provável que esteja no não compreender o que pode se tornar esse envelhecer.Não sei os outros. Mas, para mim, é gostoso sentir que, se na parte externa de minha cabeça tem alguns fios de cabelo a menos, na parte interna existe, todo dia, um pouco mais de compreensão das coisas, do mundo, das pessoas. Hoje, sou capaz de saber muito mais do que se passa com alguém apenas olhando nos olhos desse alguém e buscando no meu arquivo pessoal da memória coisas, fatos e sensações, do que saberia 20 anos atrás lendo milhares de relatórios ou ouvindo horas de explicações. Isso não tem preço, e isso só vem com o tempo, e esse é um prazer que não se tem aos 20 anos. O prazer de ler o que está por trás das palavras, de ver o que está atrás do visível, de ouvir o que está por trás do que se escuta. Sem fazer força. Sem agonias, nem angústias, nem pressas, nem aflições. Apenas, sabendo o que é e o que não é. E optando: acredito, finjo acreditar ou dane-se? Gosto, finjo gostar, ou dane-se? Envelhecer é saber, na maioria das vezes, as opções que se tem, e optar pela que se quer. Sem medo de ser feliz.Todos os dias venho aprendendo a ter um pouco mais de paciência com a vida, com quem me cerca. Com as coisas que são imutáveis, imexíveis, imprevisíveis. E tendo menos paciência com as coisas e gentes fúteis, fugazes, ilusórias, falsas. Envelhecer é saber que a vida é uma grande incerteza atrás de outra grande incerteza, e que só duas certezas podem ser tidas como absolutas: uma, que a gente envelhece. Outra, que a gente morre. Nem mesmo nascer é uma certeza, já que há quem não nasça. Mas não há quem não envelheça. Nem quem não se vá. É bom pensar nisso.
03/02/2006
Chocolate, dedos dos pés e alguma verdade
Essa semana fiz uma coisa que gosto de fazer desde criança: comi leite condensado com chocolate em pó. É assim que se faz: três quartos de xícara de leite condensado, 4 colheres (de chá) cheias de chocolate. Misture bem. É preciso mexer com certa velocidade, e é preciso fazer o barulhinho da colher na xícara. Mas não se pode deixar dissolver muito o chocolate: o bom são os carocinhos que ficam fazendo cócegas na língua. Explico, já que amadores podem começar a repetir essa situação e não achar graça nenhuma, pela inexperiência. É que é errado encher a colher e colocá-la na boca. Para sentir os carocinhos de chocolate que se formam coçarem a língua e explodirem dentro da gente, é preciso mergulhar a colher na pasta de chocolate e lambê-la aos poucos. Devagar. Aproveitando cada lambida como se fosse a última. Com carinho, com desejo e com calma. Como quem lambe os dedos dos pés da mulher amada. Ou, no caso das senhoras, como gostariam de ter seus dedos lambidos. Desculpem, talvez a expressão tenha sido forte. É que ambas as lambidas são, mesmo, pequenos gigantescos prazeres, que despertam sensações muito parecidas entre os iniciados. Se nunca fez, experimente. Ambas.Engraçado como os maiores prazeres da vida são os pequenos. Lamber a colher de chocolate, colocar um filho no colo em uma festa de aniversário, roçar o pé do ser amado por baixo dos lençóis, receber uma mensagem carinhosa pelo celular no meio da tarde, tomar sorvete de flocos num começo de noite qualquer, sentir o cheiro da chuva, vestir a camisa do time quando ele é campeão. Coisas banais, quase fugazes, quase imperceptíveis. É que estamos acostumados a acreditar que a vida é muito mais do que isso. E não é. A vida, de verdade, não é a viagem de navio pelas ilhas gregas. Essa parte pode ser boa, mas é apenas uma pequena amostra do quanto estar em casa, estar com os seus, deitar no seu colchão, sentir o cheiro do seu quarto, é bom. A vida não é andar de Ferrari. Andar de Ferrari é um pequeno luxo dispensável. A vida é chegar aonde se está indo. E é possível chegar de Ferrari ou de Fusca. A sensação da chegada é a verdade da vida, não a sensação da ida. A chegada sim, é indispensável.Tem gente que está com tudo na mão, e não percebe. Tem gente que acha que a felicidade está um pouco mais além, e tropeça todo o dia na felicidade, e chuta a felicidade, só porque ela não é completa como as novelas e os filmes nos fazem crer. Tem gente que abre mão da vida, tem gente que abre mão de um grande amor, tem gente que abre mão da felicidade, em nome de conveniências, de pressões sociais, em nome de distâncias criadas pela própria consciência. Tem gente que abre mão de seus pequenos prazeres cotidianos, acreditando que mais dinheiro, mais poder, mais alguma coisa, podem dar mais prazer. Tolice. Isso, sim, é pensar pequeno. Pensar pequeno a respeito do que se é, do que a vida é feita, do que o mundo quer de nós.
Eu não abro mão de pensar grande a respeito da vida. E pensar grande a respeito da vida é querer pouco dela. Quero só que ela me dê de volta o que dou a ela. E venho tentando dar mais a cada dia. Ser mais honesto, mais sincero, mais tranqüilo, mais verdadeiro. Meu mais novo barato é a Verdade. É o meu mais novo fetiche.
Agora, vou lamber a Verdade como quem lambe os dedos dos pés da mulher amada. Como nunca fiz antes. Como faço com minha colher de chocolate.
Eu não abro mão de pensar grande a respeito da vida. E pensar grande a respeito da vida é querer pouco dela. Quero só que ela me dê de volta o que dou a ela. E venho tentando dar mais a cada dia. Ser mais honesto, mais sincero, mais tranqüilo, mais verdadeiro. Meu mais novo barato é a Verdade. É o meu mais novo fetiche.
Agora, vou lamber a Verdade como quem lambe os dedos dos pés da mulher amada. Como nunca fiz antes. Como faço com minha colher de chocolate.
20/01/2006
Pensamento Rápido Sobre a Pressa
Nos últimos meses uma pequena paranóia tem me tirado a tranqüilidade. E a culpada fica bem aqui, ao lado, pertinho da minha coluna. É a coluna do Professor José Maria, Escorregões no Português. Sem perdão e com a maior educação e pertinência, o professor vem apontando erros gramaticais, de concordância e assassinatos à língua portuguesa que acontecem aos montes por aí, especialmente nos jornais. Daí, a minha paranoiazinha. Morro de medo de levar um tombo ao tropeçar numa crase jogada a esmo no meio do texto e cair de cara ou, pior, com minhas partes carnudas e globosas, na coluna simpática e absolutamente necessária do professor José Maria. Apesar disso, daqui, professor, digo que esteja à vontade. Mas o fato é que na semana passada, mesmo, eu cometi alguns erros. Não vou dizer aqui quais, mas sei que estão lá. Que medo. Aliás, um eu digo: coloquei duas vezes a palavra "particularmente" no mesmo texto. Imperdoável. Não, não foi questão de estilo. Foi a pressa, mesmo. E, assim, finalmente entro no assunto: a pressa.
Como todos andam apressados nesse mundo, que coisa! Nunca se teve tanta, tanta necessidade de se fazer tudo tão depressa. É pressa para escrever coluna, é pressa para fechar o jornal, é pressa para estudar, é pressa no trânsito. Acredito piamente que o maior mal do mundo, hoje, é a pressa. Que, todos sabem, é a inimiga da perfeição, e blá, blá, blá... Em nome dessa pressa, os carros são cada vez mais rápidos e os acidentes cada vez mais constantes e violentos. Em nome dessa pressa, as meninas são menos meninas, os meninos menos meninos. As relações, tão apressadas, estão cada vez mais fugazes: conhece-se, namora-se, casa-se, briga-se e divorcia-se em uma noite ou, em casos ainda mais apressados, numa manhã. Acontece tudo de uma vez. Todo trabalho é para ontem. Toda música de semana passada é flash-back. Poemas de dois anos atrás são fósseis encontrados na Serra da Capivara por Niéde Guidon. Computadores com seis meses de uso são obsoletos. Cursos superiores são feitos em dois anos. Tudo, absolutamente tudo, tem de ser fast (uma palavra da língua portuguesa moderna): almoço fast, carreiras profissionais fast, pensamentos fast, convicções fast. Governos começam para durar quatro anos e, apressados para garantir que se tornem oito, trabalham dois e discutem eleições durante dois. A Internet tem de ser rápida, Schumacher é melhor que Barrichello, técnicos de futebol devem operar milagres em três meses, o sinal de trânsito deve ficar verde cinco segundos mais cedo, o motorista do ônibus tem comichão no dedo e coça na buzina. Cartas, alguém ainda escreve? Meu avô, que morreu em novembro, foi a única pessoa, desde a minha infância, que me escreveu cartas. Agora, tudo precisa ter a velocidade do e-mail ou, senão, é arcaico, chato e absurdamente irritante. Até a música para dançar. Se não for eletrônica ou tiver um andamento de marcha de carnaval, é canção de ninar.
E o mundo? Ah, o mundo está aí. Cada vez mais rápido, cada vez mais veloz, cada vez mais frio, cada vez mais injusto. Porque as injustiças avançam na mesma velocidade que a pressa nos separa do outro. A cada dia, mais rapidamente esquecemos que viver não é uma corrida de 100 metros. Que muita coisa precisa de mais cuidado, atenção, carinho, respeito. De tempo para existir e acontecer. De atenção. E que a pressa, repetindo, inimiga da perfeição, vem, cada vez mais apressadamente, ocupando um espaço que não devia: o coração das gentes de todo lugar. Vai ver, então, que é por isso que somos cada vez mais imperfeitos: somos, cada vez mais, mais apressados. Até onde isso vai nos levar?
Como todos andam apressados nesse mundo, que coisa! Nunca se teve tanta, tanta necessidade de se fazer tudo tão depressa. É pressa para escrever coluna, é pressa para fechar o jornal, é pressa para estudar, é pressa no trânsito. Acredito piamente que o maior mal do mundo, hoje, é a pressa. Que, todos sabem, é a inimiga da perfeição, e blá, blá, blá... Em nome dessa pressa, os carros são cada vez mais rápidos e os acidentes cada vez mais constantes e violentos. Em nome dessa pressa, as meninas são menos meninas, os meninos menos meninos. As relações, tão apressadas, estão cada vez mais fugazes: conhece-se, namora-se, casa-se, briga-se e divorcia-se em uma noite ou, em casos ainda mais apressados, numa manhã. Acontece tudo de uma vez. Todo trabalho é para ontem. Toda música de semana passada é flash-back. Poemas de dois anos atrás são fósseis encontrados na Serra da Capivara por Niéde Guidon. Computadores com seis meses de uso são obsoletos. Cursos superiores são feitos em dois anos. Tudo, absolutamente tudo, tem de ser fast (uma palavra da língua portuguesa moderna): almoço fast, carreiras profissionais fast, pensamentos fast, convicções fast. Governos começam para durar quatro anos e, apressados para garantir que se tornem oito, trabalham dois e discutem eleições durante dois. A Internet tem de ser rápida, Schumacher é melhor que Barrichello, técnicos de futebol devem operar milagres em três meses, o sinal de trânsito deve ficar verde cinco segundos mais cedo, o motorista do ônibus tem comichão no dedo e coça na buzina. Cartas, alguém ainda escreve? Meu avô, que morreu em novembro, foi a única pessoa, desde a minha infância, que me escreveu cartas. Agora, tudo precisa ter a velocidade do e-mail ou, senão, é arcaico, chato e absurdamente irritante. Até a música para dançar. Se não for eletrônica ou tiver um andamento de marcha de carnaval, é canção de ninar.
E o mundo? Ah, o mundo está aí. Cada vez mais rápido, cada vez mais veloz, cada vez mais frio, cada vez mais injusto. Porque as injustiças avançam na mesma velocidade que a pressa nos separa do outro. A cada dia, mais rapidamente esquecemos que viver não é uma corrida de 100 metros. Que muita coisa precisa de mais cuidado, atenção, carinho, respeito. De tempo para existir e acontecer. De atenção. E que a pressa, repetindo, inimiga da perfeição, vem, cada vez mais apressadamente, ocupando um espaço que não devia: o coração das gentes de todo lugar. Vai ver, então, que é por isso que somos cada vez mais imperfeitos: somos, cada vez mais, mais apressados. Até onde isso vai nos levar?
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